Era uma vez um cachorro que amava o mar…

Se havia uma coisa que Billy realmente apreciava era sentar-se à beira da praia olhando o mar. Seu focinho movimentava-se aleatoriamente, pescando cheiros da maresia. Mirava ao longe, observava pessoas, e se alguém da família saía para caminhar, acompanhava seus passos com o olhar até onde a vista alcançasse. E ficava à postos esperando. Quando avistava o contorno dos donos retornando, sabia que era a chance de uma escapulida pela areia. E então ele vinha, todo feliz, abanando o rabo, ao nosso encontro. Doce Billy. Quem ficaria bravo com essas boas vindas?

Mas quem o conheceu desde filhote sabe que nem sempre foi assim, que essa paz só foi conseguida depois de muita correria e castigos no lavabo da casa de praia. Quando ele escutava a palavra “castigo”, já sabia que deveria ir ao banheiro e ficar por lá até que os ânimos se acalmassem. E olha que ele realmente nos tirava do sério. Fugia pelo condomínio, correndo numa velocidade inalcançável. Voltava quando bem lhe dava na telha, ou quando alguém o encurralava de carro. No primeiro verão da sua vida atacou guarda-sóis, furou bolas coloridas e assustou criancinhas, mesmo sendo do tamanho de um poodle. Isso porque só tinha 3 meses. O jardim, que transbordava diretamente na areia,  e ficava a poucos metros do mar, era um convite à suas maluquices. Não foram poucas as vezes que cogitamos usar até uma cerca eletrica subterrânea para conter o Billy.  Era apaixonado pela família, mas não tinha peso nenhum na consciência em causar o que fosse para gastar a sua infinita energia.

Imagine que ir a praia com um cachorro desertor já é dificil, pense então em ir a praia com um cachorro fugitivo com gesso na pata. Em seu segundo verão de vida, após um atropelamento suicida às vésperas do Natal (fruto de mais uma de suas inconsequentes fugas noturnas), Billy teve que levar pontos na cabeça e enfaixar uma das patas traseiras. Mesmo assim, se mandava sem pena. Voltava arrastando as ataduras imundas, enfarinhado em areia, e molhado até a alma. Imobilizá-lo sobre a mesa de jantar e trocar os curativos era uma rotina estressante, e pensamos seriamente que a perna não se curaria devido as inúmeras vezes em que foi preciso limpar e enfaixar tudo de novo. Mas nosso Bilão era valente, e no mês seguinte já estava bem. Com 1 ano e meio, ele então começava a se acalmar. Pesaroso pensar nisso, mas foi necessário um acidente para que ele entrasse um pouquinho nos eixos. E nem a cicatriz na cabeça que o acompanhou por toda vida o deixava menos lindo. Como era bonito nosso cachorrão.

Seu pai era um labrador chocolate, grande e forte, de quem Billy herdou a cor. E também uma eventual braveza, que se mostrava em alguns arranca rabos, principalmente envolvendo algum macho com a auto-estima maior que a dele ou qualquer fêmea que aparecesse . Era um eterno romântico. Fosse uma viralatinha capenga do sítio, ou uma labradora com pedigree, após o encontro amoroso o Billy passava dias uivando tristemente. Teve muitas “amizades coloridas”, com labras de todas as cores, e deixou mais de 30 descendentes (só diretos, imagine quantos netos, bisnetos e trinetos) espalhados por aí. Sua mãe era uma labradora preta, com um quêzinho de labralata, de quem puxou o corpo grande, magricelo e o olhar cor de caramelo. Libriano, nasceu em meados de outubro numa garagem em Osasco. No início de dezembro fomos buscar o filhote macho, único marrom, fofo demais, aquele que toda  família escolheu. Na garagem onde viveu suas primeiras semanas de vida ele parecia tranquilo em meio ao caos da ninhada. Chegando em casa, ligou o botão infernal. Corria, rolava, mordia, comia tudo que estivesse ao alcance. No primeiro ano foram telefones, chaves do carro, diversos óculos escuros, sapatos, roupas.  Os potes de ração se transmutavam em plástico retorcido, até que foram substitídos pelos metálicos, e os pés da mesa da cozinha ficaram mais finos a cada dia. Não podia ter caminha, nem cobertor, pois na manhã seguinte nada mais restava do que trapos coloridos.  Não foram poucas as vezes que fiquei com a mão furada, seus dentes-de-leite pareciam agulhas, e ele adorava exercitar a mini mandíbula. Nessa época comecei a aprender na marra a frase mais válida sobre cachorros: labrador bom é labrador cansado. Se ele não saísse de casa ao menos duas vezes ao dia, para correr ou caminhar rápido, e roesse uns 5 ossinhos, e ainda subisse e descesse as escadas atrás de algum dos gatos da casa, pode ter certeza que o pequeno Billy se faria notar. Com a boca: latindo ou comendo algo. De preferência algum eletrônico bem caro.

Adorava andar de carro, sempre com a cabeça para fora. Naquela época ainda não havia restrições a cachorros em Cumbica, e ele fez um sucesso estrondoso ao buscar meus irmãos no aeroporto. Não tinha jeito de deixá-lo no carro, pois com certeza na volta o assento estaria rasgado, ou o câmbio totalmente destruído. E como se esquecer da famosa frase, a que ele mais gostava de ouvir em todo o mundo? “Vamos passear?” E ele começava a correr descontrolado, a saltar, pegava a coleira com a boca. Quem realmente o conhecia podia afirmar que nessas horas ele até mesmo sorria. Era sua hora favorita do dia.

Com 6 meses, Billy ganhou um irmão. Com muito esforço convenci minha mãe de que seria ótimo para os nervos do Bilão (e dos nossos também) ele ter um amigo labrador com quem brincar. Dessa vez escolhemos um macho amarelo, o cachorro mais belo que já vi, que tem o focinho claro e olhos quase azuis. Batizamos de Mike. Forte desde bebê, ele também é incansável, mas sem a rebeldia do Billy. É mais contido, adestrável, e se deixa educar. Obedece e respeita, desde pequeno. Responde aos comandos, e virou realmente a companhia ideal do irmão. Nesses 12 anos de vida, não passaram mais do que duas horas separados. Foi de partir o coração ver o Mike ao lado do Billy nas suas últimas horas de vida. Companheiros até o final.

Os dois cresceram num grande jardim, e de vez em quando desatavam a correr. A gente dizia que dava a louca nos cachorros. Billy parecia um carro desgovernado, pois saía pela tangente nas curvas, de tão rápido que ia! Depois se jogavam na piscina. Mike ia direto, porém Billy precisava do seu “aquecimento”. Não sei se era um tique nervoso ou superstição canina, mas ele necessitava dar 5 voltas na piscina antes de entrar. E entrava… pela escadinha! Apoiava as patas traseiras, de repente erguia as dianteiras e se jogava! Sempre da mesma forma. Era mesmo um cachorro nada convencional.

Nos almoços, enfiava o focinho nas mãos de quem comia. Era muito pidão. Sempre ganhava algum pedacinho, e ao longo dos anos minha mãe criou o péssimo hábito de presenteá-lo com pão francês nas manhãs. De pidão passou a ser implorante. Fios de baba escorriam pela sua boca, e chegavam a se pendurar por 30 cm! Cena incrível, mas nada agradável quando se está comendo. Criou um discípulo: o gato Crocat, que aprendeu a pedir comida da mesmíssima forma, e até hoje nos arranha na mesa pedindo almoço. Billy também revirava lixos e lixeiras sempre que tinha a chance. Sem dúvida ele tinha um pé na cozinha, literalmente.  Espalhava restos por todo o canto, e comia de tudo. Não raro vomitava depois. Num Natal, enquanto a gente se arrumava e ele ficava preso na cozinha, devorou o peru da ceia. Ficou só a assadeira.

Sei que neste carnaval eu perdi o cachorro da minha vida. Junto com o Mike eles foram os companheiros da minha adolescência e começo da vida adulta. Me fizeram rir, me deixaram nervosa, me levaram pra passear, dormiram comigo muitas tardes e noites. Só com olhares a gente se entendia. O Billy adorava que eu o esticasse na caminha (quando ele finalmente ganhou e não destruiu uma) e fizesse um barulho bem esquisito na orelha dele. Era o boa noite. Era assim que a gente se falava. Agora só conversaremos em sonho. Ou em outra vida.  Hoje ele está enterrado na praia. Assim como na foto, ele terá eternamente aquilo que sempre amou: a vista do mar.

Vai em paz, meu Bilão.

Anúncios

De volta! Com tempo reduzido, com amor multiplicado!

Ah, que saudades desse cantinho! Meu espaço de desabafar, contar, relatar, criar, vivenciar, imaginar… Nesses meses que passei distante, diversas vezes me perguntei: escrever para que? Hoje a noite me veio a resposta. E aqui estou.

Começo tirando as teias de aranhas e o pó acumulado, não só aqui do blog, mas também das minhas idéias. Passei 9 meses sendo mãe embarrigada, onde a criatividade era pouca, mas ao menos eu tinha tempo. De sobra. Não só tempo, como insônia. Com um certo esforço, os textos brotavam. Agora tampouco sou um às criativo (e além disso o tempo ocioso não existe mais) porém a tal inspiração bateu à porta. Não, isso é exagero meu. Digamos que ela passou do outro lado da rua, acenando de longe, mas ao menos deu as caras. Escrever só mesmo assim, quando um raio de inspiração cruza a mente. E sabe-se lá porque ele aparece, se por obra do destino, por capricho ou engano. Ou ainda porque eu gosto tanto, tanto, tanto de escrever, que mais hora menos hora até mesmo o mais intenso instinto de mãe dá lugar (ou ao menos um espaço) àquilo que a gente realmente é na essência.

Mas nada mais justo do que voltar a escrever contando um pouco do “motivo” do meu afastamento. Já são 3 meses de maternidade do menininho mais doce do mundo. Nicolas não é bonzinho, ele é bom. Uma criança calma, que gosta de passear, olhar, brincar. Adora a sua rotina. Com a Lorena, a rotina era inexistente. Ela fazia o que bem queria, se rendia ao sono em qualquer canto, qualquer horário. Nicolas gosta de dormir à mesma hora todas as noites. A única coisa que o faz chorar bravamente é impedi-lo de dormir quando tem sono. Gosta de escuro, aprecia adormecer no seu berço. Sozinho. Também gosta de ser ninado. Se sentir abraçado o acalma imediatamente. Ele tem um sorriso que ilumina. Sua risada não é linear, ele abre a boca para sorrir! E o sorriso mais lindo é aquele que ele dá ao acordar. Seus olhos são cinza escuros, às vezes castanhos, e de alguns ângulos, verdes. Parece comigo quando bebê. É impressionante ver uma vida começando assim. A cada manhã me surpreendo com ele. Ao mesmo tempo que o conheço tão completamente, que sei decifrar cada um de seus choros, que sei como ele está só de mirar seu rostinho, também tenho um mundo todo a desvendar com ele. Afinal, estamos só começando, são poucos meses de olho no olho. É um relacionamento ainda no início. É o princípio de uma união eterna. Mais uma. Quando lembro de antes d011 do 11 do 11, é como faltasse um pedaço. Como se eu tivesse vivido sempre à espera dessa peça, a que faltava para completar o meu pequeno (e tão gigante sentimentalmente!) quebra-cabeças maternal.

Nada me enche mais o coração do que ver meus dois pequenos juntos. A Lorena tem ciúmes durante o dia, mas não há uma só noite em que ela não se esgueire sorrateiramente para dormir na cama no quarto do irmão, ao lado do berço. Juntos. E também, ao mesmo tempo em que ela não tem paciência para reclamações e resmungos do Nico, quando ele se verte em lágrimas num choro verdadeiro, não raro ela chora junto. Não gosta de ver o irmão infeliz. Que a pureza desse amor possa perdurar por toda a vida dos dois. Chegará o dia onde só terão um ao outro. E que sejam unidos o bastante para sempre se apoiarem mutuamente. E eu só tenho a agradecer por ser mãe dessa dupla abençoada. Que Lorena e Nicolas continuem a se tornar cada dia mais o foco da  minha inspiração. Não só para escrever, mas para continuar vivendo e fazendo o bem. Por eles. Para eles.

Planejando uma criança

Não desejo ao meu bebê força, e sim saúde de ferro.

Não quero uma criança polida e séria, e sim um filho risonho e bem-educado.

Não quero que ele tenha a melhor profissão do mundo, e sim que alcance a realização pessoal naquilo que escolher fazer.

Não espero que ele tenha tudo o que quiser na vida, mas que queira bem tudo aquilo que tem.

Não pretendo criar um filho mimado, e sim muito amado.

Não quero um filho sempre limpo, quero uma criança que saiba se divertir e se sujar.

Não desejo a ele a maior nem a mais bonita casa, e sim que ele conheça o valor de um lar.

Não quero que meu filho seja o aluno que compreende todas as fórmulas matemáticas, e sim aquele capaz de entender as outras pessoas.

Não espero que ele seja lindo, e sim que traga beleza em todos os seus gestos.

Não quero que meu filho se rebele contra o mundo, mas que saiba manter a sua opinião.

Não quero ter um filho que mira sempre em frente, e sim uma criança que sabe olhar para as estrelas de vez em quando.

Não espero um filho com formigas nas calças, e sim uma criança ativa.

Não desejo um filho ambientalista, e sim que ele saiba da importância de se plantar uma árvore.

Não espero que ele viva sem chorar, mas que se lembre que sorrir é sempre o melhor remédio.

Não espero que ele chegue ao topo do mundo, mas que saiba subir em árvores.

Não espero que ele saiba as respostas à todas as perguntas, e sim que aprecie ler um bom livro.

Não quero que meu filho seja solitário, mas que quando necessário saiba ficar bem sozinho.

Não quero ter um filho que agrade a todos, mas uma criança que agrade a cada um no seu momento certo.

Não espero que ele salve o mundo, mas que seja capaz de amar os animais desde pequeno.

Não desejo que ele mova montanhas, mas que tenha persistência para chegar onde quiser.

Não espero que meu filho seja vegetariano,  e sim que saiba se alimentar bem.

Não quero um filho que fala demais, e sim uma criança que adora perguntar o porquê das coisas.

Não espero ter um filho bicho-do-mato, e sim uma criança que sabe conviver com a natureza e o verde.

Não desejo que ele tenha um físico impecável, e sim que adore praticar esportes.

Não espero que ele tenha uma turma enorme, mas sim bons amigos com quem contar.

Não desejo criar meu filho numa redoma, mas sim ensiná-lo como se proteger.

Não espero ter em casa um maratonista, mas sim um filho que sabe correr atrás dos seus objetivos.

Não quero ter um filho que me obedeça cegamente, e sim uma criança que sabe quais são seus limites.

Não espero um filho perfeito, e sim um menino feliz! Bem vindo meu bebê Nicolas!

5 anos

Tão pequena e tão adulta ao mesmo tempo.

Essa semana a Lolo completa 5 anos de idade. É a fase da “emancipação” infantil. Ela não precisa mais ser cuidada. A gente continua à disposição, querendo ajudar, mas somos delicadamente dispensados. Precisa de ajuda com as meias? Não mamãe! Vamos preparar o seu leite? Deixa que eu faço, diz ela já subindo no armário e pegando a lata de Nescau. Nos finais de semana com o pai, ela me liga para conversar, e dali alguns minutos vem a frase: “mamãe, posso desligar porque tenho muitas coisas para fazer?” Claro, assistir pela décima vez o filme Coraline ou colocar ração para o gato são atividades importantes para ela, que realmente deseja fazê-las. Não apenas sabe, como quer participar, quer sentir que já é uma pessoinha muito útil ao seu entorno e a todos que vivem nele.

As lições de casa agora neste semestre são bi-semanais, e como eu fazia antes, fui soletrar os números da data para ajudá-la. E ela: “mãe, eu não preciso mais que você me fale. Eu sei como fazer o dia, mês e ano.” Ah tá. E a mãe aqui fica olhando, se sentindo coadjuvante, ao perceber que a pequena está assumindo o papel principal na sua própria vida.

Ela nasceu pequena, pretinha, cabeluda, o oposto da exuberância loira que é hoje. Era um mini macaquinho, tão indefeso, e tão decidido ao mesmo tempo. Ela nunca foi um bebê inseguro. Dificilmente chorava. Apesar de meiga, sempre soube o que queria, e felizmente se tornou uma criança com excelente auto-estima. Mamou mais de um ano no peito, praticamente um bezerrinho, e até hoje quando adormece, muitas vezes procura inconscientemente colocar as mãos na minha blusa. E nada como o leite materno para dar a força, a saúde de ferro e o tamanho que ela tem. São quase 1,15m de altura, está calçando 30 e nunca fica doente (toc, toc, toc). 

Tão cuca fresca em algumas coisas, minha filhota se torna uma “com frescura” quando se tratam de sapatos. Não gosta de nada. Sapatilhas, all stars, sandálias, nada disso ela aprova. Ama crocs e botas. Vai nas festas linda, bem arrumada, do tornozelo para cima, já que nós pés só calça aquele pedaço de borracha. Quanto mais desgastado melhor. Também quer estar sempre bonita, mas não gosta que mexam no seu cabelo. São várias técnicas de distração que aprendi ao longo dos anos (perfumes, batonzinho, e a mais nova delas, enxaguante bucal infantil, que ela simplesmente acha o máximo) para que eu consiga colocar chucas, rabos de cavalo ou simplesmente pentear e aplicar uma fivela. Secador de cabelos então é uma palavra proibida, e ela corre só de escutar o barulho. 

Ela ama os animais, de todas formas e tamanhos, não deixa que se mate nem uma formiga.  Convive com cachorros enormes desde que nasceu, e sabe muito bem como colocar uma coleira ou dar um osso sem ter sua mão abocanhada. É o tipo de criança que conhece os depósitos de reciclagem pela cor, e quando vê um plástico no chão abaixa para recolher, sempre com o sutil comentário: “lixo na natureza não pode, né mãe!”

Está aprendendo a andar de bicicleta com o pai, e cada vez que volta avisa que está QUASE andando sem rodinhas. Ama praia, litoral norte ou sul, tanto faz, desde que tenha areia e um mar lindo na frente. Viagens também são apreciadas, e ao olhar o globo terrestre já identifica vários países e todos os continentes pelo nome. Nada sozinha desde os 2 anos de idade, sem bóia alguma, e apesar de adorar uma piscina, detesta água fria. Faz manha para uma porção de coisas, como por exemplo tomar banho, mas depois não quer sair do chuveiro. Reluta em provar comidas novas, mas com um pouco de pressão ela experimenta (e adora!) como aconteceu recentemente com um kiwi e uma mousse de maracujá. No feijão dela não pode ter nem uma cebolinha, tomatinho ou qualquer “verdinho”, que ela se desepera e não quer comer. Detesta peixe, mas adora comida japonesa. Salmão e arroz são seus favoritas. Quando tentamos explicar que salmão é um peixe, ela fala: “claro que não, salmão é um sushi!”

Seu melhor amigo em casa é o gato Cookie, um filhote de 10 meses que acompanha ela em todas as suas loucuras e invenções. Ela veste o gato, faz casinha para ele e os dois jogam bola juntos. Às vezes correm endoidecidos por 15 minutos ou mais, ela na frente com uma isca (pode ser um pirulito ou uma bonequinha polly amarrada precariamente num barbante) e o gatinho atrás, perseguindo. Já imagino como vai ser com o irmão. Ela beija minha barriga todas as vezes que nos reencontramos, e gosta de contar segredos para o Nicolas, que ninguém mais escuta. No quarto dele,  separa as roupas que ela gosta e as que não gosta, “porque essa roupa não fica bonita no meu irmão!”

Nunca eu imaginei ser tão feliz com a Lo. Essa pequena me completa em tudo. Me tira do sério, mas num bom sentido.  Até nas vezes em que tenho que ser mais dura, não brigamos. É sensível, e não gosta que as pessoas se decepcionem com ela. São tão poucas as broncas, que uma palavra mais forte e dita num tom de voz alto já surte efeito. É mais preguiçosa que desobediente, e a melhor forma de se conseguir dela o que queremos é explicando o porquê daquilo. Sua boa vontade funciona através da inteligência, e ela atende tudo aquilo que toma por desafiador. Não faz as coisas por fazer, e sim por um propósito. Adora planos, e programar atividades é uma das coisas que mais gosta no mundo! Ficar parada não é com ela, e todos os tios e avós já sabem que quando a pequena está do lado, nada de folga. Tanto pique tem seu lado positivo: dorme religiosamente suas 12 horas por noite. 8 da noite desmaia, para só dar as caras 8 da manhã do dia seguinte. Uma verdadeira bênção. Claro que isso só em casa, porque com as avós ela é uma boa enroladora, e consegue quase sempre o que quer, ou seja, uma história a mais, um episódio de desenho ou simplesmente uma conversa.

Filha, obrigada por esse 5 anos. Obrigada por cada abraço, por cada sorriso, e por cada maluquice que você me ensinou. Hoje sei que sou uma pessoa muito melhor por sua causa. Que você tenha um lindo aniversário, e saiba que eu sempre vou fazer TUDO que estiver ao meu alcance para que você seja uma menina muito feliz e também um ser humano cada vez melhor. E como eu te digo todas as noites:  você é minha vida. Te amo!

Histórias de Nina IV

Era uma noite fantástica, calma, “com ninguém”, na Vila Nova… Ele decidiu sair para caminhar com ela, mas “com ninguém”. Ela gostou da temperatura, do clima de verão, desfrutava intensamente da brisa no seu rosto lindo. Mexia com quaisquer plantinhas que achava pela rua (mas ninguém mexeu com as plantas). Ela sorriu quando viu um gato correr por detrás de alguma coisa, que ninguém viu. Ela gostava muito de animais pequenos, e ele o pegou para que ela o acariciasse suavemente (mas ninguém sorriu, nem ninguém passou a mão no gatinho). Depois, ela escolheu aquele lugar lindo para provar um doce, na praça cheia de árvores. Naquele lugarzinho em especial, que sempre iam às quintas-feiras quando havia temperatura de verão e brisa, ela experimentou a iguaria como se fosse a primeira e a última vez, muito devagar, e o seu gesto foi inesquecível (mas ninguém escolheu um lugar nem experimentou nada, tampouco fez um gesto inesquecível). 

Foi também doce o retorno à casa. Ela tomou a mão dele, lançou aquele olhar cúmplice e terno que só ela conseguia dar, colocou os dedos no pescoço dele e susurrou alguma coisa que ninguém pôde ouvir, exceto por eles dois (mas ninguém tomou a sua mão, nem olhou para ele com olhar cúmplice ou sussurrou qualquer coisa). E assim foi que aconteceu numa deliciosa noite de verão roubada do inverno. Ele desfrutou muito o estar “com ninguém”, entretanto tão bem acompanhado. Dormiu tranquilo com ninguém, porém não se sentiu sozinho naquela noite em Vila Nova.

Histórias de Nina são pequenos textos de ficção sobre vida, amor e relacionamento. São pensamentos, que podem ou não ter a ver com a realidade. São necessariamente reais, mas não obrigatoriamente verdadeiros. Qualquer semelhança com fatos, pessoas ou idéias é mera coincidência.

Pretinho vai, branquinho vem!

É difícil deixar ir algo que nos acompanhou pelos últimos 3 anos. Um “lugar” onde passamos ao menos duas horas diárias, às vezes mais. Onde escutamos música, damos risada e até choramos. Onde fiz a minha filha tantas vezes adormecer, numa idade onde ela só pegava no sono no movimento monótono das ruas. Um casulo onde podemos ser nós mesmos, onde pensamos na vida, e em muitas ocasiões o local de tomada de importantes decisões. Quem já não racionalizou diante de um problema: “preciso entrar no carro e pensar?” Ou então, impaciente com filhos ou pais estressados, disse: “no carro a gente conversa”.

O carro é nossa segunda casa. MEU carro (ainda é meu até sexta-feira) está maduro. Com 6 anos e 110 mil quilômetros bem vividos, tem um ou outro ralado e sua pintura escura, antes brilhante, hoje está mais para fosca (se bem que a poeira de mais de dois meses sem lavar tem muita culpa nisso). E como praticamente quase todo carro de mãe (ou pessoa não muito organizada, categoria bem comum na minha família), vive cheio de tralhas e baguncinhas. Claro que eu era bem mais cuidadosa quando não tinha filhos, lavava eu mesma o carro aos domingos, e cuidava para que não restasse um único resquício de sujeira no seu interior. Com a Lorena vieram as bolachas, as migalhas, as cascas de banana. Sem contar papéis de bala, suquinhos, sapatos de Barbie, ursos de pelúcia e circulares da escola. E torna-se um ciclo vicioso do Jaque.  Já que o carro está sujo, não faz mal deixar mais essa garrafinha aqui. Já que não lavo há um mês, e hoje parece que vai chover, não lavarei também. Já que amanhã a Lo vai pra escola, aproveito e deixo a mochila e os tênis jogados no banco de trás. Jaque desgraçado.

O bom é que, quando perco alguma coisa, já sei imediatamente onde encontrar. Em 90% das vezes está lá, mas incrivelmente já consegui perder coisas dentro do carro. Que nunca mais achei. Não me pergunte como, mas sumiram, entre bancos e aberturas de portas, todos os adesivos das lembrancinhas de uma festa da Lorena. Papéis com endereços e telefones. Um pé de meia. Carros são um universo próprio, e como todos eles, têm seus buracos negros também, que devoram nossas coisas.

Agora com um carro novinho é outra história. Regras militares. No mesmo dia que pego o carro, chegam meus 4 queridos filhotes. A Lorena vem das férias com o pai, e meus 3 enteados vêm passar as férias aqui com o Fernando. E a estréia do meu novo branquinho (carro de cor clara, bancos e interior também, mais um estímulo para mantê-lo sempre impecável) será numa viagem à praia, com toda a turma de bagunceiros. Vão passar fome até chegar no litoral, porque nem uma cenoura vão poder degustar no carro.

Será que eu consigo? Vai ser uma experiência sentimental deixar meu negrinho para trás, companheiro de tantas e inesquecíveis aventuras, sustos, amores. Mas ele cumpriu sua tarefa, sempre me levou onde precisei, e cabia em cada espacinho onde eu queria estacionar. Agora chega meu novo carro, e com ele se inicia uma nova história, literalmente, uma página em branco. Que ela seja preenchida com curvas de amor, aceleração de aventuras, com buzinas de crianças falando sem parar. E que as travas nas portas sejam usadas para cada bagunça que sequer pensar em entrar!

Comer e emagrecer?

Neste último final de semana, aproveitando que estava sem marido e sem filha, fui com a minha mãe conhecer um hotel spa. Um desses locais bem na moda atualmente, cheio de charme e, como eu imaginava antes de chegar lá, repleto de dietas, exercícios e fome. Especulava, equivocadamente, que encontraria um cenário cheio de pessoas com sobrepeso, cansadas de malhar e mal humoradas de tanto saborear jantares de folhas e sopas sem sal. Para sabotar antecipadamente a dieta, a caminho do spa, fui devorando uma caixa de Amanditas no carro.

Chegamos num entardecer gelado e ensolarado. Um lugar rústico, a pouco mais de uma hora de São Paulo, cheio de verde, almofadas coloridas, araras e cachorros. Um ambiente descontraído, onde todos são incrivelmente simpáticos. Ao chegar você já se sente em casa, recepcionado por 3 “emus” (espécie de ema peluda) que andam livremente pelo hotel. Logo após nos instalarmos num quarto com varanda e aquecedor, imprescindível nos dias de inverno, rumamos à última atividade esportiva daquele dia: aula de hidroginástica.  Água quentinha, aula divertida, que eu acompanhei bem mesmo com o barrigão. Na hora de voltar pro quarto, quinhentos metros de caminhada, molhadas só de roupão, no escuro e a temperatura em queda rumo aos 10 graus. Frio de verdade! Depois do banho, jantar, e daí começaram as boas surpresas culinárias: pode uma refeição de menos de 200 calorias ser gostosa, e o mais incrível, te deixar satisfeita?

A gente chega no hotel estressado, acostumado a açúcares e sal em excesso (acreditem se quiser, o segundo faz mais mal que o primeiro) e lá se depara com um cardápio que se inicia com uma sopa. De início meu primeiro pensamento foi: comida de hospital! Aquele sabor salgado tão comum às sopas não está presente, mas incrivelmente depois de umas colheradas ele passa a não fazer tanta falta, e a presença dos vegetais fica mais marcante. O prato principal é frango, com um molho supreme saboroso, acompanhado de salada de folhas e legumes grelhados. Tudo temperadíssimo com ervas, mas sem sal. Para completar, sobremesa, claro, porque todas as refeições tem 3 pratos. E nenhum gosto de docinho dietético. Era doce-doce de verdade! E com poucas calorias! Já no fim de noite, degustei o que acabou sendo a minha descoberta-delícia do final de semana: o chocolate quente light. Sou muito fresca para as coisas diet, com sabor artificial, mas esse chocolate parecia ser feito com o mais cremoso dos leites e o mais genuíno dos chocolate em barra! Só que ao invés de 250 calorias, tinha apenas 60 calorias a xícara grande. Fica a receitinha: uma colher de Molico em pó e uma colher de achocolatado Gold diet. Só. Mistura com água fervendo até dissolver. Parece milagre, mas eu vi e provei (e já estou sentindo falta!)

No dia seguinte, um dos monitores passa nos quartos acordando os hóspedes às 7 horas da manhã. Sem enrolação. Só eu, como gravidinha, fui dispensada da caminhada pelas fazendas vizinhas, de cerca de 7 quilometros. Minha mãe foi, adorou, e eu dormi até às 9 horas. Levantei e tomei o café da manhã, também farto, com duas torradas, queijo branco, geléia light, suco e duas frutas. Mais que suficiente até a hora do lanche da manhã (são cinco refeições diárias, que não permitem que o corpo sinta falta de comida, por menor que seja a quantidade consumida em cada uma). Depois fui caminhar pelo viveiro das aves. Parei logo de cara no cercado das araras. Animais lindos e coloridos. Estava bem na hora da alimentação delas, e aproveitei para ajudar o cuidador. Milho, maçãs e bananas, que elas comem das nossas mãos. Me encantou especialmente uma arara azul, daquelas em extinção no Brasil, réplica do Blu, do filme Rio (quem tem filho pequeno sabe). A arara azul era líder, e comandava as outars araras verde-e-amarelas. Elas ainda voam, e me entristeceu vê-las presas, tão domesticadas, mas ao menos têm um espaço aberto de 40 metros quadrados, com galhos, madeiras e cordas. E por serem nascidas em cativeiro não poderiam ser devolvidas à natureza de qualquer forma.

Nos primeiros dias, você fica ansioso pensando nas atividades. O que fazer? No segundo dia, a calma já transparece. Sentar no sol de inverno, ler um livro, escutar os sons do mato já são uma boa distração. Fora os lanches, sempre oportunos. O almoço nesse dia também foi excepcional. Quibe de soja, recheado com queijo branco. Simplesmente o melhor quibe que comi na vida. Infinitamente superior ao do Almanara ou de qualquer vovózinha árabe. Sério mesmo. A comida começou a me impressionar. Para acompanhar, batida (ou raspadinha) de suco Clight de tangerina. Outro achado. Parece que você está tomando um cocktail mega calórico, mas nada é do que um suco sem açúcar e com gelo. Como emagrecer pode ser tão saboroso?

À tarde, massagem, sauna e jacuzzi. E sempre conversando com novas pessoas, que eram incrivelmente interessantes. Tinham famílias inteiras, casais, até bebês lindinhos acompanhando as mães. Fizemos amigos por lá, e a cada dia aproveitamos mais. Quando se começa a entrar no esquema, a rotina do spa é viciante. O corpo passa a responder mais à dieta sem sal e açúcares, e a disposição aumenta. A sensação de bem estar também. À noite, jogos de buraco na lareira. Comecei perdendo, mas ganhei no final da rodada, é claro. Foi servido mais um jantar maravilhoso, hambúrguer de legumes (palmito, tomate e cebola “compactados” e grelhados) e salada de folhas verdes com tofu. De deixar qualquer um satisfeito, e olha que não sou vegetariana, porém depois desses dias eu descobri que seria possível abrir mão de carnes e continuar comendo bem. Quem sabe um dia…

Outro lanche maravilhoso que recebemos certa tarde foi uma pizza de pão sírio com fatias finíssimas de queijo branco e manjericão. Com suco de caju. De comer e repetir. Por sorte a minha dieta (como grávida) era sem restrições, portanto eu podia repetir. Os hóspedes normalmente são divididos em dietas de 600, 800 ou 1.200 calorias. É muito fácil perder peso dessa forma. No último dia, um desalentador jogo Brasil x Paraguai. Todos assistimos, beliscando mini torradas de gergelim com uma pasta de queijo cottage e ricota, acompanhadas de ameixas frescas. A pipoca com guaraná nem fez falta.

No dia de ir embora, fiz a caminhada das pedras. Um percurso, onde há um caminho de pedras, com água gelada (não fria, gelada mesmo) até a altura dos joelhos. Nas primeiras voltas, a impressão é que você deixa de sentir seus dedos. E pé. E tornozelo. Mas com o tempo,  a circulação vai se adaptando, e parece que todo o corpo recebe esse sangue refrigerado. Muito bom, e quando se deixa o caminho das águas, o pé começa a formigar de volta ao contato com o calor do ambiente.  Na hora do almoço, a melhor sobremesa de todas, para fechar a estadia com chave de ouro: pudim de soja com calda de frutas vermelhas. Comi duas porções. Uma das melhores sobremesas da minha vida, e olha que sempre fiz cara feia para a soja, qualquer fosse seu “veículo” alimentício, quanto mais um pudim.

Esses dias serviram para quebrar muitos dos meus preconceitos referentes aos alimentos. E modificar alguns hábitos, além de expandir minha idéias de receitas. Não é à toa que esse spa é famoso. Se as construções são simples, se os quartos não tem decoração combinada, tanto faz. O que realmente importa, a comida e o serviço, esses sim são impecáveis. Sabores e pessoas especiais. Desde a dona até o cuidador dos cachorros. E isso é o que faz desse lugar tão mágico e querido entre todos que vão para lá. De todos que conhecemos lá, a grande maioria já frequenta o spa há anos. Eu, com certeza, pretendo voltar. Se com apenas 4 dias você vê como a alimentação correta pode nos influenciar positivamente, imagina então ao longo da vida. Não só no peso, mas na saúde, na qualidade diária e no bom humor. Adorei a experiência, e nunca mais vou associar spa a fome. Pelo contrário, passei esses dias saudavelmente satisfeita. Por tabela, Nicolas agradece!