O lado não tão brilhante

USA

O verão aponta no horizonte, o sol brilha quase todos os dias e o verde está por toda parte aqui em Midland. Passamos o final de semana cuidando do jardim. Temos um quintal pequeno porém um terreno grande, que a família que morava anteriormente na casa manteve com muitas floreiras (que não brotam mais), hortas hoje mortas, pedras pequenas sem fim e arvores coníferas que não são minhas favoritas. Eu curto árvores grandes, adoro estar cercada de verde, mas não sufocada por mato. Queremos um gramado para as crianças correrem, e espaço para ter um jardim com a nossa cara. Além disso, do último inverno ficou uma “pequena” lembrança: uma composição de 4 pinheiros arriados pelo peso da neve, se inclinando pesadamente contra a varanda. Aproveitando que o espírito do jardineiro motivado baixou em mim, decidimos fazer por conta própria. Compramos uma serra manual e tosamos os pinheiros de mais de quatro metros de altura. Trabalho pesado. Porém agora enxergamos ao longe, avistamos a cerca e até a luminosidade da casa ficou melhor. Sobraram uns cotocos impossíveis de tirar, e para solucionar isso e mudar o restante, chamamos uma empresa de paisagismo e manutenção de jardim. Mas eles só tem tempo para executar o serviço daqui a 3 semanas, dizem. Não adianta insistir. Virão quando puderem. E os serviços não são nada em conta. No Brasil estamos acostumados com produtos caros e serviços baratos. Já aqui é o inverso. Os produtos em geral são quase de graça, mas tudo que envolve mão de obra custa os olhos da cara. Ajuda doméstica, jardinagem,  manutenção, consertos, limpeza, todos esses serviços demandam uma pequena fortuna. Você acaba adepto do do it yourself. No fundo somos todos capazes, porém a vida mimada no Brasil nos tira essa confiança de fazer com as próprias mãos. É questão de retomar as rédeas e começar você mesmo, quando é possível. No caso do nosso jardim cortamos o que deu, mas para tirar meia tonelada de pedras (e onde coloca-las??) e outras arvores com mais de 10 ou 12 metros de altura, não existe outra opção a não ser contratar mão de obra especializada.

Todo esse prenúncio de gastos e trabalhos com o jardim me inspiraram a escrever hoje sobre o lado não tão perfeito da vida americana. Tenho certeza que muita gente ficará feliz em saber que nem tudo são flores aqui, e já adianto: nada são flores em parte alguma. A felicidade que você tem ao longo da vida está apenas dentro de você, e em nenhum outro lugar.

Já falei um pouco da casa, mas primeiro quero contar sobre o aspecto não tão legal da vida escolar. Na escola não tem portaria, não tem pessoas verificando entrada e saída, não tem nenhum portão ou tipo de controle do movimento dos alunos. O sinal bate, e todos (do kindergarten até o 5th grade) saem correndo. Alguns entram nos carros dos pais que estão esperando em frente, outros pegam suas bicicletas e alguns simplesmente caminham até suas casas, que podem ser ao lado da escola ou alguns quarteirões adiante. Para mim é preocupante uma criança sair da escola com qualquer pessoa e ninguém conferir se é mesmo pai ou parente. Porém analisando por outro lado, isso dá às crianças uma responsabilidade muito maior. Elas aprendem a cuidar de si mesmas desde cedo. A escola se isenta de qualquer responsabilidade da porta para fora. É uma forma de agir muito contrastante com a segurança extrema que temos nas escolas brasileiras, claro que motivada pela (falta de) segurança em geral no país. No começo eu estranhei bastante, mas com o tempo aprendemos a orientar corretamente as crianças a não falar com estranhos, a ir direto para casa e aprender como se virar no trânsito. Os próprios alunos fazem um trabalho voluntário de safety patrol  nas ruas próximas, ajudando os outros alunos a atravessarem as avenidas e cruzamentos. É uma forma distinta de educar, ensinando como agir ao invés de confinar. Nos passeios e field trips da escola também não existe autorização nem nada. As professoras fazem uma contagem, seu filho simplesmente sobe no ônibus escolar amarelo e vai. E você fica rezando para que volte bem! 🙂

O segundo porém: o playground do preschool fica literalmente a dez metros da rua e não tem uma cerca que separe os alunos do transito. É uma via calma e passam poucos carros fora do horário escolar, mas mesmo assim é uma rua. Crianças de 3 ou 4 anos podem facilmente sair atrás de uma borboleta ou bola e não ver onde estão indo. Não custaria nada ter uma divisória lá. Porém mais uma vez, a postura da escola é essa, de ensinar aos alunos a não irem até a rua. Não podem e não irão. E a verdade é que ninguém vai.

Terceiro e principal problema da escola (e de todo resto também, para mim é a principal coisa que incomoda no american way of life): a alimentação. Mando lunchbox de casa todos os dias, porque meus filhos se recusam a comer o almoço da escola. As opções servidas lá variam entre o ruim e o pior, flutuando entre nachos, pizza, pancakes e hamburgers. Lolo reclama até do cheiro. Para nós brasileiros que estávamos acostumados ao típico almoço de arroz, feijão, uma proteína e salada, comer essas coisas pode ser legal num começo, mas a longo prazo seu corpo não aguenta mais. E pra piorar meus filhos também não querem comer a comida feita em casa lá no refeitório, dizem que fica fria e que ninguém come isso também. Cheguei numa alternativa razoável com os dois, e que tem funcionado bem: mando para a escola um lanche reforçado. Por exemplo hoje Lolo levou cereal e leite, laranjas fatiadas, iogurte e iced tea e Nico levou sanduiche com geleia, morangos, cookies e suco de maçã. Fora esse almoço tem dois snacks na escola. Dessa forma aguentam o dia e assim que chegam da escola às 4pm comem comida de verdade em casa. O velho arroz e feijão que eu finalmente aprendi a fazer, e bem! Não é o ideal comer só a tarde, mas é o que temos.  No embalo da alimentação fica mais uma pequena critica: apesar de almoçarem na escola todos os dias, ninguém escova os dentes! As crianças passam de 8:30 a 4 da tarde lá, lancham e almoçam e ninguém leva escovas ou tem esse hábito. Não me conformo, já que é algo simples e que deveria ser inserido desde cedo na rotina infantil.

Outra questão de segurança que literalmente não entra na minha cabeça: você pode andar de moto nas rodovias, estradas, onde bem entender e não é obrigatório o uso do capacete. Você vê crianças e pais andando por aí de moto sem capacete algum. Enquanto isso até um toddler de triciclo usa capacete. Em bicicleta também todo mundo usa, até para ir na esquina. Realmente não da pra entender a lógica: se cair de bike a 20km por hora, você certamente vai quebrar a cabeça, por isso não esqueça o capacete, mas andando de moto a 100km por hora vá sentindo a brisa no rosto, relaxe…

Outra coisa que também normalmente não se imagina: cartões de crédito no Brasil são infinitamente mais seguros que aqui. O brasileiro atualmente usa senha e chip para tudo. Tudo duplamente seguro, até porque no Brasil não há outra alternativa. Aqui o chip praticamente não é usado e muita gente nem conhece. Os cartões são como aqueles antigos só de deslizar. Não se usa senha para nada. Os cartões de credito ainda são levados para os caixas dos restaurantes (não existe a maquininha portátil), e ninguém confere se você é o titular do cartão. Ainda se usa a velha assinatura na via do estabelecimento, mas ninguém checa se é a sua assinatura mesmo. É absurdamente menos confiável, mas acredito que seja um reflexo da honestidade que ainda existe por aqui. Funciona bem dentro dos EUA, mas ao viajar para fora você fica mais vulnerável a ter um cartão clonado ou alguém usando indevidamente o que é seu. Por falar em questões financeiras, o americano normalmente não dá 10% de serviço. Dá no mínimo 15 e o usual é dar 20% de gorjeta a garçons e afins para um serviço bem prestado. Pesa no bolso de quem paga, mas é excelente para quem trabalha e valoriza um bom atendimento. No cabelereiro, manicure, lava-rápido idem. Só não se dá gorjeta ao frentista porque aqui ele não existe, é você mesmo. Coisa que se aprende com facilidade, abastecer o próprio carro. Só não é nada divertido durante uma nevasca com temperaturas beirando os 20 graus negativos.

Esse último item “social” que vou descrever agora é mais uma questão de hábito e costumes de cada povo, mas que para mim causou bastante estranheza. Os americanos em geral  jantam cedo. Almoçam cedo. São pontuais e tem horários bem demarcados. Às 11:50am os restaurantes começam a ter gente, e a seis da tarde todo mundo está jantando. Nove da noite a cozinha dos restaurantes fecha, e perto das dez você provavelmente não encontra um único lugar aberto para comer na cidade a não ser fast food. Na casa das pessoas a pontualidade da visitas é extremamente importante. Se você é convidado para uma refeição, chegue no horário e ainda fique atento: vá embora no horário. Aqui um convite para almoçar, num sábado por exemplo, não é como no Brasil que se estende ao cafezinho, às crianças brincando, ao ultimo drink e muitas vezes emenda no jantar com os amigos passando o dia todo na nossa casa. Aqui você chega, come, agradece e se vai. E se você por acaso esquecer, não é raro o dono da casa encerrar a conversa, te entregar seus casacos e avisar que é hora de ir. Festa de crianças idem. Tem hora para começar e acabar. E não ouse atrasar e buscar seu filho meia hora depois do combinado, nem chegar antes para participar do parabéns. A festa é apenas para quem foi convidado, ou seja seu filho. Bem chocante para nós brasileiros, que amamos uma festa e uma bagunça. Nesse ponto é muito bom ter amigos brasileiros aqui também, do tipo que chegam na sua casa sem hora pra ir e que festejam da forma como nós gostamos de festejar.

São coisinhas essas que culturalmente nos diferem dos americanos, e ao mesmo tempo que são positivas em alguns aspectos, em outras nem tanto. Cabe a quem vem de fora se adaptar, e isso é o que eu tenho tentando nos últimos 16 meses, e procurado passar para as crianças também. Eles em muitas coisas já agem como americanos. Por exemplo quando Lolo vem com muitas formalidades ou tipo me fala que não precisa ir de casaco pra escola (12 graus lá fora – as crianças do Michigan simplesmente não tem frio) eu já vou chamando ela de “americaninha”. É uma brincadeira, mas que no fundo faz todo o sentido. Que ela nunca perca o jeito feliz e expansivo brasileiro, mas que possa ser lapidada com a educação e o amor ao próximo dos americanos.

 

 

 

Não é fácil, mas é muito melhor!

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Completamos 8 meses vivendo aqui em Michigan na semana passada. Agora estou muito diferente da menina que chegou em fevereiro, em todos os sentidos. De certa forma, aqui é mais trabalhoso. São tarefas do dia a dia, de cuidar e manter uma casa, que no Brasil passavam desapercebidas. Ao menos a mim passavam. Antes que venham com a avalanche de críticas sobre aquilo que ninguém sabe mas todos presumem, sim, no Brasil eu tinha ajuda e sim, a minha cota de trabalhos domésticos diários era mínima. Incluía talvez tirar a mesa do jantar e ordenar os armários das crianças . Era prático, era fácil ter ajuda. Mas eu era mais feliz lá? Será? Aqui sinto que vivo plenamente. Faço tudo pela minha família. Sei como a minha casa funciona, sei onde está tudo e como fazer o que quero quando preciso. Não tenho pessoas alheias vivendo dentro do nosso lar. Não preciso sentir pena de alguém que poderia estar cuidando da própria casa e dos seus filhos, mas está fazendo isso por mim, na minha casa, por pura e simples necessidade.

Acabo de tirar da máquina de lavar a terceira carga do dia. Lençóis, toalhas, roupas nossas e das crianças. Agora é hora de estender tudo (já coloco as roupas pra secar em cabides, assim não preciso ter o trabalho extra de passar a ferro – mesmo porque eu não sei passar roupa  – aí só dobro e guardo quando estão secas). Secadora de roupas uso apenas para itens de cama, mesa e banho. Edredom (outro item que eu só mandava lavar em lavanderia no Brasil) agora lavo em casa. Recolho diariamente talvez uns 50 itens espalhados pela casa, desde brinquedos, meias, papeis, sapatos. Tudo vai para o seu lugar, e lá ficam até as 4PM quando as crianças voltam da escola e a bagunça (eu chamo de vida) começa novamente. Se a garagem está empoeirada, pego mangueira e vassoura e limpo. Organizo. Recolho folhas do quintal. Não preciso pedir ou mandar alguém, e vocês não podem imaginar o tremendo alivio que isso dá. Aspirador pela casa é quase todo dia, com duas crianças correndo, entrando e saindo e gatos ativos, não tem outro jeito. O que ajuda é que aqui tem a praticidade de ter um tubo interno (como se fosse uma tomada, que fica em vários pontos da casa) onde você só encaixa o próprio sugador de pó e aspira em volta, sem precisar carregar aquele trambolho pela casa. Outra diferença é que aqui não se usa o famoso pano e balde que no Brasil faz parte de toda limpeza. Acho mais prático: os americanos tem panos úmidos descartáveis (wipes, tipo de bebê) pra tudo. Tem wipes para a bancada de granito, wipes para os eletrodomésticos, wipes para limpeza geral, wipes antibacterianos e por aí vai. Até as crianças já aprenderam: aconteceu algum desastre, pode ir pegar o wipe e limpar. Eles mesmos. Lolo e Nico já aprenderam muito aqui, e continuam aprendendo. Não só em casa, mas cultura geral também. Aqui criança segura a porta para os mais velhos. Criança cumprimenta. Sei que tudo isso acontece no Brasil também, mas não é em todo lugar que se vê. Aqui é o contrário. São poucos os lugares onde não se vê. Crianças prestam favores aos pais, fazem trabalho voluntário desde cedo. Crianças vendem biscoitos para arrecadar dinheiro para seus grupos (scout girls por exemplo) ao invés de pedir aos pais. E não estou falando de crianças de 10, 12 anos, e sim de 5 anos. Aqui se aprende que nada vem de graça. Os adolescentes nas férias, ao invés de viajar, pegam trabalhos temporários. A feira do livro na escola,  vocês pensam que alguém é contratado para isso? Não, são pais voluntários que vão lá montar, vender e guardar tudo pós evento.

Voltando ao dia a dia em casa, tenho o feijão no fogo agorinha mesmo. Esse descobri como fazer na marra, é a comida favorita das crianças. Era um inevitável item a ser aprendido aqui, já que se eu não fizer não existe outra opção de comer em lugar algum. Logo é hora de preparar o arroz, um peixe no forno e salada. Aos poucos pretendo evoluir o menu. Meus dotes culinários no Brasil incluíam o “vasto” cardápio de tapiocas e um brigadeiro divino, mas fora isso eu não tinha intimidade nenhuma com a cozinha. Sério. Não sabia nem temperar, nem tempo de cozimento, nada. Mas vou aprender. Isso é o que farei, e é o que tenho me dedicado desde que cheguei. E nada dá mais prazer do que aprender, absorver, viver uma nova cultura que aos poucos vai enraizando e abraçando você e sua família.

Aqui eu, que era a total anti-dona de casa no Brasil (não só por ter trabalhado fora ultimamente, mas sim por ter sido acostumada, mimada toda minha vida) sou capaz de manter limpa e ordenada toda uma casa, preparar jantar para a família, arrumar as roupas de 4 pessoas, levar crianças para atividades extras toda tarde e ainda ter tempo para ser feliz. Muito feliz! Sair com as amigas, almoçar fora, fazer supermercado, aulas e claro, escrever! O tempo rende e nos mostra que não, não é nada fácil estar longe do país que amamos por toda uma vida, não é fácil estar longe da família e dos amigos que te viram crescer. Estar longe das paisagens familiares, dos cheiros que só o lugar onde crescemos tem, dos abraços que só sentimos em casa. É muito difícil. Mas passar por tudo isso num país onde você é respeitado, onde seus filhos tem liberdade e onde a educação é a prioridade, faz sim tudo ficar muito mais simples. E daí de um segundo para outro você entende que vai ficar bem aqui, e que qualquer preço a pagar por isso é pouco perto da overdose de vida real que você esta recebendo.

Não são os 9 minutos…

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Hoje cheguei as 12:09 para pegar o Nico na escola. Abracei-o, e logo atrás a professora veio e me entregou um papel, dando good bye e fechando a porta. Abri e li. No papel, constava um aviso, um warning, sobre eu estar atrasada para buscar meu filho. Desta vez seria tolerado, mas da próxima seria enviada uma notificação com cobrança. Sim, vocês leram bem, eu não estava nem 10 minutos atrasada. Não foi meia hora, nem quinze minutos, foram 9 minutos! E o papel me alertava, por escrito, que da próxima vez seriam cobrados 1 dólar por cada minuto que eu me atrasasse, e a partir da segunda vez, 2 dólares por minuto… (!)

Depois de tanto elogiar a escola da Lolo, sabia que precisava contar do Nico. No caso dele, nada foi tão fácil. Estava esperando ter uma posição mais, digamos assim, consistente sobre gostar ou não da escola, antes de postar aqui no blog.

É uma escola particular, adepta à metodologia Montessoriana. Para quem não conhece, Montessori é um método educacional desenvolvido por Maria Montessori em meados de 1900, que ficou conhecido por sua eficiência no desenvolvimento prático da criança. A metodologia prioriza a individualidade, a contribuição social e o ser como parte de um todo. Os princípios são fundamentados nas atividades com objetos e brinquedos específicos, com foco no crescimento e na liberdade de cada um. Segundo Maria Montessori, o conhecimento está dentro de nós. Sua teoria é uma das mais conhecidas pelo mundo afora, e busca respeitar o tempo de cada criança em aprender e realizar tarefas. Tanto que as salas de aula tem crianças de idades variadas, e cada um segue seu ritmo.

Até aí ótimo, eu estudei em escola Montessoriana como criança também, e o respeito a cada indivíduo nos faz crescer de forma independente e inteligente. Mas hoje confesso que estou um pouco intrigada com a Montessori daqui. E a cobrança por minuto não foi o primeiro susto com a escola. A falta de flexibilidade esteve presente desde o começo. Logo no inicio das aulas, Nico estava muito assustado e estranhando tudo. Nem no primeiro dia permitiram que eu entrasse na sala com ele. Tem um aviso bem grande colado na porta: despeçam-se de seus filhos antes. Tipo, deixem as crianças sem olhar para trás. Nico chorou muito, não entendendo essa brusca separação. Muitas vezes tive que deixa-lo à força enquanto a professora o puxava para dentro da sala. As duas primeiras semanas foram tão difíceis para ele quanto para mim. Ele veio de uma escola brasileira onde as “tias” pegam no colo, beijam, ajudam, dão carinho e força para que os pequenos enfrentem o dia. Aqui a postura americana é extremamente fria, não há contato físico entre professoras e alunos. Nem o mínimo, nem um aperto de mão! E além disso, ele não entendia uma única palavra de inglês. Elas dizem good morning, sentam a criança numa mesa ou no tapetinho no chão, colocam a atividade na frente deles e se há choro, como no caso do Nico nos primeiros dias, esperam até que passe por conta própria. Eu fiquei chocada no inicio, e pensei seriamente se continuaria com isso.

Nico hoje em dia está adaptado, não chora mais, porém percebo claramente que ele não ama a escola como gostava da sua no Brasil, ou como a Lolo adora a Adams. Ele apenas se acostumou. E não sei se isso é bom ou ruim. É bom se acostumar a algo que não te faz feliz?? Ele vai à escola, mas ninguém lá se preocupa realmente como ele se SENTE. Vejo nesse método Montessori muita atenção ao desenvolvimento, à postura, mas quanto aos sentimentos da criança, esses são metodicamente deixados de lado.

Ao fim da primeira semana de aula, veio um recado para mim e para o Fernando. Precisávamos ensinar o Nico a colocar as roupas de neve, pois todas as crianças da turma (toddlers, 3 a 6 anos) já se vestiam sozinhas para ir brincar lá fora. E que as professoras não podem (ou não querem?) ajudar diariamente ele a se vestir. Por vestir a roupa de neve, entende-se colocar um macacão com suspensório, gorro, luvas e um casaco com zíper. Além de uma bota com fecho. Tudo por cima da roupa de uso diário. Nico não tem nem 3 anos e meio, é o caçula da classe, cresceu num país onde o que ele vestia se resumia a camisetas e crocs, e agora as professoras vêm na primeira semana de aula exigir que ele coloque sozinho toda a vestimenta de inverno? Segundo balde de água fria.

Como um método que alega ser precursor da individualidade da criança pode querer que o Nico, recém chegado a um país tão diferente, entre na “linha de montagem” exigida por eles? Hoje foi a terceira “cutucada”, e justamente por isso não renovamos ainda a matricula para o ano letivo que se inicia em setembro. Ele está na lista de espera para a Preschool da Adams, a mesma da Lolo. Menos teoria, mais calor humano. Porém como ele nasceu em novembro e só completa 4 anos após o inicio das aulas, ainda não sabemos se conseguirá vaga. Torcemos muito para que ele consiga. Porque para uma escola que alega ser a melhor de Midland, a Montessori está a anos luz de ter um cuidado individualizado com cada criança. Pode ser a melhor em metodologia, em estrutura e materiais, mas para meu filho e para mim, deixou a desejar até agora.

Minha enteada Fernanda estudou lá há dez anos, e coincidentemente, a professora era a mesma do Nicolas. Na época dela a escola era menor, as professoras mais jovens, e o Fernando não tem reclamação nenhuma sobre o tempo em que ela frequentou as aulas. Pode ser também que nós estejamos muito habituados à receptividade brasileira, ao carinho das professoras, e ao chegar aqui o abismo era maior que o esperado. Mas mesmo assim, algo para mim não encaixou direito. Nico agora está mais habituado, ele mesmo diz: “viu mamãe, hoje eu não chorei!” e me parte o coração cada vez que escuto isso. E vamos aguardando a resposta do Preschool.

Como prós da escola, para não falar apenas do lado negativo, eles têm uma parte muito focada em música e Nico já canta lindamente algumas english songs for kids. Também na Montessori as crianças fazem aulas extras de espanhol e mandarim, além do incentivo à leitura, tanto que Nico agora quer histórias todas as noites antes de dormir. A alimentação é nutritiva e variada, ao contrário das outras escolas. O legal é que, ao invés dos pais prepararem diariamente o lanche dos filhos, cada semana um pai ou mãe é responsável por trazer os snacks para a classe toda. E seguindo uma sugestão de cardápio saudável, com muitas frutas, leguminhos e biscoitos. Para beber, só leite ou água. A escola também conta com uma área externa bacana, com dois parquinhos, e para os dias mais frios tem uma gym class, toda adaptada para as crianças, com cubos e retângulos de espuma, onde eles constroem, montam e desmontam. Também tem salas com observatório para os pais, onde podemos acompanhar sem ser vistos algumas etapas das aulas. Em estrutura, nota 10.

Todo essa comparação de lado positivo versus lado negativo é o perfeito exemplo de como o supostamente melhor nem sempre se encaixa naquilo que buscamos para nós. Principalmente em se tratando de uma criança. Por isso termino esse post como uma frase da Maria Montessori, que capta a essência do que procuro para o Nico.

MARA-M~1

Lolo & Adams

adams

Adams e Lolo foram um exemplo de afinidade à primeira vista. Confesso que minha maior preocupação com a mudança de país era a adaptação da Lolo numa nova realidade. Ela está com 8 anos, idade em que nos encontramos enraizados em nossa rotina, apegados aos amigos e principalmente à escola, nossa âncora. A única vez em que Lolo chorou foi ao se despedir do colégio e da melhor amiga, daí o peso que isso teve para mim. A escola aqui simplesmente teria que competir com a coisa mais importante para ela! A Adams School seria culturalmente diferente, com pessoas entrando na vida dela sem pedir licença, com novos métodos de aprendizado e o principal, tudo isso num idioma onde ela entendia o bom dia, boa noite e só.

Na segunda-feira após a nossa chegada realizamos a matrícula, e Lolo teve a chance de conhecer seus futuros colegas e professora. A Mrs. Welters é um amor de pessoa, e não poderia ter havido professora melhor para receber a Lolo nesse inicio, com a dose certa de paciência e cuidado que ela teve e ainda tem até hoje.  Também tivemos sorte, pois era o dia das fotografias anuais, e Lolo entrou no grupo e tirou a linda foto que ilustra esse post. Na sala dela tem dois alunos que falam em espanhol, e que estão ajudando enormemente na adaptação, e isso a deixou um pouco mais tranquila desde o começo. Durante o tour de reconhecimento na escola, quando alguém lhe dirigia à palavra, ela me olhava com aqueles olhos de jabuticaba questionando o que era aquilo! Eu estava aterrorizada com a idéia de largá-la, e toda a hora me vinha à cabeça o que eu acharia se estivessem me jogando numa sala com pessoas falando japonês… E eu estava fazendo isso com a minha filha! Mas enfim, ela não era a primeira e tampouco seria a ultima a criança a passar por essa provação. Se por um lado isso traria um pouco de apreensão momentânea, por outro representaria a conquista de ser fluente num novo idioma, o que certamente será um de seus bens mais preciosos e aproveitados durante toda a vida.

O sinal bate pontualmente as 8:37 AM. Horário quebrado assim mesmo, devido ao schedule dos ônibus escolares. É simplesmente maravilhoso poder despertar numa hora normal. As crianças não precisam madrugar, acordam as 7:30, dispostas e descansadas, tudo transcorre com muito mais calma do que no Brasil, onde nos levantávamos as 6 da manhã enfrentando uma correria sem fim. Tudo aqui parece ser mais razoável, planejado e organizado do que a realidade escolar brasileira, onde espremem os horários para que possa existir a turma da tarde e a da manhã, dobrando o numero de alunos matriculados e tornando a escola um “negocio lucrativo”. Aqui o bem estar dos alunos é prioridade, começando pelos horarios compatíveis a uma rotina de criança e completando com a liberdade de poder caminhar ou ir de bicicleta até a escola. Por enquanto o frio ainda não permitiu muitas dessas idas, mas todos os dias Lo me pede que a deixe caminhar sozinha ou com os seus amigos pelo menos um trecho na volta pra casa. Aqui não tem guarita, não tem tio da portaria. Aliás não tem nem portaria. As crianças saem sozinhas assim que o sinal toca, e vão até suas casas, ou os pais esperam nos carros ou vem caminhando busca-los. Realidade impensável no Brasil.

No primeiro dia na Adams Lolo recebeu sua agenda, uma pasta para os deveres de casa, e o mais incrível, um Ipad. Este é usado para acompanhar as aulas, criar textos e baixar jogos educativos. Redes sociais como FB, Instagram e similares são bloqueadas. O aluno tem um Apple ID vinculado a escola e  os pais controlam todo o conteúdo, assim como a professora também. É surpreendente, e cada família escolhe se a criança poderá trazer o Ipad para casa todo dia e nos finais de semana. Nós autorizamos, e a Lolo fica então com toda a responsabilidade, o que ajuda a desenvolver esse lado do cuidado com algo valioso. Lolo não cabe em si de alegria em ter seu próprio Ipad, e eu fico contente em não ter sido eu a dar simplesmente um objeto de entretenimento a ela, e sim que ela descubra o tablet como um objeto de estudo e de aprendizado, que nas horas certas pode sim ser divertido. Nas salas não existe lousa, e sim retroprojetor. Cada mesa de aluno tem um tampo que se levanta, onde as crianças guardam seus materiais e portanto não precisam levar diariamente mochilas pesadíssimas para casa. Também não há nada daquela ordem militar de carteiras enfileiradas, a classe se divide em grupos, duplas e trios, e tem um grande sofá. As paredes são todas decoradas com trabalhos, mapas e outros conteúdos. São visualmente mais ricas que as salas brasileiras.

O lunch time dura uma hora, e as crianças tem 3 opções: almoçar na própria casa, devendo retornar 50 minutos depois; almoçar na escola o “marmitex” trazido de casa; ou então comprar o almoço fornecido pelo colégio. Custa 2,70 dólares cada refeição, que inclui leite e sobremesa. Lolo simplesmente detesta. Não come o almoço da escola, e na verdade não perde muita coisa, já que a comida aqui está a milhas de distancia de ser saudável. Frituras, excesso de carboidratos, molhos gordurosos. Nem as crianças escapam. Acabo tendo que improvisar, e normalmente Lolo leva suco, um sanduíche ou cereal (leite é fornecido pela escola), cookies e uma fruta. Acaba que a principal refeição do dia se torna o jantar, e para uma pessoa com recursos culinários extremamente escassos como eu, está sendo um grande desafio manter a turma aqui bem alimentada. Mas vou aprendendo.

Lembrem-se que a Adams é uma escola PÚBLICA. Não se paga mensalidade, matrícula, nada. Fomos extremamente bem recebidos, e aqui se a criança mora no bairro, tem vaga assegurada à escola. Garantido. Na classe da Lolo, além do currículo normal, a turma tem aulas de espanhol (que ela já falava bem, agora está perto de se tornar fluente), artes e educação física. Também saem da sala três vezes ao dia para ir ao parque. Mesmo com temperatura negativa eles estão ao ar livre, nos primeiros dias Lolo não acreditava que ela realmente podia brincar na neve no intervalo da escola!

Dia 03 de março foi o primeiro dia de aula dela no 3rd grade. Por dois motivos (o idioma desconhecido e o fato dela estar adiantada na escola brasileira) decidimos que seria melhor Lolo refazer esse semestre (no Brasil já estaria no 4 ano) para então no outono, já mais acostumada ao inglês, começar o 4th grade no inicio de ano letivo americano. Nesse primeiro dia eu estava mais nervosa que ela quando a deixamos na Adams, mas não transpareci por nem um segundo. Também passei cada minuto do dia pensando em como ela estaria.

Mas toda a preocupação foi por água abaixo na hora em que ela deixou o prédio da escola as 03:44 PM, na hora da saída. O largo sorriso dizia tudo 🙂