Do Sul ao Norte: um gato pelas Américas

Quando aquele carro branco estacionou na frente da minha casa, já imaginei que seria problema pro meu lado. Feeling felino, sabe? Quando aquele moço simpático, irmão da minha dona, começou a me chamar com uma voz muito boazinha, então eu tive certeza. Porém, muito sorrateiramente, eu me esgueirei pelos cantos da casa. Conheço meu lar como ninguém, e sabia exatamente onde ir.
#partiuesconderijosecreto

Entrei lá e comecei a me lamber tranquilamente, já pensando em tirar uma longa siesta até que aquele moçoilo fosse embora e a paz voltasse a reinar.
-Oi gatão! Te achei!
Caramba! Como assim? Só a minha dona sabe desse meu secret spot! Acho que deve ter a ver com esse objeto falante na mão dele, com certeza me dedurou! Ele veio exatamente até a bicama do quarto do pequeno dono. E me tirou de lá. Bom, vambora, deve ser outra picada nas minhas costas ou algo assim. Tomara que não seja aquele monte de água com sabão que jogam em mim. O irmão da minha dona me carregou e gentilmente me colocou numa habitação espaçosa. Não sei bem o que é. É bem maior do que a outra caixa que sempre me colocam. É nova. Lá dentro tem um cobertor que eu gosto muito, um pano bem fofo e água! Pra que isso, gente? Um bebedouro horroroso. Todo mundo insiste em que eu tome essa água limpa sem gosto, quando a única que condiz com meu paladar é a da piscina. E claro, a água quente da banheira da minha dona, que é meu chá da tarde.

A minha irmã mais nova, Mia, ja esta na habitação dela, igualzinha a minha. Ela nem liga. Entra em qualquer lugar e acha graça. Coisa de gente jovem sabe? Acha que tudo é uma festa.
Logo tiram um monte de fotos nossas com aquele mesmo objeto falante, e o moço do carro branco ergue a minha caixa. Tá bom pessoal, já deu, me soltem, tá um solzinho lindo e quero me espreguiçar na varanda e dormir. Mas não, eles parecem nem escutar o que eu falo! Carregam a minha habitação e a da Mia até o carro branco. Nos colocam lá e fecham a porta. Já vi tudo.
#partiupasseiochato

Um tempo depois, que me pareceu bem longo, chegamos num lugar muito movimentado. Cheio daquelas caixas moles que abrem, tipo onde minha dona coloca as roupas dela quando vai me abandonar por um tempo, sabe? E quando ela faz isso, eu faço questão de entrar e deitar e deixar vários pelos brancos como um aviso.
#podepartirmasvaipartircompelonaroupa

Lá no lugar grandioso nos colocam ao lado de caixas variadas, de todos os tipos e tamanhos, que chamam de CARGA e muita gente olha pra dentro da habitação. Alguns perguntam informações sobre mim, mas eu não falo com estranhos. Fico bem no fundo, não olho pra ninguém. Já a Mia faz festa para todos eles, e ela ainda consegue relaxar e dormir! Como assim? Eu não durmo de qualquer jeito, ou com pessoas à volta, essa balbúrdia toda nem pensar. Colam etiquetas na minha habitação, e chamam ela toda hora de caixa de transporte com CARGA VIVA.
Transporte… Que eu saiba existe carro e bicicleta. E só. Eu não gostaria que me colocassem numa dessas de duas rodas. Minha pequena dona uma vez tentou me levar na bicicleta dela, mas eu não gostei nada e saltei do cestinho no meio da rua. Muita ousadia.
Passa mais um tempo longo e então avisam algo de embarcar a CARGA VIVA. Embarcar pra onde, meu Deus?? Eu embarco? Barco? Não gosto de água! Tem outros dois gatos e um cachorro muito mal encarado, daqueles pequenos feios,  que não para de latir. Nos colocam todos num carrinho, que vai dirigindo por entre vários outros carros, e passando entre máquinas gigantescas, que são brancas e de outras cores, maiores que qualquer pássaro que já vi. Até maior do que o último presente que trouxe pra minha dona, que por sinal deu bastante trabalho pra caçar, e que no fim das contas ela jogou no lixo! Que desperdício. Humanos nunca vão entender o prazer de saborear uma boa caça. Mas eu continuo caçando. É um bom esporte e eu tenho que manter a forma.
Aliás já estou com fome. Mas nem sinal de comida. Aliás nem sinal de qualquer coisa. Nos colocaram num compartimento escuro DENTRO de um dos pássaros! Sei que a Mia está de um lado, e outra gata bem peluda está de outro. Ela é bem metida e não fala com a gente, mas tudo bem porque eu nem responderia mesmo. O que será isso afinal? Todos nós aqui? Fecham a porta do pássaro e por um tempo tudo fica calmo. Bom ao menos está tranquilo e quem sabe eu consiga relaxar e finalmente cochilar e… O QUE É ISSO, caramba está tudo vibrando e andando rápido, estou espremido no fundo da habitação e parece que uma força invisível me empurra lá pra atrás, nossa cada vez mais rápido e de repente um barulhão e estamos flutuando. Meu corpo fica estranho e meu ouvido também! Parece que me empurram, como quando meu pequeno dono me colocou naquela caixa de papelão e começou a girar.
Então é assim que é dentro da barriga de um pássaro? Já abri e vi vários, mas nunca imaginei estar realmente dentro! Deve ser uma vingança pela quase uma centena de passarinhos que cacei ao longo dos meus quase 7 anos de vida.
Eu só sei que não gosto nada disso. Está ficando mais frio, a Mia se enroscou na coberta e dormiu. A gata peluda está alerta e com uma patinha na janela da habitação, e o cachorro mordendo a casa dele. Eu quero ir embora, já deu, não gosto mais dessa brincadeira de passeio. Quero dormir no meu sofá sem barulho e sem esses sacolejos. Quero meu passeio de madrugada na rua deserta. Quando ver a minha dona vou dizer que isso não é forma de me tratar, e ela vai brigar com todas essas pessoas que me colocaram nessa situação. Já fui a vários lugares (mudei de casa 6 vezes, sou muito viajado) mas de longe esse é o mais aborrecido.
#partiureclamacao

Não sei quanto tempo passou. Foi muito mesmo. Tenho fome e sede, mas me recuso a tomar essa água de garrafa. Quero meu leite desnatado. Exijo. De novo começa a sacolejar, barulhos, e um ruído alto e seco. Rolo pro outro lado da habitação agora! Mia mia assustada, e nossas casas tremem. O mala do cachorro late mais alto, e então todos os movimentos e ruídos diminuem, até parar por um segundo. E abrem a barriga do pássaro. E então entra aquele ar… Esqueçam todo frio que passei na vida. As noites que fiquei fora de casa no inverno. Os passeios nas manhãs que tinha geada. Aquele ar é a coisa mais paralisante que já senti. Entrou nos meus ossos! Aquilo sim era frio. E os cheiros? Eu não reconhecia mais nada.
#frozencat

Nos levaram então graças aos céus a uma sala quentinha. Vários espaços, gaiolas e uma tia médica. Então era veterinario mesmo, eu sabia! Mas precisava ser tão longe? Eu até gostava daquele doutor Angelo que me atendia antes.
A doutora me tira da caixa, estou desconfiado, mas ela fala manso e me acalma. E fala enrolado, nossa, nunca vi alguém usar palavras tão diferentes. E me chama de Keilou! Que porcaria de nome é esse? Não curti. Ela me olha, me aperta, me faz um carinho na cabeça e diz good boy. Sei lá o que significa. E me tranca de volta na caixa.
Depois é a vez da Mia e dos outros. Nos colocam comida, mas por algum motivo perdi toda aquela fome. Não gosto de comer nessa baderna. Passa o tempo, e um a um os pets vão sendo levados da sala. Só resta eu e a Mia. Porque tudo demora mais pra nós?? Cadê a nossa dona? Até o irmão dela eu aceito, pode vir nos buscar!
Colocam mais papéis e etiquetas na nossa caixa e finalmente vem até nós aqueles homens de uniforme de novo. Já estou feliz em ver o sol e quem sabe vou até me espreguiçar e… Ah não! Não!! Outro pássaro não! Prometo, juro, jamais caçarei outro ser voante, mas por favor, não me deixe passar outra noite na barriga de uma ave!
#partiuoração

Ninguém me ouviu. Escuridão, portas fechadas e barulhos de novo. Dessa vez só eu e a Mia. Até pra ela que é festeira já perdeu a graça. Não queremos mais. Definitivamente não gosto mais de passeio.

Pelo menos dessa vez foi rápido. Mal passamos medo e já nos tiraram da barriga do pássaro. Acho que foi minha promessa. Mas vocês sabem, morcego não conta como ave né?
Já é fim de tarde, e o carro nos leva a outro depósito. Outras pessoas. Mais frio. Já estou fraco de fome. Acho que o cansaço vai me vencer. Não quero dormir, estou sentido e entristecido. Por que fizeram isso comigo?
Escuto mais vozes. Estou cansado, mas algo me alerta. Vozes… Sons agudos e Caillou. Perai. Esse é meu nome. Mas como sabem? E falam parecido com os pequenos donos, mas eles estão tão longe e Caillouuuuuuuuuuuuu!! Uma cara linda se cola na grade da minha habitação!! É meu pequeno dono! Como eles vieram parar aqui!! Será que o pássaro gigante pegou a familia toda? Minha pequena dona quase chora! Ela está abraçada na casa da Mia! Como é bom ver vocês! E minha dona amada! Só volto a ronronar dentro do carro, no colo dela, o lugar onde mais gosto de estar no mundo.
Que bom que nos acharam! Que bom que vamos voltar pra nossa casinha! Certeza que o frio vai passar e ainda hoje vou dar um rolê e caçar umas baratas e… peraí! Que casa é essa????
#partiucasanova

Eu e meu decorador

Poucas alegrias na vida são tão simples e tão complexas como ter a própria casa. Que delícia é ter um cantinho novo, um espaço que será em breve chamado de lar! São muitas etapas, diversos esforços e muita dedicação para chegar lá. É recompensador poder concebe-lo do jeito que a gente quer, com cada coisa em seu espaço, com boas idéias se tornando realidade. E o melhor é fazer todos orçamentos, pesquisas e rodar dezenas de lojas de decoração com meu decorador junto. E ainda melhor (se é que pode ficar) é quando esse decorador é um bebê de 4 meses. Sempre digo que o Nicolas é meu pequeno assistente, porque me acompanha em todos os lugares deixando bem claro aquilo que gosta e o que não gosta para nossa futura casa.

Hoje à tarde, numa loja de móveis planejados, o gerente brincou que eu já poderia deixar o currículo dele lá, de tanto que o Nico fazia parte do projeto. Já passou horas dormindo no bebê conforto na mesa de um designer, em outra loja ficou brincando de bruços na cama do mostruário. Mas o que ele mais gosta é passear no meu colo entre estantes, vidros, armários. Lojas de luminárias são um paraíso para um bebezinho. Sempre digo que não farei essa decoração sozinha, que nosso apartamento vai ser um projeto conjunto meu e do Nicolas.

E enquanto a maioria dos bebês poderia ser inconveniente, choroso e reclamão, meu gordinho simplesmente adora sair. Confinado em casa ele se desespera, fica entediado e aborrecido até não poder mais. Chocalhos, ursinhos, nada disso o distrai por mais de 5 minutos. O que ele gosta é andar de automóvel e passear no carrinho em ambientes diferentes, de preferência cheios de coisas bonitas. Aprecia cores, ver pessoas novas (abre o sorriso banguela para todo mundo) e quer aprender cada dia um pouco mais sobre o mundo.

Na rotina da nossa árdua busca pelo apartamento perfeito, Nico tem suas pecualiaridades. A loja TEM que ter ar condicionado. Nunca vi bebê que sua tanto, e se tem coisa que o acalma é um arzinho bem frio. Dorme que é uma beleza. Também tem que ter o mamá na hora certa, e para isso basta a mamãe estar disponível. E não tenho vergonha nenhuma, amamento onde for preciso. Hoje mesmo vi todo um plano de móveis modulados com meu chaveirinho plugado, e às vezes ele fica bravo porque eu falo muito. Segundo sua precoce opinião, durante a hora das refeições tem que haver silêncio.

Se a irmã está junto, aí então o passeio é perfeito para ele. Lorena tem a incrível capacidade de fazê-lo rir, gargalhar mesmo, coisa que só ela consegue, se utilizando de caretas esquisitas e sons mais estranhos ainda. Nicolas adora. Outro dia numa loja de carpetes os dois estavam sobre uma pilha de tapetes felpudos, Lolo rodando o irmão deitado, de lá para cá. Gargalhadas sem fim! Pena que a Lorena tem que ir a escola (e além disso não é tão colaboradora e paciente) e só ocasionalmente sai com a gente nas incursões decorativas.

Mas nem só de belezas são feitos nossos passeios. Outro dia, numa daquelas lojas bem caras, bem frescas, Nico fez um cocô que vazou a fralda, passou pela sua linda roupinha e esparramou todo aquele bege aquoso na camiseta do Fernando. Por uma daquelas sortes inacreditáveis não respingou no refinado sofá de tecido egípcio, porque aí sim teria sido uma cagada das boas. Já me acostumei a trocá-lo em mesas de jantar e em bancadas de estudo, e nesse dia não foi diferente, mesmo sob o olhar repugnado da altiva vendedora. Claro que me lembro sempre de levar a fralda suja ao banheiro, porque se tem algo que o pessoal das lojas odeia é ter que se desfazer pessoalmente desse tipo de lixo tão inusitado, ou pior ainda, ter que conviver com ele nas imaculadas lixeirinhas metálicas de suas mesas de trabalho.

Mas no geral é só amor. Somos muito bem recebidos nas lojas, e meu mini decorador encanta a todos. O profissional perfeito. Afinal ele é simpático, pouco exigente e ainda por cima não cobra reserva técnica.

Era uma vez um cachorro que amava o mar…

Se havia uma coisa que Billy realmente apreciava era sentar-se à beira da praia olhando o mar. Seu focinho movimentava-se aleatoriamente, pescando cheiros da maresia. Mirava ao longe, observava pessoas, e se alguém da família saía para caminhar, acompanhava seus passos com o olhar até onde a vista alcançasse. E ficava à postos esperando. Quando avistava o contorno dos donos retornando, sabia que era a chance de uma escapulida pela areia. E então ele vinha, todo feliz, abanando o rabo, ao nosso encontro. Doce Billy. Quem ficaria bravo com essas boas vindas?

Mas quem o conheceu desde filhote sabe que nem sempre foi assim, que essa paz só foi conseguida depois de muita correria e castigos no lavabo da casa de praia. Quando ele escutava a palavra “castigo”, já sabia que deveria ir ao banheiro e ficar por lá até que os ânimos se acalmassem. E olha que ele realmente nos tirava do sério. Fugia pelo condomínio, correndo numa velocidade inalcançável. Voltava quando bem lhe dava na telha, ou quando alguém o encurralava de carro. No primeiro verão da sua vida atacou guarda-sóis, furou bolas coloridas e assustou criancinhas, mesmo sendo do tamanho de um poodle. Isso porque só tinha 3 meses. O jardim, que transbordava diretamente na areia,  e ficava a poucos metros do mar, era um convite à suas maluquices. Não foram poucas as vezes que cogitamos usar até uma cerca eletrica subterrânea para conter o Billy.  Era apaixonado pela família, mas não tinha peso nenhum na consciência em causar o que fosse para gastar a sua infinita energia.

Imagine que ir a praia com um cachorro desertor já é dificil, pense então em ir a praia com um cachorro fugitivo com gesso na pata. Em seu segundo verão de vida, após um atropelamento suicida às vésperas do Natal (fruto de mais uma de suas inconsequentes fugas noturnas), Billy teve que levar pontos na cabeça e enfaixar uma das patas traseiras. Mesmo assim, se mandava sem pena. Voltava arrastando as ataduras imundas, enfarinhado em areia, e molhado até a alma. Imobilizá-lo sobre a mesa de jantar e trocar os curativos era uma rotina estressante, e pensamos seriamente que a perna não se curaria devido as inúmeras vezes em que foi preciso limpar e enfaixar tudo de novo. Mas nosso Bilão era valente, e no mês seguinte já estava bem. Com 1 ano e meio, ele então começava a se acalmar. Pesaroso pensar nisso, mas foi necessário um acidente para que ele entrasse um pouquinho nos eixos. E nem a cicatriz na cabeça que o acompanhou por toda vida o deixava menos lindo. Como era bonito nosso cachorrão.

Seu pai era um labrador chocolate, grande e forte, de quem Billy herdou a cor. E também uma eventual braveza, que se mostrava em alguns arranca rabos, principalmente envolvendo algum macho com a auto-estima maior que a dele ou qualquer fêmea que aparecesse . Era um eterno romântico. Fosse uma viralatinha capenga do sítio, ou uma labradora com pedigree, após o encontro amoroso o Billy passava dias uivando tristemente. Teve muitas “amizades coloridas”, com labras de todas as cores, e deixou mais de 30 descendentes (só diretos, imagine quantos netos, bisnetos e trinetos) espalhados por aí. Sua mãe era uma labradora preta, com um quêzinho de labralata, de quem puxou o corpo grande, magricelo e o olhar cor de caramelo. Libriano, nasceu em meados de outubro numa garagem em Osasco. No início de dezembro fomos buscar o filhote macho, único marrom, fofo demais, aquele que toda  família escolheu. Na garagem onde viveu suas primeiras semanas de vida ele parecia tranquilo em meio ao caos da ninhada. Chegando em casa, ligou o botão infernal. Corria, rolava, mordia, comia tudo que estivesse ao alcance. No primeiro ano foram telefones, chaves do carro, diversos óculos escuros, sapatos, roupas.  Os potes de ração se transmutavam em plástico retorcido, até que foram substitídos pelos metálicos, e os pés da mesa da cozinha ficaram mais finos a cada dia. Não podia ter caminha, nem cobertor, pois na manhã seguinte nada mais restava do que trapos coloridos.  Não foram poucas as vezes que fiquei com a mão furada, seus dentes-de-leite pareciam agulhas, e ele adorava exercitar a mini mandíbula. Nessa época comecei a aprender na marra a frase mais válida sobre cachorros: labrador bom é labrador cansado. Se ele não saísse de casa ao menos duas vezes ao dia, para correr ou caminhar rápido, e roesse uns 5 ossinhos, e ainda subisse e descesse as escadas atrás de algum dos gatos da casa, pode ter certeza que o pequeno Billy se faria notar. Com a boca: latindo ou comendo algo. De preferência algum eletrônico bem caro.

Adorava andar de carro, sempre com a cabeça para fora. Naquela época ainda não havia restrições a cachorros em Cumbica, e ele fez um sucesso estrondoso ao buscar meus irmãos no aeroporto. Não tinha jeito de deixá-lo no carro, pois com certeza na volta o assento estaria rasgado, ou o câmbio totalmente destruído. E como se esquecer da famosa frase, a que ele mais gostava de ouvir em todo o mundo? “Vamos passear?” E ele começava a correr descontrolado, a saltar, pegava a coleira com a boca. Quem realmente o conhecia podia afirmar que nessas horas ele até mesmo sorria. Era sua hora favorita do dia.

Com 6 meses, Billy ganhou um irmão. Com muito esforço convenci minha mãe de que seria ótimo para os nervos do Bilão (e dos nossos também) ele ter um amigo labrador com quem brincar. Dessa vez escolhemos um macho amarelo, o cachorro mais belo que já vi, que tem o focinho claro e olhos quase azuis. Batizamos de Mike. Forte desde bebê, ele também é incansável, mas sem a rebeldia do Billy. É mais contido, adestrável, e se deixa educar. Obedece e respeita, desde pequeno. Responde aos comandos, e virou realmente a companhia ideal do irmão. Nesses 12 anos de vida, não passaram mais do que duas horas separados. Foi de partir o coração ver o Mike ao lado do Billy nas suas últimas horas de vida. Companheiros até o final.

Os dois cresceram num grande jardim, e de vez em quando desatavam a correr. A gente dizia que dava a louca nos cachorros. Billy parecia um carro desgovernado, pois saía pela tangente nas curvas, de tão rápido que ia! Depois se jogavam na piscina. Mike ia direto, porém Billy precisava do seu “aquecimento”. Não sei se era um tique nervoso ou superstição canina, mas ele necessitava dar 5 voltas na piscina antes de entrar. E entrava… pela escadinha! Apoiava as patas traseiras, de repente erguia as dianteiras e se jogava! Sempre da mesma forma. Era mesmo um cachorro nada convencional.

Nos almoços, enfiava o focinho nas mãos de quem comia. Era muito pidão. Sempre ganhava algum pedacinho, e ao longo dos anos minha mãe criou o péssimo hábito de presenteá-lo com pão francês nas manhãs. De pidão passou a ser implorante. Fios de baba escorriam pela sua boca, e chegavam a se pendurar por 30 cm! Cena incrível, mas nada agradável quando se está comendo. Criou um discípulo: o gato Crocat, que aprendeu a pedir comida da mesmíssima forma, e até hoje nos arranha na mesa pedindo almoço. Billy também revirava lixos e lixeiras sempre que tinha a chance. Sem dúvida ele tinha um pé na cozinha, literalmente.  Espalhava restos por todo o canto, e comia de tudo. Não raro vomitava depois. Num Natal, enquanto a gente se arrumava e ele ficava preso na cozinha, devorou o peru da ceia. Ficou só a assadeira.

Sei que neste carnaval eu perdi o cachorro da minha vida. Junto com o Mike eles foram os companheiros da minha adolescência e começo da vida adulta. Me fizeram rir, me deixaram nervosa, me levaram pra passear, dormiram comigo muitas tardes e noites. Só com olhares a gente se entendia. O Billy adorava que eu o esticasse na caminha (quando ele finalmente ganhou e não destruiu uma) e fizesse um barulho bem esquisito na orelha dele. Era o boa noite. Era assim que a gente se falava. Agora só conversaremos em sonho. Ou em outra vida.  Hoje ele está enterrado na praia. Assim como na foto, ele terá eternamente aquilo que sempre amou: a vista do mar.

Vai em paz, meu Bilão.

De volta! Com tempo reduzido, com amor multiplicado!

Ah, que saudades desse cantinho! Meu espaço de desabafar, contar, relatar, criar, vivenciar, imaginar… Nesses meses que passei distante, diversas vezes me perguntei: escrever para que? Hoje a noite me veio a resposta. E aqui estou.

Começo tirando as teias de aranhas e o pó acumulado, não só aqui do blog, mas também das minhas idéias. Passei 9 meses sendo mãe embarrigada, onde a criatividade era pouca, mas ao menos eu tinha tempo. De sobra. Não só tempo, como insônia. Com um certo esforço, os textos brotavam. Agora tampouco sou um às criativo (e além disso o tempo ocioso não existe mais) porém a tal inspiração bateu à porta. Não, isso é exagero meu. Digamos que ela passou do outro lado da rua, acenando de longe, mas ao menos deu as caras. Escrever só mesmo assim, quando um raio de inspiração cruza a mente. E sabe-se lá porque ele aparece, se por obra do destino, por capricho ou engano. Ou ainda porque eu gosto tanto, tanto, tanto de escrever, que mais hora menos hora até mesmo o mais intenso instinto de mãe dá lugar (ou ao menos um espaço) àquilo que a gente realmente é na essência.

Mas nada mais justo do que voltar a escrever contando um pouco do “motivo” do meu afastamento. Já são 3 meses de maternidade do menininho mais doce do mundo. Nicolas não é bonzinho, ele é bom. Uma criança calma, que gosta de passear, olhar, brincar. Adora a sua rotina. Com a Lorena, a rotina era inexistente. Ela fazia o que bem queria, se rendia ao sono em qualquer canto, qualquer horário. Nicolas gosta de dormir à mesma hora todas as noites. A única coisa que o faz chorar bravamente é impedi-lo de dormir quando tem sono. Gosta de escuro, aprecia adormecer no seu berço. Sozinho. Também gosta de ser ninado. Se sentir abraçado o acalma imediatamente. Ele tem um sorriso que ilumina. Sua risada não é linear, ele abre a boca para sorrir! E o sorriso mais lindo é aquele que ele dá ao acordar. Seus olhos são cinza escuros, às vezes castanhos, e de alguns ângulos, verdes. Parece comigo quando bebê. É impressionante ver uma vida começando assim. A cada manhã me surpreendo com ele. Ao mesmo tempo que o conheço tão completamente, que sei decifrar cada um de seus choros, que sei como ele está só de mirar seu rostinho, também tenho um mundo todo a desvendar com ele. Afinal, estamos só começando, são poucos meses de olho no olho. É um relacionamento ainda no início. É o princípio de uma união eterna. Mais uma. Quando lembro de antes d011 do 11 do 11, é como faltasse um pedaço. Como se eu tivesse vivido sempre à espera dessa peça, a que faltava para completar o meu pequeno (e tão gigante sentimentalmente!) quebra-cabeças maternal.

Nada me enche mais o coração do que ver meus dois pequenos juntos. A Lorena tem ciúmes durante o dia, mas não há uma só noite em que ela não se esgueire sorrateiramente para dormir na cama no quarto do irmão, ao lado do berço. Juntos. E também, ao mesmo tempo em que ela não tem paciência para reclamações e resmungos do Nico, quando ele se verte em lágrimas num choro verdadeiro, não raro ela chora junto. Não gosta de ver o irmão infeliz. Que a pureza desse amor possa perdurar por toda a vida dos dois. Chegará o dia onde só terão um ao outro. E que sejam unidos o bastante para sempre se apoiarem mutuamente. E eu só tenho a agradecer por ser mãe dessa dupla abençoada. Que Lorena e Nicolas continuem a se tornar cada dia mais o foco da  minha inspiração. Não só para escrever, mas para continuar vivendo e fazendo o bem. Por eles. Para eles.

Planejando uma criança

Não desejo ao meu bebê força, e sim saúde de ferro.

Não quero uma criança polida e séria, e sim um filho risonho e bem-educado.

Não quero que ele tenha a melhor profissão do mundo, e sim que alcance a realização pessoal naquilo que escolher fazer.

Não espero que ele tenha tudo o que quiser na vida, mas que queira bem tudo aquilo que tem.

Não pretendo criar um filho mimado, e sim muito amado.

Não quero um filho sempre limpo, quero uma criança que saiba se divertir e se sujar.

Não desejo a ele a maior nem a mais bonita casa, e sim que ele conheça o valor de um lar.

Não quero que meu filho seja o aluno que compreende todas as fórmulas matemáticas, e sim aquele capaz de entender as outras pessoas.

Não espero que ele seja lindo, e sim que traga beleza em todos os seus gestos.

Não quero que meu filho se rebele contra o mundo, mas que saiba manter a sua opinião.

Não quero ter um filho que mira sempre em frente, e sim uma criança que sabe olhar para as estrelas de vez em quando.

Não espero um filho com formigas nas calças, e sim uma criança ativa.

Não desejo um filho ambientalista, e sim que ele saiba da importância de se plantar uma árvore.

Não espero que ele viva sem chorar, mas que se lembre que sorrir é sempre o melhor remédio.

Não espero que ele chegue ao topo do mundo, mas que saiba subir em árvores.

Não espero que ele saiba as respostas à todas as perguntas, e sim que aprecie ler um bom livro.

Não quero que meu filho seja solitário, mas que quando necessário saiba ficar bem sozinho.

Não quero ter um filho que agrade a todos, mas uma criança que agrade a cada um no seu momento certo.

Não espero que ele salve o mundo, mas que seja capaz de amar os animais desde pequeno.

Não desejo que ele mova montanhas, mas que tenha persistência para chegar onde quiser.

Não espero que meu filho seja vegetariano,  e sim que saiba se alimentar bem.

Não quero um filho que fala demais, e sim uma criança que adora perguntar o porquê das coisas.

Não espero ter um filho bicho-do-mato, e sim uma criança que sabe conviver com a natureza e o verde.

Não desejo que ele tenha um físico impecável, e sim que adore praticar esportes.

Não espero que ele tenha uma turma enorme, mas sim bons amigos com quem contar.

Não desejo criar meu filho numa redoma, mas sim ensiná-lo como se proteger.

Não espero ter em casa um maratonista, mas sim um filho que sabe correr atrás dos seus objetivos.

Não quero ter um filho que me obedeça cegamente, e sim uma criança que sabe quais são seus limites.

Não espero um filho perfeito, e sim um menino feliz! Bem vindo meu bebê Nicolas!

5 anos

Tão pequena e tão adulta ao mesmo tempo.

Essa semana a Lolo completa 5 anos de idade. É a fase da “emancipação” infantil. Ela não precisa mais ser cuidada. A gente continua à disposição, querendo ajudar, mas somos delicadamente dispensados. Precisa de ajuda com as meias? Não mamãe! Vamos preparar o seu leite? Deixa que eu faço, diz ela já subindo no armário e pegando a lata de Nescau. Nos finais de semana com o pai, ela me liga para conversar, e dali alguns minutos vem a frase: “mamãe, posso desligar porque tenho muitas coisas para fazer?” Claro, assistir pela décima vez o filme Coraline ou colocar ração para o gato são atividades importantes para ela, que realmente deseja fazê-las. Não apenas sabe, como quer participar, quer sentir que já é uma pessoinha muito útil ao seu entorno e a todos que vivem nele.

As lições de casa agora neste semestre são bi-semanais, e como eu fazia antes, fui soletrar os números da data para ajudá-la. E ela: “mãe, eu não preciso mais que você me fale. Eu sei como fazer o dia, mês e ano.” Ah tá. E a mãe aqui fica olhando, se sentindo coadjuvante, ao perceber que a pequena está assumindo o papel principal na sua própria vida.

Ela nasceu pequena, pretinha, cabeluda, o oposto da exuberância loira que é hoje. Era um mini macaquinho, tão indefeso, e tão decidido ao mesmo tempo. Ela nunca foi um bebê inseguro. Dificilmente chorava. Apesar de meiga, sempre soube o que queria, e felizmente se tornou uma criança com excelente auto-estima. Mamou mais de um ano no peito, praticamente um bezerrinho, e até hoje quando adormece, muitas vezes procura inconscientemente colocar as mãos na minha blusa. E nada como o leite materno para dar a força, a saúde de ferro e o tamanho que ela tem. São quase 1,15m de altura, está calçando 30 e nunca fica doente (toc, toc, toc). 

Tão cuca fresca em algumas coisas, minha filhota se torna uma “com frescura” quando se tratam de sapatos. Não gosta de nada. Sapatilhas, all stars, sandálias, nada disso ela aprova. Ama crocs e botas. Vai nas festas linda, bem arrumada, do tornozelo para cima, já que nós pés só calça aquele pedaço de borracha. Quanto mais desgastado melhor. Também quer estar sempre bonita, mas não gosta que mexam no seu cabelo. São várias técnicas de distração que aprendi ao longo dos anos (perfumes, batonzinho, e a mais nova delas, enxaguante bucal infantil, que ela simplesmente acha o máximo) para que eu consiga colocar chucas, rabos de cavalo ou simplesmente pentear e aplicar uma fivela. Secador de cabelos então é uma palavra proibida, e ela corre só de escutar o barulho. 

Ela ama os animais, de todas formas e tamanhos, não deixa que se mate nem uma formiga.  Convive com cachorros enormes desde que nasceu, e sabe muito bem como colocar uma coleira ou dar um osso sem ter sua mão abocanhada. É o tipo de criança que conhece os depósitos de reciclagem pela cor, e quando vê um plástico no chão abaixa para recolher, sempre com o sutil comentário: “lixo na natureza não pode, né mãe!”

Está aprendendo a andar de bicicleta com o pai, e cada vez que volta avisa que está QUASE andando sem rodinhas. Ama praia, litoral norte ou sul, tanto faz, desde que tenha areia e um mar lindo na frente. Viagens também são apreciadas, e ao olhar o globo terrestre já identifica vários países e todos os continentes pelo nome. Nada sozinha desde os 2 anos de idade, sem bóia alguma, e apesar de adorar uma piscina, detesta água fria. Faz manha para uma porção de coisas, como por exemplo tomar banho, mas depois não quer sair do chuveiro. Reluta em provar comidas novas, mas com um pouco de pressão ela experimenta (e adora!) como aconteceu recentemente com um kiwi e uma mousse de maracujá. No feijão dela não pode ter nem uma cebolinha, tomatinho ou qualquer “verdinho”, que ela se desepera e não quer comer. Detesta peixe, mas adora comida japonesa. Salmão e arroz são seus favoritas. Quando tentamos explicar que salmão é um peixe, ela fala: “claro que não, salmão é um sushi!”

Seu melhor amigo em casa é o gato Cookie, um filhote de 10 meses que acompanha ela em todas as suas loucuras e invenções. Ela veste o gato, faz casinha para ele e os dois jogam bola juntos. Às vezes correm endoidecidos por 15 minutos ou mais, ela na frente com uma isca (pode ser um pirulito ou uma bonequinha polly amarrada precariamente num barbante) e o gatinho atrás, perseguindo. Já imagino como vai ser com o irmão. Ela beija minha barriga todas as vezes que nos reencontramos, e gosta de contar segredos para o Nicolas, que ninguém mais escuta. No quarto dele,  separa as roupas que ela gosta e as que não gosta, “porque essa roupa não fica bonita no meu irmão!”

Nunca eu imaginei ser tão feliz com a Lo. Essa pequena me completa em tudo. Me tira do sério, mas num bom sentido.  Até nas vezes em que tenho que ser mais dura, não brigamos. É sensível, e não gosta que as pessoas se decepcionem com ela. São tão poucas as broncas, que uma palavra mais forte e dita num tom de voz alto já surte efeito. É mais preguiçosa que desobediente, e a melhor forma de se conseguir dela o que queremos é explicando o porquê daquilo. Sua boa vontade funciona através da inteligência, e ela atende tudo aquilo que toma por desafiador. Não faz as coisas por fazer, e sim por um propósito. Adora planos, e programar atividades é uma das coisas que mais gosta no mundo! Ficar parada não é com ela, e todos os tios e avós já sabem que quando a pequena está do lado, nada de folga. Tanto pique tem seu lado positivo: dorme religiosamente suas 12 horas por noite. 8 da noite desmaia, para só dar as caras 8 da manhã do dia seguinte. Uma verdadeira bênção. Claro que isso só em casa, porque com as avós ela é uma boa enroladora, e consegue quase sempre o que quer, ou seja, uma história a mais, um episódio de desenho ou simplesmente uma conversa.

Filha, obrigada por esse 5 anos. Obrigada por cada abraço, por cada sorriso, e por cada maluquice que você me ensinou. Hoje sei que sou uma pessoa muito melhor por sua causa. Que você tenha um lindo aniversário, e saiba que eu sempre vou fazer TUDO que estiver ao meu alcance para que você seja uma menina muito feliz e também um ser humano cada vez melhor. E como eu te digo todas as noites:  você é minha vida. Te amo!

Histórias de Nina IV

Era uma noite fantástica, calma, “com ninguém”, na Vila Nova… Ele decidiu sair para caminhar com ela, mas “com ninguém”. Ela gostou da temperatura, do clima de verão, desfrutava intensamente da brisa no seu rosto lindo. Mexia com quaisquer plantinhas que achava pela rua (mas ninguém mexeu com as plantas). Ela sorriu quando viu um gato correr por detrás de alguma coisa, que ninguém viu. Ela gostava muito de animais pequenos, e ele o pegou para que ela o acariciasse suavemente (mas ninguém sorriu, nem ninguém passou a mão no gatinho). Depois, ela escolheu aquele lugar lindo para provar um doce, na praça cheia de árvores. Naquele lugarzinho em especial, que sempre iam às quintas-feiras quando havia temperatura de verão e brisa, ela experimentou a iguaria como se fosse a primeira e a última vez, muito devagar, e o seu gesto foi inesquecível (mas ninguém escolheu um lugar nem experimentou nada, tampouco fez um gesto inesquecível). 

Foi também doce o retorno à casa. Ela tomou a mão dele, lançou aquele olhar cúmplice e terno que só ela conseguia dar, colocou os dedos no pescoço dele e susurrou alguma coisa que ninguém pôde ouvir, exceto por eles dois (mas ninguém tomou a sua mão, nem olhou para ele com olhar cúmplice ou sussurrou qualquer coisa). E assim foi que aconteceu numa deliciosa noite de verão roubada do inverno. Ele desfrutou muito o estar “com ninguém”, entretanto tão bem acompanhado. Dormiu tranquilo com ninguém, porém não se sentiu sozinho naquela noite em Vila Nova.

Histórias de Nina são pequenos textos de ficção sobre vida, amor e relacionamento. São pensamentos, que podem ou não ter a ver com a realidade. São necessariamente reais, mas não obrigatoriamente verdadeiros. Qualquer semelhança com fatos, pessoas ou idéias é mera coincidência.