5 anos

Tão pequena e tão adulta ao mesmo tempo.

Essa semana a Lolo completa 5 anos de idade. É a fase da “emancipação” infantil. Ela não precisa mais ser cuidada. A gente continua à disposição, querendo ajudar, mas somos delicadamente dispensados. Precisa de ajuda com as meias? Não mamãe! Vamos preparar o seu leite? Deixa que eu faço, diz ela já subindo no armário e pegando a lata de Nescau. Nos finais de semana com o pai, ela me liga para conversar, e dali alguns minutos vem a frase: “mamãe, posso desligar porque tenho muitas coisas para fazer?” Claro, assistir pela décima vez o filme Coraline ou colocar ração para o gato são atividades importantes para ela, que realmente deseja fazê-las. Não apenas sabe, como quer participar, quer sentir que já é uma pessoinha muito útil ao seu entorno e a todos que vivem nele.

As lições de casa agora neste semestre são bi-semanais, e como eu fazia antes, fui soletrar os números da data para ajudá-la. E ela: “mãe, eu não preciso mais que você me fale. Eu sei como fazer o dia, mês e ano.” Ah tá. E a mãe aqui fica olhando, se sentindo coadjuvante, ao perceber que a pequena está assumindo o papel principal na sua própria vida.

Ela nasceu pequena, pretinha, cabeluda, o oposto da exuberância loira que é hoje. Era um mini macaquinho, tão indefeso, e tão decidido ao mesmo tempo. Ela nunca foi um bebê inseguro. Dificilmente chorava. Apesar de meiga, sempre soube o que queria, e felizmente se tornou uma criança com excelente auto-estima. Mamou mais de um ano no peito, praticamente um bezerrinho, e até hoje quando adormece, muitas vezes procura inconscientemente colocar as mãos na minha blusa. E nada como o leite materno para dar a força, a saúde de ferro e o tamanho que ela tem. São quase 1,15m de altura, está calçando 30 e nunca fica doente (toc, toc, toc). 

Tão cuca fresca em algumas coisas, minha filhota se torna uma “com frescura” quando se tratam de sapatos. Não gosta de nada. Sapatilhas, all stars, sandálias, nada disso ela aprova. Ama crocs e botas. Vai nas festas linda, bem arrumada, do tornozelo para cima, já que nós pés só calça aquele pedaço de borracha. Quanto mais desgastado melhor. Também quer estar sempre bonita, mas não gosta que mexam no seu cabelo. São várias técnicas de distração que aprendi ao longo dos anos (perfumes, batonzinho, e a mais nova delas, enxaguante bucal infantil, que ela simplesmente acha o máximo) para que eu consiga colocar chucas, rabos de cavalo ou simplesmente pentear e aplicar uma fivela. Secador de cabelos então é uma palavra proibida, e ela corre só de escutar o barulho. 

Ela ama os animais, de todas formas e tamanhos, não deixa que se mate nem uma formiga.  Convive com cachorros enormes desde que nasceu, e sabe muito bem como colocar uma coleira ou dar um osso sem ter sua mão abocanhada. É o tipo de criança que conhece os depósitos de reciclagem pela cor, e quando vê um plástico no chão abaixa para recolher, sempre com o sutil comentário: “lixo na natureza não pode, né mãe!”

Está aprendendo a andar de bicicleta com o pai, e cada vez que volta avisa que está QUASE andando sem rodinhas. Ama praia, litoral norte ou sul, tanto faz, desde que tenha areia e um mar lindo na frente. Viagens também são apreciadas, e ao olhar o globo terrestre já identifica vários países e todos os continentes pelo nome. Nada sozinha desde os 2 anos de idade, sem bóia alguma, e apesar de adorar uma piscina, detesta água fria. Faz manha para uma porção de coisas, como por exemplo tomar banho, mas depois não quer sair do chuveiro. Reluta em provar comidas novas, mas com um pouco de pressão ela experimenta (e adora!) como aconteceu recentemente com um kiwi e uma mousse de maracujá. No feijão dela não pode ter nem uma cebolinha, tomatinho ou qualquer “verdinho”, que ela se desepera e não quer comer. Detesta peixe, mas adora comida japonesa. Salmão e arroz são seus favoritas. Quando tentamos explicar que salmão é um peixe, ela fala: “claro que não, salmão é um sushi!”

Seu melhor amigo em casa é o gato Cookie, um filhote de 10 meses que acompanha ela em todas as suas loucuras e invenções. Ela veste o gato, faz casinha para ele e os dois jogam bola juntos. Às vezes correm endoidecidos por 15 minutos ou mais, ela na frente com uma isca (pode ser um pirulito ou uma bonequinha polly amarrada precariamente num barbante) e o gatinho atrás, perseguindo. Já imagino como vai ser com o irmão. Ela beija minha barriga todas as vezes que nos reencontramos, e gosta de contar segredos para o Nicolas, que ninguém mais escuta. No quarto dele,  separa as roupas que ela gosta e as que não gosta, “porque essa roupa não fica bonita no meu irmão!”

Nunca eu imaginei ser tão feliz com a Lo. Essa pequena me completa em tudo. Me tira do sério, mas num bom sentido.  Até nas vezes em que tenho que ser mais dura, não brigamos. É sensível, e não gosta que as pessoas se decepcionem com ela. São tão poucas as broncas, que uma palavra mais forte e dita num tom de voz alto já surte efeito. É mais preguiçosa que desobediente, e a melhor forma de se conseguir dela o que queremos é explicando o porquê daquilo. Sua boa vontade funciona através da inteligência, e ela atende tudo aquilo que toma por desafiador. Não faz as coisas por fazer, e sim por um propósito. Adora planos, e programar atividades é uma das coisas que mais gosta no mundo! Ficar parada não é com ela, e todos os tios e avós já sabem que quando a pequena está do lado, nada de folga. Tanto pique tem seu lado positivo: dorme religiosamente suas 12 horas por noite. 8 da noite desmaia, para só dar as caras 8 da manhã do dia seguinte. Uma verdadeira bênção. Claro que isso só em casa, porque com as avós ela é uma boa enroladora, e consegue quase sempre o que quer, ou seja, uma história a mais, um episódio de desenho ou simplesmente uma conversa.

Filha, obrigada por esse 5 anos. Obrigada por cada abraço, por cada sorriso, e por cada maluquice que você me ensinou. Hoje sei que sou uma pessoa muito melhor por sua causa. Que você tenha um lindo aniversário, e saiba que eu sempre vou fazer TUDO que estiver ao meu alcance para que você seja uma menina muito feliz e também um ser humano cada vez melhor. E como eu te digo todas as noites:  você é minha vida. Te amo!

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Um ano em fotos do Iphone

Quase 600 fotos, pouco mais de 15 meses, festas, pessoas, acontecimentos, animais, poses, alegrias, chiliques, viagens, bebidas, pés, uma copa do mundo, um livro, um bebê. Esses são alguns dos eventos devidamente registrados pela câmera do meu celular ao longo deste ano, e que dão uma bela historinha em quadrinhos, porém aqui sem imagens. Uma retrospectiva parcial do último ano, captada pela lente do meu iphone, e representada por poucas e simples palavras. 

Claro que começa comigo e a Lolo no carro. A foto de estréia do celular tem nós duas de óculos escuros, véspera de carnaval. Carnaval espetacular com o Fernando no Rio de Janeiro, com direito a Sapucaí e camarote. Visita de um belo saruê na garagem, empoleirado em cima do portão. Lolo e Maui de língua azul, saindo da maior piscina de bolinhas de SP. Corrida Vênus, eu e Van sorridentes depois dos 5km. Lolo ainda tomando mamadeira na hora de dormir. Nós duas com dois “cachorros”: eu abraçando o Billy, a Lorena abraçando o Thomas. Natação. Lo e a vovó, uma toda suja saída da escola, e a outra produzida para uma festa de gala. No avião, rumo à Páscoa no Chile. Com os “irmãos” no carro em viagem chilena, e de novo no avião na chegada à uma chuvosa SP. Costelinha. Caipirinha de maracujá, um close bem dado, essa não podia faltar. Jill e vovô alcoolizados (não é novidade). Lorena no cabelereiro. E na praia, em frente ao Caiçara´s. Eu e o Fernando, restaurante indiano (como eu estava magrinha nessa época).  Na banheira, Lolo e Caillou. Dia das mães no Felix. Lolo, Geralda e as bonecas. Todos os “filhos” no parquinho em Alphaville, e Lorena e Martina maquiadas em casa. Domingas Dias, com chuva e massinhas. Festa da Roça, tema Africa. Almoço na casa da Fazenda. Oficina do Onibus Biblioteca na Vila Medeiros. Placido Domingo, belo espetáculo. Bebê sem Frescura na revista Casa Cláudia Bebê. Caillou ursinho. Octavio Café. Por do sol no Mackenzie, esperando a Lorena sair da escola. Copa do mundo: cabelos, unhas e roupas verde e amarelas. Pombo resgatado. Eu e Lolo acordando preguiçosamente. Marmaduke no cinema. Mais Copa do Mundo no Takumi. Geralda e Fernando, Brasil x Chile (Brasil vitorioso, claro). Mãos artistas das crianças do Ônibus Biblioteca. Rumo a Suécia. Lembrancinha da festa de 4 anos da Lorena. ATC. Sítio: sol, cachorros, amigos, primos. Festa Lais, Lo no tombo legal. Lolo com nariz ralado, tombo nada legal na porta de casa. Pastel na feira com o amigo de espuma, Caio. No carro do  Thomas, com a Maggie, indo ao sítio. Enchendo balões sozinha, Lorena mocinha. Vestida de fada, presente de aniversário. Almoçando com a amigas Carol e Lua. Festa do João Luca, Lo com Lua e Marcelo. Lo devorando uma melancia. Espaço Piks. Moqueca de lagosta no Peixe com Banana. Lorena no ballet. Itaparica, coqueiral, as 4 crianças. Lolo dormindo sobre as malas em GRU, depois do vôo da madrugada. Casquinha de siri e mais moqueca no Guarujá. Maceió e Gunga, visitando queridas amigas. Camarão e restaurante peruano. Lorena e Luana andando de jegue na praia do Francês. Embarcando para SP de novo. DPNY. Rafting em Juquitiba, eu e Lays. Halloween. Lo de bruxa, Costelinha gato da bruxa e a abóbora (também da bruxa).  Lozinha fazendo compras no Mambo. Sol no clube. Sábado de mulheres (e surpresas). Sophia nasceu, visita na maternidade. Uma marca de sapato na porta. Comprinhas de Natal, Lorena à carater. Cinema em casa com as bonecas. Pastel na feira. Festa do Davi, festa do Ian, tudo no mesmo dia. Oficina de Natal. Último dia de aula na escola, Lorena e a turma. Iguatemi numa rara noite fria de dezembro. Jantar Pimentel. Lolo e amigos no shopping visitando Papai Noel. Patinação no gelo: diversão e lágrimas. Pré Natal na casa da vovó. Nicão, o gato velhinho. Todos os filhos em casa, desta vez por um mês de férias, com direito a Ano Novo e janeiro inteirinho. Jantar no America/México. Caretas das meninas. Lua cheia na praia. Adoção do Cookie no CCZ. Cookie menor que um pé de crocs da Lo. Minha tão sonhada tatuagem, 18. Lolo e a caneca de opala que ganhou do pai. Caillou e Cookie agora amigos. Juqueí, fim de semana maravilhoso. Havaianas na areia. Lorena no lap top. Aula de sapateado. Juan Cruz e Tomas, os gêmeos bebês mais lindos. Pé de Manga num domingo. Arco íris. Inauguração do apê da Jill. Luz negra da Sissi. Pedro na maior ressaca no aniversário do Thomas. Corrida Vênus com Esmell. Cookie tomando água na privada. Barbados, areias brancas, mar azul e cabbage palm. Um teste de gravidez positivo. Lolo na corrida Adidas Kids, vencedora da sua bateria. No avião rumo ao Chile. Show do U2 em Santiago. Prova do vestido de noiva. Lo, Branca de Neve e os 7 Anões. Chanel. Geralda do Surf. Show do Roxette com a Gi. Larga a Chupeta na revista da GOL. Prova dos vestidos das daminhas. Overdose de Páscoa no Flamingo e no Villa Lobos. Sushi. Domingas Dias com sol. Mais sushi. Jantar de pitús e aquavit. O Garimpo, Embu, com toda a família chilena. Teste de maquiagem e cabelo. Dia da Noiva. Saída do casamento. Lindo topo de bolo. Comandatuba. A barriga cresce. Acarajé no prato. De volta ao frio de SP, embaixo das cobertas. Parque Ecológico do Tamboré, parque onde não são permitidos animais nem ETs. Mercado Municiapl e 25 de março. Ultrassom Nico, meu filhote sorridente. Artes da Lolo no meu vaso. Caillou e os vinhos. E a barriga continua crescendo muito. Arraial na Alameda Escócia. E Maggie, a inquilina canina folgada, dormindo no sofá da sala, de cobertor. (Ah, se o Fernando vê isso!)

Isso foi ontem. E as fotos continuam. Mas elas são assunto para outro ano!  E quem descobrir de qual das imagens descritas anteriormente é este mosaico acima, ganha um exemplar do Larga a Chupeta!

Balanço de Natal

Já passa de meia noite. Mais um Natal que passou. O céu estrelado acompanhou a comemoração, assim como o calor sufocante de dezembro. Foi um Natal estendido, já que houve a comemoração do dia 23 (casa de uma avó, para que a Lorena participasse), o tradicional do dia 24, o meu natalzinho particular com a Lo dia 25 e amanhã dia 26 o Natal com 4 crianças, meus queridos que vem do Chile.

No dia 23 éramos seis adultos, e em pouco mais de 2 horas se acabaram 5 garrafas de vinho branco. Nada mal. E nada bom também, todo mundo de pileque! Mas nessa família isso não é novidade. Trocamos presentes, muitas risadas e cada um retornou a sua casa. Thomas a pé, com a fiel Maggie ao lado. Meu pai nem se lembra de que forma voltou. Minha mãe já estava em casa, por sorte. Eu voltei, isso eu lembro, cerca de meia noite, agraciada por ter o Fernando comigo. Minha próxima lembrança é acordar as 5 da manhã, ainda de roupa, dormindo com a Lo ao meu lado (ela já sem o vestido, abraçada com o livro que ganhou do avô), a televisão ligada. Oh céus… Ressaca da brava na manhã da véspera de Natal, amenizada por um pastel de feira e caldo de cana logo cedo. Nesse dia minha pequena foi passar o Natal com o pai dela e sua família. Foi feliz, ela sempre é feliz, eu é que fico triste. À noite o Natal de verdade, o original, aconteceu em terras paulistanas . Um golinho de vinho tinto para acompanhar as intermináveis cantorias e inúmeros brindes suecos foi o máximo que pude absorver em termos etílicos. Depois, como sempre, hora do adorável amigo secreto. Presentes incríveis, muitas risadas, alguns presentes mixurucas, alguns sorrisos amarelos, como não poderia deixar de ser. Os poemas (cada um tem que usar seu lado poético para versar sobre a pessoa sorteada) foram surpreendentes, com direito até a lágrimas e declarações de amor. Teve serenata com violão, interpretação teatral, e o surpreendente final, com minhas primas gêmeas tirando uma a outra, e o mais incrível, comprando o mesmo presente para a irmã escolhida!

Hoje a tarde peguei minha filhota de volta. Lorena chegou correndo em casa e já foi para a árvore de Natal, ansiosa com a oferenda do Papai Noel. Abriu seu presente, que alegria, passamos as duas umas boas horas vendo o pequeno ratinho de brinquedo percorrendo as pistas e tunéis do seu caminho e casinha. A “ceia” hoje foi no Mc Donalds, escolha da pequena claro. Hoje ela manda. Amanhã, nem tanto. Dia 26 chegam seus três “irmãos” postiços, os filhos do Fernando, que vem passar um mês com a gente. O reinado dela será suspenso por um tempo, mas olha só, ela não cabe em si de alegria! Faz planos e inventa brincadeiras, escreve cartas de boas vindas, pergunta a cada dez minutos quanto tempo falta para eles chegarem. A árvore ainda está cheia de presentes, e amanhã teremos mais um Natal. Este com direito a pizza e bolo de aniversário pelos 6 anos do Santiago.

Acaba-se aí a maratona natalina. E começa a  minha maratona como mãe de 4. E sem empregada para completar. Mas isso é assunto para outro post, não vamos deixar que o post natalino tenha qualquer outro sabor que não um belo tender recheado, uma linda salada brasileira e suculentos peixes suecos.

Marcada à ferro

Meu aniversário de 30 anos foi marcante. Não tem como sublevar a virada dessa idade “redonda”, assim como até hoje me lembro nitidamente da chegada dos 10 e 20 anos. Cada um deles, à sua maneira, teve mais do que simplesmente fatos a serem registrados na minha mente e guardados por meu coração. Fui marcada, aleatoriamente, no físico também. Será coincidência?

Na saída da primeira década, eu não queria de jeito nenhum deixar os 9. A casa de um número só. Absurdamente, a crise de idade foi maior ao entrar nos 10 anos do que nos 30. Como pode ser meticulosa a mente de uma criança! Foi nessa não tão bem-vinda virada que também furei as orelhas. Acreditem ou não, minha mãe não quis colocar brincos em mim quando nasci, e muito menos durante a infância. Nunca entendi o porquê. Tive que eu mesma decidir. Tenho 10 anos, quero brincos. Lembro até hoje do estouro da pistola na farmácia, e da dor seguinte. Que perdurou um fim de semana inteiro. A marca de uma década. Muito melhor furar a orelha de bebezinhos, que nada sentem (ou ao menos não recordam), mas no meu caso foi assim. Foi a marca dos 10.

A entrada nos 20 pode ser retratada como um sonho. Acontecia tudo que uma jovem pode querer da vida: uma festa maravilhosa, amigos por todo os lados, um novo namorado lindíssimo e um piercing. Esse último, inconscientemente, representou a minha marcação do par de décadas já vividas. Fomos as duas, eu e minha melhor amiga, com a cara e a vontade. Chegamos num descolado estúdio de São Paulo, e um moleque enorme, de brincos no nariz, nos peitos e imagine-se lá onde mais perfurou nossos umbigos. Não lembro da dor, totalmente suportável. E a alegria era tanta que não queríamos saber de mais nada, a não ser curtir nossas novas barrigas ornadas e os nossos vinte anos que apenas começavam.

Agora aos 30, em meio a tantos presentes lindos que recebi, abro a caixa que meu irmão me deu. Uma caixa grande e negra, que abrigava outra caixa cinza. Dentro dela, uma pequena caixa bege. E dentro desta, um papel. Muitos desenhos, muitas palavras queridas, e entre elas a frase: vale uma tatuagem! Surpreendente, como sempre meu irmão me conhece melhor do que ninguém. Já tinha essa idéia em mente à tempos, mas só ele, com suas duas tatuagens já feitas e outra a caminho, poderia adivinhar.

Nos próximos dias meu presente se materializará, eternamente, marcando então a minha terceira década vivida…

Inferno Astral

Sim, meu aniversário está chegando. E não é um aniversário qualquer. É hora de virar o calendário, avançar à próxima casa numérica, subir de andar, enfim, sair dos meus maravilhosos e inesquecíveis 20 anos. São os 30 que se aproximam, e com eles um inferno astral bem caprichado. Fase maldosa que posso dizer que predominou em boa parte do ano. 2010 é um número belo, quase sonoro, soa tão bonito que parecia representar um ano de flores constantes e lindos acontecimentos. E eles estiveram presentes, como o espetacular casamento do meu avô, as divertidas viagens que fiz, as deliciosas companhias, amor, família e amizades. Se mostrou uma bonita entrada para os 30 anos, eu pensei. Mas essa foi a parte boa, e nem só de alegrias se encerra uma década.

É como se a minha mente já estivesse se preparando psicologicamente (óbvio) para entrar nessa etapa, agora definitivamente adulta. E não se pode cruzar uma linha tão importante sem passar por uma provação interna. Porque quando ainda se tem 20 e poucos ou até 20 e tantos anos, temos desculpas pra tudo. Para fazer burradas, para encher a cara, para não ter trabalho fixo, para beijar quem quiser, para fazer faculdade que não se gosta, para terminar e emendar namoros um no outro. Tudo bem, mas meus 20 anos não foram só de maluquices. Tive principalmente dois frutos muito especiais dessa década, dos quais me orgulho muito: minha filha e meu livro (e porque não mencionar também a árvore, um belo ipê amarelo que plantei em São Francisco Xavier?) Pelo jeito já matei os 3 “coelhos da vida” em uma década só, o que me deixa livre e inspirada para começar os 30 anos cheia de energia e novos objetivos.

Estou contando os dias para me “desamarrar” da bruxa que se atracou à mim nos últimos tempos, me fazendo ter que agir de forma bizarra, necessitando ir desde a delegacia fazer um BO até tendo a difícil tarefa de enterrar minha gata de 16 anos. Isso sem contar o feriado que passei no hotel mais lindo da minha vida, brigando noite e dia. Minha filha ficou doente duas vezes no último mês, meu carro estorou uma peça que eu não sei o nome, e  o conserto me levou o pagamento de duas oficinas do Onibus Biblioteca. Fui parar no hospital, minha tia adoeceu, discuti com várias pessoas da minha família, e pra completar este é o mês de outubro mais frio dos últimos anos, onde só chove sem parar aos finais de semana (durante a semana abre um mormaço friorento e sem graça). Nem o sol quis aparecer por aqui para animar as coisas. Pra fechar com chave de ouro, agora é também o mês das bruxas e meu aniversário cai numa segunda-feira!

Mas o olhar pra frente é o que nos tira do lamaçal atual. Espero de coração que esses 5 dias restantes sejam bem tranquilos, e que eu consiga projetar todas as adversidades como impulso para realizações futuras. Não se trata somente de um olhar positivo sobre a vida, o que, é claro, reduz tremendamente as adversidades. Trata-se de enfrentar o ciclo de vida individual que está sendo processado. Um ciclo mais difícil também se aplica a um ciclo cheio de oportunidades que pode surgir por aí no mundo pós-aniversário, tornando tudo mais claro e a gente muito mais feliz. A despeito do inferno astral. Que de uma forma ou outra, vai ficar para trás. Dia 18, te aguardo ansiosamente!

Dia do Idoso

“A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”

Charles Chaplin

Muita gente não sabe, mas hoje, 21 de setembro, é dia do Idoso. Dia dos nossos avós e bisavós (para quem ainda tem a sorte de ter). Dia daquela senhorinha de cabelos brancos que pára todo o trânsito, e a gente fica sem graça de buzinar. Dia do senhor que fica na praça jogando xadrez ou dominó. Dia dos velhinhos que, ainda juntos após as bodas de ouro, passeiam de mãos dadas na rua…

Desejo a vocês todos muitos e muitos anos de vida! E que nós todos consigamos um dia chegar lá!

Dia da Independência

Logo que colocamos nosso corpo para fora daquele perfeito abrigo dos 9 meses, um grande berro seguido de choro proclama nossa independência do corpo de nossas mães. Não precisamos mais do cordão umbilical, já que respiramos sozinhos e nos alimentamos através da boca. Porém ainda precisamos das mães para nos amamentar, limpar e acarinhar, embalando nosso sono todos os dias. Ainda somos dependentes.

Mais alguns meses, e queremos ser mais individuais. Não mamamos mais, e já ensaiamos alguns passos sozinhos, sonhando em conquistar o mundo. Somos independentes para pegar com nossas mãos aquilo que queremos, e colocamos na boca o  alimento. Entretanto os pais ainda nos dão banho, escolhem nossas roupas e nos colocam para dormir. Sim, continuamos dependentes.

Anos se passam, e a independência aflora ainda mais. Vamos à escola, sabemos colocar os sapatos, gostamos de escutar música e até brincamos na rua com nossos amigos. Mas papai e mamãe continuam nos levando para lá e para cá, decidem o tema da nossa festa de aniversário, a hora do almoço e para onde viajaremos nas férias. Serzinhos totalmente dependentes.

Agora somos mais altos, decidimos nossas vontades, nosso corte de cabelo e exigimos ser livres. Já podemos ir dormir mais tarde, usar o computador e nos sentimos mais à vontade com os amigos do que na casa onde nascemos. Os pais não sabem de nada e a nossa independência nos sobe à cabeça. Mas eles continuam nos buscando nas festinhas, nos dando mesada e nos obrigando a comer salada. Nada de independência por enquanto.

Quase duas décadas depois já viajamos com os amigos, temos uma linda namorada e até frequentamos a faculdade. Não sentimos mais nenhum resquício de dependência, e proclamamos nosso espaço nas noites em que os pais nos esperam de madrugada em casa, nos domingos em que nos recusamos a ir à casa da vovó e no sorriso de desdém com o qual depreciamos qualquer comentário que eles nos façam. Só que as mensalidades da faculdade são pagas pelo pai, e as roupas, lavadas pela mãe. Que independência que nada.

Já moramos sozinhos, já pagamos nossas próprias contas. Decoramos nosso apartamento com estilo, e na geladeira tem cerveja e petiscos sempre. Somos independentes, nossos pais vem apenas visitar, e a namorada que ia e vinha, agora veio de mala para ficar. Acordamos todos os dia bem cedo para trabalhar. Agora sou livre e faço o que quiser. Bem, nem tanto, hoje não posso sair porque meu chefe pediu pra esticar, e no fim de semana tem aula da Pós, então não vou viajar. Será que essa independência é mesmo a nossa realidade?

Agora as coisas mudaram, o trabalho estabilizou, o salário aumentou e a gente finalmente casou. Temos uma vida mais tranquila, e nos enxergamos claramente independentes. Como temos mais tempo, pretendemos curtir tudo aquilo que a dependência dos anos anteriores não nos permitiu. Viajar pelo mundo, curtir a Amazônia, e passar um tempo de papo para o ar na bela Trancoso. Porém esquecemos que a dependência não aceita ser largada com facilidade: existe agora uma criança, e outra na barriga surgindo, porque hoje a família também cresceu. Não chegou a hora ainda de ser independente.

Os filhos cresceram, e ao vê-los assim, tão desejosos da sua própria independência, nos lembramos da nossa. De quanto lutamos cada dia para conquistá-la, e de que quanto mais a atraíamos, mais ela nos colocava a milhas e milhas de distância. Hoje temos três carros na garagem, somos sócios de um clube e viajamos à Europa. Mas não conseguimos ficar sem ler o jornal, não deixamos nossos filhos sozinhos e não saímos de casa tranquilos sem o celular. O mundo mudou, as dependências mudaram, apenas a INDEPENDÊNCIA continua lá, onde sempre esteve: à nossa frente, bonita e inalcançável, pois ela só existe paralelamente com tudo aquilo que nós prezamos e admiramos, e principalmente, amamos. Ser totalmente independente significa abrir mão de poder contar com alguém, de cuidar, de ter um ombro amigo, de amar incondicionalmente.

Mas hoje é dia 7 de setembro, dia do nosso país, dia do início da liberdade do nosso Brasil. São 188 anos de “crescimento” livre, de independência e de andanças com as próprias pernas. E não era esse também o objetivo de todos nós, a partir do momento em que nascemos? Talvez seja sim um objetivo, uma meta importante, que é o que nos faz querer seguir adiante a cada etapa de nossas vidas, mas que na verdade não deve ser realmente alcançado, pois a proximidade com a independência nos afasta de todo o resto. Queremos ser independentes para poder crescer, para sair da escola, para nos sustentar, para nos livrar da superproteção dos pais, para casar, para ter uma família. A cada etapa que vamos cumprindo, proclamamos uma mini independência interna, deixando dependências antigas para trás e nos tornamos dependentes de novos entroncamentos em nossas vidas. O lado bom de ficar independente significa que superamos algo que foi importante, e que podemos dar então continuidade à nossa história, de certa forma iniciando uma relação de dependência com outras coisas.

E isso é a grande alegria da vida, reciclar amores e cultivar sentimentos, com a independência de poder sempre escolher que rumo tomar, que pessoas amar e como evoluir.