O lado não tão brilhante

USA

O verão aponta no horizonte, o sol brilha quase todos os dias e o verde está por toda parte aqui em Midland. Passamos o final de semana cuidando do jardim. Temos um quintal pequeno porém um terreno grande, que a família que morava anteriormente na casa manteve com muitas floreiras (que não brotam mais), hortas hoje mortas, pedras pequenas sem fim e arvores coníferas que não são minhas favoritas. Eu curto árvores grandes, adoro estar cercada de verde, mas não sufocada por mato. Queremos um gramado para as crianças correrem, e espaço para ter um jardim com a nossa cara. Além disso, do último inverno ficou uma “pequena” lembrança: uma composição de 4 pinheiros arriados pelo peso da neve, se inclinando pesadamente contra a varanda. Aproveitando que o espírito do jardineiro motivado baixou em mim, decidimos fazer por conta própria. Compramos uma serra manual e tosamos os pinheiros de mais de quatro metros de altura. Trabalho pesado. Porém agora enxergamos ao longe, avistamos a cerca e até a luminosidade da casa ficou melhor. Sobraram uns cotocos impossíveis de tirar, e para solucionar isso e mudar o restante, chamamos uma empresa de paisagismo e manutenção de jardim. Mas eles só tem tempo para executar o serviço daqui a 3 semanas, dizem. Não adianta insistir. Virão quando puderem. E os serviços não são nada em conta. No Brasil estamos acostumados com produtos caros e serviços baratos. Já aqui é o inverso. Os produtos em geral são quase de graça, mas tudo que envolve mão de obra custa os olhos da cara. Ajuda doméstica, jardinagem,  manutenção, consertos, limpeza, todos esses serviços demandam uma pequena fortuna. Você acaba adepto do do it yourself. No fundo somos todos capazes, porém a vida mimada no Brasil nos tira essa confiança de fazer com as próprias mãos. É questão de retomar as rédeas e começar você mesmo, quando é possível. No caso do nosso jardim cortamos o que deu, mas para tirar meia tonelada de pedras (e onde coloca-las??) e outras arvores com mais de 10 ou 12 metros de altura, não existe outra opção a não ser contratar mão de obra especializada.

Todo esse prenúncio de gastos e trabalhos com o jardim me inspiraram a escrever hoje sobre o lado não tão perfeito da vida americana. Tenho certeza que muita gente ficará feliz em saber que nem tudo são flores aqui, e já adianto: nada são flores em parte alguma. A felicidade que você tem ao longo da vida está apenas dentro de você, e em nenhum outro lugar.

Já falei um pouco da casa, mas primeiro quero contar sobre o aspecto não tão legal da vida escolar. Na escola não tem portaria, não tem pessoas verificando entrada e saída, não tem nenhum portão ou tipo de controle do movimento dos alunos. O sinal bate, e todos (do kindergarten até o 5th grade) saem correndo. Alguns entram nos carros dos pais que estão esperando em frente, outros pegam suas bicicletas e alguns simplesmente caminham até suas casas, que podem ser ao lado da escola ou alguns quarteirões adiante. Para mim é preocupante uma criança sair da escola com qualquer pessoa e ninguém conferir se é mesmo pai ou parente. Porém analisando por outro lado, isso dá às crianças uma responsabilidade muito maior. Elas aprendem a cuidar de si mesmas desde cedo. A escola se isenta de qualquer responsabilidade da porta para fora. É uma forma de agir muito contrastante com a segurança extrema que temos nas escolas brasileiras, claro que motivada pela (falta de) segurança em geral no país. No começo eu estranhei bastante, mas com o tempo aprendemos a orientar corretamente as crianças a não falar com estranhos, a ir direto para casa e aprender como se virar no trânsito. Os próprios alunos fazem um trabalho voluntário de safety patrol  nas ruas próximas, ajudando os outros alunos a atravessarem as avenidas e cruzamentos. É uma forma distinta de educar, ensinando como agir ao invés de confinar. Nos passeios e field trips da escola também não existe autorização nem nada. As professoras fazem uma contagem, seu filho simplesmente sobe no ônibus escolar amarelo e vai. E você fica rezando para que volte bem! 🙂

O segundo porém: o playground do preschool fica literalmente a dez metros da rua e não tem uma cerca que separe os alunos do transito. É uma via calma e passam poucos carros fora do horário escolar, mas mesmo assim é uma rua. Crianças de 3 ou 4 anos podem facilmente sair atrás de uma borboleta ou bola e não ver onde estão indo. Não custaria nada ter uma divisória lá. Porém mais uma vez, a postura da escola é essa, de ensinar aos alunos a não irem até a rua. Não podem e não irão. E a verdade é que ninguém vai.

Terceiro e principal problema da escola (e de todo resto também, para mim é a principal coisa que incomoda no american way of life): a alimentação. Mando lunchbox de casa todos os dias, porque meus filhos se recusam a comer o almoço da escola. As opções servidas lá variam entre o ruim e o pior, flutuando entre nachos, pizza, pancakes e hamburgers. Lolo reclama até do cheiro. Para nós brasileiros que estávamos acostumados ao típico almoço de arroz, feijão, uma proteína e salada, comer essas coisas pode ser legal num começo, mas a longo prazo seu corpo não aguenta mais. E pra piorar meus filhos também não querem comer a comida feita em casa lá no refeitório, dizem que fica fria e que ninguém come isso também. Cheguei numa alternativa razoável com os dois, e que tem funcionado bem: mando para a escola um lanche reforçado. Por exemplo hoje Lolo levou cereal e leite, laranjas fatiadas, iogurte e iced tea e Nico levou sanduiche com geleia, morangos, cookies e suco de maçã. Fora esse almoço tem dois snacks na escola. Dessa forma aguentam o dia e assim que chegam da escola às 4pm comem comida de verdade em casa. O velho arroz e feijão que eu finalmente aprendi a fazer, e bem! Não é o ideal comer só a tarde, mas é o que temos.  No embalo da alimentação fica mais uma pequena critica: apesar de almoçarem na escola todos os dias, ninguém escova os dentes! As crianças passam de 8:30 a 4 da tarde lá, lancham e almoçam e ninguém leva escovas ou tem esse hábito. Não me conformo, já que é algo simples e que deveria ser inserido desde cedo na rotina infantil.

Outra questão de segurança que literalmente não entra na minha cabeça: você pode andar de moto nas rodovias, estradas, onde bem entender e não é obrigatório o uso do capacete. Você vê crianças e pais andando por aí de moto sem capacete algum. Enquanto isso até um toddler de triciclo usa capacete. Em bicicleta também todo mundo usa, até para ir na esquina. Realmente não da pra entender a lógica: se cair de bike a 20km por hora, você certamente vai quebrar a cabeça, por isso não esqueça o capacete, mas andando de moto a 100km por hora vá sentindo a brisa no rosto, relaxe…

Outra coisa que também normalmente não se imagina: cartões de crédito no Brasil são infinitamente mais seguros que aqui. O brasileiro atualmente usa senha e chip para tudo. Tudo duplamente seguro, até porque no Brasil não há outra alternativa. Aqui o chip praticamente não é usado e muita gente nem conhece. Os cartões são como aqueles antigos só de deslizar. Não se usa senha para nada. Os cartões de credito ainda são levados para os caixas dos restaurantes (não existe a maquininha portátil), e ninguém confere se você é o titular do cartão. Ainda se usa a velha assinatura na via do estabelecimento, mas ninguém checa se é a sua assinatura mesmo. É absurdamente menos confiável, mas acredito que seja um reflexo da honestidade que ainda existe por aqui. Funciona bem dentro dos EUA, mas ao viajar para fora você fica mais vulnerável a ter um cartão clonado ou alguém usando indevidamente o que é seu. Por falar em questões financeiras, o americano normalmente não dá 10% de serviço. Dá no mínimo 15 e o usual é dar 20% de gorjeta a garçons e afins para um serviço bem prestado. Pesa no bolso de quem paga, mas é excelente para quem trabalha e valoriza um bom atendimento. No cabelereiro, manicure, lava-rápido idem. Só não se dá gorjeta ao frentista porque aqui ele não existe, é você mesmo. Coisa que se aprende com facilidade, abastecer o próprio carro. Só não é nada divertido durante uma nevasca com temperaturas beirando os 20 graus negativos.

Esse último item “social” que vou descrever agora é mais uma questão de hábito e costumes de cada povo, mas que para mim causou bastante estranheza. Os americanos em geral  jantam cedo. Almoçam cedo. São pontuais e tem horários bem demarcados. Às 11:50am os restaurantes começam a ter gente, e a seis da tarde todo mundo está jantando. Nove da noite a cozinha dos restaurantes fecha, e perto das dez você provavelmente não encontra um único lugar aberto para comer na cidade a não ser fast food. Na casa das pessoas a pontualidade da visitas é extremamente importante. Se você é convidado para uma refeição, chegue no horário e ainda fique atento: vá embora no horário. Aqui um convite para almoçar, num sábado por exemplo, não é como no Brasil que se estende ao cafezinho, às crianças brincando, ao ultimo drink e muitas vezes emenda no jantar com os amigos passando o dia todo na nossa casa. Aqui você chega, come, agradece e se vai. E se você por acaso esquecer, não é raro o dono da casa encerrar a conversa, te entregar seus casacos e avisar que é hora de ir. Festa de crianças idem. Tem hora para começar e acabar. E não ouse atrasar e buscar seu filho meia hora depois do combinado, nem chegar antes para participar do parabéns. A festa é apenas para quem foi convidado, ou seja seu filho. Bem chocante para nós brasileiros, que amamos uma festa e uma bagunça. Nesse ponto é muito bom ter amigos brasileiros aqui também, do tipo que chegam na sua casa sem hora pra ir e que festejam da forma como nós gostamos de festejar.

São coisinhas essas que culturalmente nos diferem dos americanos, e ao mesmo tempo que são positivas em alguns aspectos, em outras nem tanto. Cabe a quem vem de fora se adaptar, e isso é o que eu tenho tentando nos últimos 16 meses, e procurado passar para as crianças também. Eles em muitas coisas já agem como americanos. Por exemplo quando Lolo vem com muitas formalidades ou tipo me fala que não precisa ir de casaco pra escola (12 graus lá fora – as crianças do Michigan simplesmente não tem frio) eu já vou chamando ela de “americaninha”. É uma brincadeira, mas que no fundo faz todo o sentido. Que ela nunca perca o jeito feliz e expansivo brasileiro, mas que possa ser lapidada com a educação e o amor ao próximo dos americanos.

 

 

 

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Era uma vez um cachorro que amava o mar…

Se havia uma coisa que Billy realmente apreciava era sentar-se à beira da praia olhando o mar. Seu focinho movimentava-se aleatoriamente, pescando cheiros da maresia. Mirava ao longe, observava pessoas, e se alguém da família saía para caminhar, acompanhava seus passos com o olhar até onde a vista alcançasse. E ficava à postos esperando. Quando avistava o contorno dos donos retornando, sabia que era a chance de uma escapulida pela areia. E então ele vinha, todo feliz, abanando o rabo, ao nosso encontro. Doce Billy. Quem ficaria bravo com essas boas vindas?

Mas quem o conheceu desde filhote sabe que nem sempre foi assim, que essa paz só foi conseguida depois de muita correria e castigos no lavabo da casa de praia. Quando ele escutava a palavra “castigo”, já sabia que deveria ir ao banheiro e ficar por lá até que os ânimos se acalmassem. E olha que ele realmente nos tirava do sério. Fugia pelo condomínio, correndo numa velocidade inalcançável. Voltava quando bem lhe dava na telha, ou quando alguém o encurralava de carro. No primeiro verão da sua vida atacou guarda-sóis, furou bolas coloridas e assustou criancinhas, mesmo sendo do tamanho de um poodle. Isso porque só tinha 3 meses. O jardim, que transbordava diretamente na areia,  e ficava a poucos metros do mar, era um convite à suas maluquices. Não foram poucas as vezes que cogitamos usar até uma cerca eletrica subterrânea para conter o Billy.  Era apaixonado pela família, mas não tinha peso nenhum na consciência em causar o que fosse para gastar a sua infinita energia.

Imagine que ir a praia com um cachorro desertor já é dificil, pense então em ir a praia com um cachorro fugitivo com gesso na pata. Em seu segundo verão de vida, após um atropelamento suicida às vésperas do Natal (fruto de mais uma de suas inconsequentes fugas noturnas), Billy teve que levar pontos na cabeça e enfaixar uma das patas traseiras. Mesmo assim, se mandava sem pena. Voltava arrastando as ataduras imundas, enfarinhado em areia, e molhado até a alma. Imobilizá-lo sobre a mesa de jantar e trocar os curativos era uma rotina estressante, e pensamos seriamente que a perna não se curaria devido as inúmeras vezes em que foi preciso limpar e enfaixar tudo de novo. Mas nosso Bilão era valente, e no mês seguinte já estava bem. Com 1 ano e meio, ele então começava a se acalmar. Pesaroso pensar nisso, mas foi necessário um acidente para que ele entrasse um pouquinho nos eixos. E nem a cicatriz na cabeça que o acompanhou por toda vida o deixava menos lindo. Como era bonito nosso cachorrão.

Seu pai era um labrador chocolate, grande e forte, de quem Billy herdou a cor. E também uma eventual braveza, que se mostrava em alguns arranca rabos, principalmente envolvendo algum macho com a auto-estima maior que a dele ou qualquer fêmea que aparecesse . Era um eterno romântico. Fosse uma viralatinha capenga do sítio, ou uma labradora com pedigree, após o encontro amoroso o Billy passava dias uivando tristemente. Teve muitas “amizades coloridas”, com labras de todas as cores, e deixou mais de 30 descendentes (só diretos, imagine quantos netos, bisnetos e trinetos) espalhados por aí. Sua mãe era uma labradora preta, com um quêzinho de labralata, de quem puxou o corpo grande, magricelo e o olhar cor de caramelo. Libriano, nasceu em meados de outubro numa garagem em Osasco. No início de dezembro fomos buscar o filhote macho, único marrom, fofo demais, aquele que toda  família escolheu. Na garagem onde viveu suas primeiras semanas de vida ele parecia tranquilo em meio ao caos da ninhada. Chegando em casa, ligou o botão infernal. Corria, rolava, mordia, comia tudo que estivesse ao alcance. No primeiro ano foram telefones, chaves do carro, diversos óculos escuros, sapatos, roupas.  Os potes de ração se transmutavam em plástico retorcido, até que foram substitídos pelos metálicos, e os pés da mesa da cozinha ficaram mais finos a cada dia. Não podia ter caminha, nem cobertor, pois na manhã seguinte nada mais restava do que trapos coloridos.  Não foram poucas as vezes que fiquei com a mão furada, seus dentes-de-leite pareciam agulhas, e ele adorava exercitar a mini mandíbula. Nessa época comecei a aprender na marra a frase mais válida sobre cachorros: labrador bom é labrador cansado. Se ele não saísse de casa ao menos duas vezes ao dia, para correr ou caminhar rápido, e roesse uns 5 ossinhos, e ainda subisse e descesse as escadas atrás de algum dos gatos da casa, pode ter certeza que o pequeno Billy se faria notar. Com a boca: latindo ou comendo algo. De preferência algum eletrônico bem caro.

Adorava andar de carro, sempre com a cabeça para fora. Naquela época ainda não havia restrições a cachorros em Cumbica, e ele fez um sucesso estrondoso ao buscar meus irmãos no aeroporto. Não tinha jeito de deixá-lo no carro, pois com certeza na volta o assento estaria rasgado, ou o câmbio totalmente destruído. E como se esquecer da famosa frase, a que ele mais gostava de ouvir em todo o mundo? “Vamos passear?” E ele começava a correr descontrolado, a saltar, pegava a coleira com a boca. Quem realmente o conhecia podia afirmar que nessas horas ele até mesmo sorria. Era sua hora favorita do dia.

Com 6 meses, Billy ganhou um irmão. Com muito esforço convenci minha mãe de que seria ótimo para os nervos do Bilão (e dos nossos também) ele ter um amigo labrador com quem brincar. Dessa vez escolhemos um macho amarelo, o cachorro mais belo que já vi, que tem o focinho claro e olhos quase azuis. Batizamos de Mike. Forte desde bebê, ele também é incansável, mas sem a rebeldia do Billy. É mais contido, adestrável, e se deixa educar. Obedece e respeita, desde pequeno. Responde aos comandos, e virou realmente a companhia ideal do irmão. Nesses 12 anos de vida, não passaram mais do que duas horas separados. Foi de partir o coração ver o Mike ao lado do Billy nas suas últimas horas de vida. Companheiros até o final.

Os dois cresceram num grande jardim, e de vez em quando desatavam a correr. A gente dizia que dava a louca nos cachorros. Billy parecia um carro desgovernado, pois saía pela tangente nas curvas, de tão rápido que ia! Depois se jogavam na piscina. Mike ia direto, porém Billy precisava do seu “aquecimento”. Não sei se era um tique nervoso ou superstição canina, mas ele necessitava dar 5 voltas na piscina antes de entrar. E entrava… pela escadinha! Apoiava as patas traseiras, de repente erguia as dianteiras e se jogava! Sempre da mesma forma. Era mesmo um cachorro nada convencional.

Nos almoços, enfiava o focinho nas mãos de quem comia. Era muito pidão. Sempre ganhava algum pedacinho, e ao longo dos anos minha mãe criou o péssimo hábito de presenteá-lo com pão francês nas manhãs. De pidão passou a ser implorante. Fios de baba escorriam pela sua boca, e chegavam a se pendurar por 30 cm! Cena incrível, mas nada agradável quando se está comendo. Criou um discípulo: o gato Crocat, que aprendeu a pedir comida da mesmíssima forma, e até hoje nos arranha na mesa pedindo almoço. Billy também revirava lixos e lixeiras sempre que tinha a chance. Sem dúvida ele tinha um pé na cozinha, literalmente.  Espalhava restos por todo o canto, e comia de tudo. Não raro vomitava depois. Num Natal, enquanto a gente se arrumava e ele ficava preso na cozinha, devorou o peru da ceia. Ficou só a assadeira.

Sei que neste carnaval eu perdi o cachorro da minha vida. Junto com o Mike eles foram os companheiros da minha adolescência e começo da vida adulta. Me fizeram rir, me deixaram nervosa, me levaram pra passear, dormiram comigo muitas tardes e noites. Só com olhares a gente se entendia. O Billy adorava que eu o esticasse na caminha (quando ele finalmente ganhou e não destruiu uma) e fizesse um barulho bem esquisito na orelha dele. Era o boa noite. Era assim que a gente se falava. Agora só conversaremos em sonho. Ou em outra vida.  Hoje ele está enterrado na praia. Assim como na foto, ele terá eternamente aquilo que sempre amou: a vista do mar.

Vai em paz, meu Bilão.

Comer e emagrecer?

Neste último final de semana, aproveitando que estava sem marido e sem filha, fui com a minha mãe conhecer um hotel spa. Um desses locais bem na moda atualmente, cheio de charme e, como eu imaginava antes de chegar lá, repleto de dietas, exercícios e fome. Especulava, equivocadamente, que encontraria um cenário cheio de pessoas com sobrepeso, cansadas de malhar e mal humoradas de tanto saborear jantares de folhas e sopas sem sal. Para sabotar antecipadamente a dieta, a caminho do spa, fui devorando uma caixa de Amanditas no carro.

Chegamos num entardecer gelado e ensolarado. Um lugar rústico, a pouco mais de uma hora de São Paulo, cheio de verde, almofadas coloridas, araras e cachorros. Um ambiente descontraído, onde todos são incrivelmente simpáticos. Ao chegar você já se sente em casa, recepcionado por 3 “emus” (espécie de ema peluda) que andam livremente pelo hotel. Logo após nos instalarmos num quarto com varanda e aquecedor, imprescindível nos dias de inverno, rumamos à última atividade esportiva daquele dia: aula de hidroginástica.  Água quentinha, aula divertida, que eu acompanhei bem mesmo com o barrigão. Na hora de voltar pro quarto, quinhentos metros de caminhada, molhadas só de roupão, no escuro e a temperatura em queda rumo aos 10 graus. Frio de verdade! Depois do banho, jantar, e daí começaram as boas surpresas culinárias: pode uma refeição de menos de 200 calorias ser gostosa, e o mais incrível, te deixar satisfeita?

A gente chega no hotel estressado, acostumado a açúcares e sal em excesso (acreditem se quiser, o segundo faz mais mal que o primeiro) e lá se depara com um cardápio que se inicia com uma sopa. De início meu primeiro pensamento foi: comida de hospital! Aquele sabor salgado tão comum às sopas não está presente, mas incrivelmente depois de umas colheradas ele passa a não fazer tanta falta, e a presença dos vegetais fica mais marcante. O prato principal é frango, com um molho supreme saboroso, acompanhado de salada de folhas e legumes grelhados. Tudo temperadíssimo com ervas, mas sem sal. Para completar, sobremesa, claro, porque todas as refeições tem 3 pratos. E nenhum gosto de docinho dietético. Era doce-doce de verdade! E com poucas calorias! Já no fim de noite, degustei o que acabou sendo a minha descoberta-delícia do final de semana: o chocolate quente light. Sou muito fresca para as coisas diet, com sabor artificial, mas esse chocolate parecia ser feito com o mais cremoso dos leites e o mais genuíno dos chocolate em barra! Só que ao invés de 250 calorias, tinha apenas 60 calorias a xícara grande. Fica a receitinha: uma colher de Molico em pó e uma colher de achocolatado Gold diet. Só. Mistura com água fervendo até dissolver. Parece milagre, mas eu vi e provei (e já estou sentindo falta!)

No dia seguinte, um dos monitores passa nos quartos acordando os hóspedes às 7 horas da manhã. Sem enrolação. Só eu, como gravidinha, fui dispensada da caminhada pelas fazendas vizinhas, de cerca de 7 quilometros. Minha mãe foi, adorou, e eu dormi até às 9 horas. Levantei e tomei o café da manhã, também farto, com duas torradas, queijo branco, geléia light, suco e duas frutas. Mais que suficiente até a hora do lanche da manhã (são cinco refeições diárias, que não permitem que o corpo sinta falta de comida, por menor que seja a quantidade consumida em cada uma). Depois fui caminhar pelo viveiro das aves. Parei logo de cara no cercado das araras. Animais lindos e coloridos. Estava bem na hora da alimentação delas, e aproveitei para ajudar o cuidador. Milho, maçãs e bananas, que elas comem das nossas mãos. Me encantou especialmente uma arara azul, daquelas em extinção no Brasil, réplica do Blu, do filme Rio (quem tem filho pequeno sabe). A arara azul era líder, e comandava as outars araras verde-e-amarelas. Elas ainda voam, e me entristeceu vê-las presas, tão domesticadas, mas ao menos têm um espaço aberto de 40 metros quadrados, com galhos, madeiras e cordas. E por serem nascidas em cativeiro não poderiam ser devolvidas à natureza de qualquer forma.

Nos primeiros dias, você fica ansioso pensando nas atividades. O que fazer? No segundo dia, a calma já transparece. Sentar no sol de inverno, ler um livro, escutar os sons do mato já são uma boa distração. Fora os lanches, sempre oportunos. O almoço nesse dia também foi excepcional. Quibe de soja, recheado com queijo branco. Simplesmente o melhor quibe que comi na vida. Infinitamente superior ao do Almanara ou de qualquer vovózinha árabe. Sério mesmo. A comida começou a me impressionar. Para acompanhar, batida (ou raspadinha) de suco Clight de tangerina. Outro achado. Parece que você está tomando um cocktail mega calórico, mas nada é do que um suco sem açúcar e com gelo. Como emagrecer pode ser tão saboroso?

À tarde, massagem, sauna e jacuzzi. E sempre conversando com novas pessoas, que eram incrivelmente interessantes. Tinham famílias inteiras, casais, até bebês lindinhos acompanhando as mães. Fizemos amigos por lá, e a cada dia aproveitamos mais. Quando se começa a entrar no esquema, a rotina do spa é viciante. O corpo passa a responder mais à dieta sem sal e açúcares, e a disposição aumenta. A sensação de bem estar também. À noite, jogos de buraco na lareira. Comecei perdendo, mas ganhei no final da rodada, é claro. Foi servido mais um jantar maravilhoso, hambúrguer de legumes (palmito, tomate e cebola “compactados” e grelhados) e salada de folhas verdes com tofu. De deixar qualquer um satisfeito, e olha que não sou vegetariana, porém depois desses dias eu descobri que seria possível abrir mão de carnes e continuar comendo bem. Quem sabe um dia…

Outro lanche maravilhoso que recebemos certa tarde foi uma pizza de pão sírio com fatias finíssimas de queijo branco e manjericão. Com suco de caju. De comer e repetir. Por sorte a minha dieta (como grávida) era sem restrições, portanto eu podia repetir. Os hóspedes normalmente são divididos em dietas de 600, 800 ou 1.200 calorias. É muito fácil perder peso dessa forma. No último dia, um desalentador jogo Brasil x Paraguai. Todos assistimos, beliscando mini torradas de gergelim com uma pasta de queijo cottage e ricota, acompanhadas de ameixas frescas. A pipoca com guaraná nem fez falta.

No dia de ir embora, fiz a caminhada das pedras. Um percurso, onde há um caminho de pedras, com água gelada (não fria, gelada mesmo) até a altura dos joelhos. Nas primeiras voltas, a impressão é que você deixa de sentir seus dedos. E pé. E tornozelo. Mas com o tempo,  a circulação vai se adaptando, e parece que todo o corpo recebe esse sangue refrigerado. Muito bom, e quando se deixa o caminho das águas, o pé começa a formigar de volta ao contato com o calor do ambiente.  Na hora do almoço, a melhor sobremesa de todas, para fechar a estadia com chave de ouro: pudim de soja com calda de frutas vermelhas. Comi duas porções. Uma das melhores sobremesas da minha vida, e olha que sempre fiz cara feia para a soja, qualquer fosse seu “veículo” alimentício, quanto mais um pudim.

Esses dias serviram para quebrar muitos dos meus preconceitos referentes aos alimentos. E modificar alguns hábitos, além de expandir minha idéias de receitas. Não é à toa que esse spa é famoso. Se as construções são simples, se os quartos não tem decoração combinada, tanto faz. O que realmente importa, a comida e o serviço, esses sim são impecáveis. Sabores e pessoas especiais. Desde a dona até o cuidador dos cachorros. E isso é o que faz desse lugar tão mágico e querido entre todos que vão para lá. De todos que conhecemos lá, a grande maioria já frequenta o spa há anos. Eu, com certeza, pretendo voltar. Se com apenas 4 dias você vê como a alimentação correta pode nos influenciar positivamente, imagina então ao longo da vida. Não só no peso, mas na saúde, na qualidade diária e no bom humor. Adorei a experiência, e nunca mais vou associar spa a fome. Pelo contrário, passei esses dias saudavelmente satisfeita. Por tabela, Nicolas agradece!

O que os guias não contam sobre Barbados…

Muita gente, inclusive alguns locais da ilha, acreditam que o tridente na bandeira de Barbados vem de uma antiquíssima simbologia do diabo, datada do século 16. Na verdade, o acessório negro presente na bandeira simboliza o tridente de Netuno, rei dos mares. Como a principal atividade econômica do país é a pesca, nada mais lógico. O azul dos dois lados simboliza o oceano e o céu, e o amarelo representa as belas areias de Barbados.

O que mais tem por lá são casas residenciais inacabadas. São habitadas, as famílias moram lá, estão praticamente prontas, mas falta a pintura externa, uma ou outra janela, ou então a cobertura da varanda. Demorei a descobrir o porquê, imaginando que talvez a pobreza fosse maior do que eu esperava, ou então que eles não tivesse lá muito bom gosto para arquitetura. Porém não é nada disso. Simplesmente existe uma lei em Barbados que isenta de pagamento de impostos as casas que ainda não estão finalizadas! Então os espertinhos deixam a casa “no forno” por até 5 anos, tempo de carência para finalizar o projeto, e durante esse período não pagam as taxas. Quem disse que só os brasileiros gostam de levar vantagem?

A ilha de Barbados é inteiramente formada por corais. Ela veio, literalmente, do nada. Sedimentos e restos de animais marinhos foram se acumulando durante milênios na depressão entre duas placas tectônicas, e quando estas se moveram,  fizeram surgir sobre as águas uma enorme porção de coral. Não existem rochas ou pedras, e tudo, inclusive morros, montanhas e cavernas são compostos por um material quebradiço e todo esculpido por correntes marinhas, há milhares de anos. No pico mais alto da ilha, encontramos conchas remanescentes do período em que tudo aquilo era coberto por mar.

Falar bem inglês não quer dizer que você conseguirá se comunicar por lá. Entender o dialeto deles é muito difícil, falam baixo e arrastado, como se “comessem” a primeira sílaba da palavra, e para compensar exagerassem na pronúncia da última. Demoramos horas para encontrar um restaurante chamado Turkey Nine Steps, indicado por uma falante vendedora de diamantes. Só conseguimos jantar quando associamos o belo luminoso que dizia 39 Steps ao restaurante de frutos do mar que procurávamos.

Foi a primeira vez na vida que, mesmo com muita fome, deixei de lado um delicioso fish cake. A pimenta era tanta, mais tanta, que a boca inteira parecia dominada por formigas. As receitas bajans levam muitos condimentos, e mesmo pratos que usualmente não têm sabor picante, como saladas, vêm vermelhas de tanto tempero. Talvez pela alimentação na ilha ser muito básica (em qualquer restaurante típico que você vá, a comida não foge muito do peixe frito, torta de macarrão, arroz e legumes) a pimenta acaba sendo um extra nos sabores a que eles estão tão acostumados. Outra curiosidade alimentícia assustadora: Barbados é o terceiro país das Américas que mais consome frango. São 12 lojas KFC numa ilha do tamanho de um bairro de São Paulo, e a rede Cheffette, a concorrente nativa, conta com nada menos que 17 estabelecimentos por lá. Haja pimenta pra tanto frango frito!

Um dos travessos macacos da ilha foi a causa do maior blecaute da história de Barbados, ocorrido em 2006. A empresa de energia relata que foi visto um macaquinho saltitante entre os fios de 24.000 volts da estação, que ao escalar um poste, provocou a ruptura de um dos cabos e deixou a ilha inteira no escuro por horas. O macaco infelizmente foi eletrocutado, claro.

Barbados é um dos 10 países do mundo que estão mais próximo de atingir as metas do Fórum Mundial de Educação. Está muito à frente de países como Argentina, Chile, e claro, Brasil, que ocupa a 72 posição. Em Bridgetown e outras cidades barbadianas, as crianças saem da escola e circulam pelas ruas com uniformes de corte inglês, impecáveis em sua vestimenta sóbria. Assim também é o sistema de ensino. A educação é obrigatória e gratuita dos 5 aos 16 anos, e a frequencia escolar é estritamente reforçada. Tudo muito bonito de se ver.

Viciados em Rum Punch. Esses são os barbadianos, movidos pelo “combustível” rosado. O nome Punch vem da palavra panch, que significa 5 em indiano. O número se refere aos sabores do drink, segundo um famoso poema de lá: one of sour, two of sweet, three of strong and four of weak, a dash of bitters and a sprinkle of spice, serves well chilled with plenty of ice. 
Qualquer lugar que você vá, lá está o drink. Até nos passeios, como no catamarã ou no Island Safari que fizemos, após 20 minutos de estrada o motorista saca um garrafão de dois litros da bebida, abre uma geladeirinha com gelo e distribui os copos aos passageiros. O aviso não é nada como “não exagerem na bebida”, e sim “cuidado para não derrubar nem uma gota na pessoa ao lado”. Porque isso sim seria um desperdício.

Bom, isso é um pouco de Barbados que só quem esteve lá conhece. Águas claras, praias paradisíacas e o sol são só detalhes.

Gatos de 3 cores = fêmea?

É mesmo verdade que gatos de três cores só podem ser fêmeas? Desde pequena eu escutava essa frase, e estava totalmente convencida do assunto. Já fui dona de uma linda tricolor, menina claro, e todos os machos que eu tive eram sempre de cores únicas ou bicolores. Até sábado passado. Nesse dia adotamos nosso novo gato, Cookie, um poço de energia, pequeno életrico que encanta todo mundo com seus belos olhos azuis. Olhos estes, que junto com as escaladas na grade da gaiola, fizeram com que a gente se apaixonasse, mesmo diante da placa “ainda não disponível para adoção” pregada na ficha dele. Mas pedimos tanto (o que 4 crianças não conseguem fazer) que o homem do CCZ permitiu que adotássemos ele. Na verdade ele foi com a nossa cara. O gato e o homem. Isso porque ele próprio havia salvado o Cookie, com poucos dias de vida, ainda olhos fechados, da boca de um cachorro. Gato sortudo. Gato único. Desde sempre.

Ontem comecei a reparar numa linda mancha marrom que ele tem em forma de coração, nas costas, e daí para pensar nas cores da pelagem dele foi um passo. Peraí! Ele é predominantemente branco, com manchas pretas e rabo preto, e também com manchas marrons! Como assim? Macho? 3 cores? E ele é macho mesmo, já peguei castrado e não há margem para dúvidas nesse “quesito”.

Fui pesquisar o assunto, e diminuir a minha ignorância (e também a minha certeza) em relação ao mundo dos gatos. Encontrei a resposta, e realmente ela só prova que, de comum, esse gato não tem nada. Especial que só ele. A verdade é que 1% dos gatos tricolores são machos e, ainda assim, frutos de uma anomalia cromossômica. Para entender como é definida a pelagem dos gatos, primeiro é preciso saber duas coisas: a característica é herdada dos pais do animal e os genes das cores (preto, branco e amarelo/marrom) estão presentes no cromossomo X. Na reprodução, a fêmea passa para o filhote um cromossomo do tipo X e o macho pode enviar um X, dando origem a uma fêmea (XX), ou um Y, formando um macho (XY). Para uma fêmea ter três cores ela precisa possuir um cromossomo X com o gene amarelo/marrom e o outro X com o gene branco dominante. No caso do macho, para ele ser tricolor, precisaria ter também dois cromossomos X (como as fêmeas), além de mais um cromossomo Y, que o torna do sexo masculino. Isso resultaria numa aberração cromossômica. (Ah vai, ele não é aberração! É muito lindo, com uma energia sem fim, disposto a atacar qualquer coisa que se move: macho ou fêmea).

E ainda tem mais. Quando tal raridade acontece, o gato tricolor (XXY) é estéril. Ou seja, a castração do Cookie foi inútil. De uma forma ou outra, ele não poderia ter filhotes mesmo. Mais um ponto para ele, gatinho tão incomum: não deixará descendentes. Que viva enquanto puder, 15 ou mais anos, alegrando a todos nós com sua personalidade única. Hoje eu sei que não fui eu que o escolhi, ele que nos escolheu. Gato especial mesmo.

Os gatos da minha vida

Não, não vou falar sobre homens e relacionamentos. Hoje vai um texto bem natureba, que só quem é fanático por animais vai entender. E isso vem de família. Minha avó já era gateira (apesar de afogar os filhotes recém nascidos na água – mas naquela época, sem castração, quem pode julgar essa atitude?) e minha mãe e tia também. A primeira de forma mais contida, uma espécie de amo-meus-cinco-gatos-desde-que-eles-não-me-toquem e a segunda é fã de felinos de marca maior. Dessas que pegam gatinhos abandonados em qualquer estrada e dormem desconfortavelmente na cama só para que os bichanos possam se acomodar melhor. Coisa que eu assumo que já fiz muito também, e faço até hoje com meu Caillou, que religiosamente se deita na mesma hora que eu, entre meus pés.

O primeiro gato da minha vida foi o Tikinho, eu devia ter uns 8 anos de idade nessa época. Todo rajado, era aquele gato bem vira-lata. Encontramos ele ainda filhote numa noite de domingo, sob uma prateleira de supermercado. Eu e meu irmão insistimos muito, e minha mãe convencida levou ele pra casa. Viveu uns 2 ou 3 anos conosco, até que num período que nos ausentamos em viagem para a Suécia ele desapareceu. Ou assim nos contaram, porque acho que na verdade ele pode ter tido uma morte mais trágica, mas os detalhes foram poupados às crianças da casa.

O segundo, e eterno, pois foi o gato mais marcante da vida de todos nós naquela casa, foi o Nugget. Amarelo e branco, carinhoso e dengoso. Quando o pegávamos no colo, de barriga pra cima, ele abraçava nosso braço com as patinhas dianteiras. Ele nasceu num quartinho de bagunças na praia, e era muito arisco, como a mãe dele, que não permitia que ninguém se aproximasse. Fisssssttttt era o barulho que se escutava em coro quando alguém entrava no recinto. Veio à vida  num 31 de outubro, 1991. Era um gato bruxo no começo, mas com muito carinho (e comida) nos o domesticamos. Assim que ele desmamou, subiu para São Paulo com a gente.  Mas não veio sozinho, pois na mesma época abandonaram também na praia um gato preto e branco filhote, que se tornou inseparável do Nugget. Era o gato Felix. Dele eu lembro que babava muito quando estava feliz, era ronron e baba pra todo lado, muito nojento pra quem nao estava acostumado.

Poucos meses antes de levar os dois para São Paulo, minha tia encontrou numa cidade perto do sítio uma filhotinha toda preta, muito meiga e linda, e acabou convencendo minha mãe a ficar com ela. Levamos a gatinha para casa, e logo depois num feriado, para a praia. Lá, a caseira de um vizinho disse que a gata estava infestada de pulgas e lêndias, e que deveríamos comprar um remédio na farmácia. Ainda meio inexperiente com gatos, e sendo maníaca por limpeza como é , minha mãe foi imediatamente, e no começo da noite aplicou o produto em todo o pelo dela. Algumas horas depois, no meio da madrugada, a Pretinha começou a ter convulsões e vomitar muito. Logo cedo, levamos num veterinário, e mesmo com lavagens e remédios, poucas horas depois ela morreu. Intoxicada. O produto deveria ter sido totalmente retirado com água e sabão, e como isso não foi feito, ela se lambeu e ingeriu toda a química. Acho que esse é um dos maiores pesos na consciência que a minha mãe tem, e poucas vezes na vida vi ela chorando desconsoladamente como naquela tarde.

Nugget e Felix ficaram muito tempo em casa, até que novamente numa viagem, o Felix apareceu morto no porão. Atropelado, envenenado, ninguém nunca soube. Nugget reinou soberano até que eu fiquei sabendo que a gata que vivia na escola (sim, eu estudava numa escola que era meio zoológico, com galinhas da Angola, coelhos, e galos que invadiam repentinamente a sala de aula) havia tido filhotes. Durante 1 mês eu passei todos os recreios com a ninhada, querendo de todo jeito uma fêmea tricolor, muito fofinha. Aliás, muita gente não sabe, mas todo gato de 3 cores é fêmea. Obrigatoriamente. Nem toda fêmea tem 3 cores, mas se tiver é ELA com certeza. Coisas da genética. No dia combinado para pegar a filhota, cadê? Não estava mais na ninhada. Desconsolada, mas sem querer perder a chance, já que meu pai havia concordado em ter mais um bichano, acabamos pegando um macho todo branco com duas pintas negras. Uma era na cabeça e uma nas costas. Foi batizado Teddy. Ele e o Nanã (apelido do Nugget), se apaixonaram à primeira vista. Nanã virou o pai dele, e acreditem-se quiser, o Teddy mamava nos peitos (de macho, claro!) do Nugget. Muito surreal, todo mundo morria de rir assistindo a simulação de amamentação entre esses dois.

Na Páscoa do ano seguinte, 1994, mais uma gata de rua deu a luz no quintal da casa de praia. Eram dois filhotes dessa vez, um amarelo e uma tricolor, o meu sonho felino. Quando nos aproximamos, a mãe  fugiu assustada, deixando os dois filhotes. De repente, horas depois, voltou e buscou um só, o amarelo, levando-o pela boca. Deixou a tricolor lá, abandonada, aos poucos dias de vida. Cabia dentro da minha mão. Foi uma trabalheira para convencer meu pai a aceitar o terceiro gato na casa. Mas éramos quatro contra um, e a maioria venceu. Nanny subiu a serra dentro de uma caixa de leite, enrolada em paninhos. Eu dava leite pra ela numa daquelas chuquinhas de bebê, que se compra em farmácia. Acordei cedo durante várias semanas, e antes de ir pra escola preparava o leite morno da Nanny, que ela tomava avidamente. Muita gente duvidou que ela fosse sobreviver, pelo tamanho diminuto que tinha. Mas dois meses depois ela já era uma filhotona esperta. Foi nessa época que aconteceu uma das mortes de gato mais trágicas da minha vida. Lembro que era um sábado, e estávamos voltando para casa ao anoitecer, depois do aniversário do meu tio. Chegando na Al. E. apenas avistamos um corpo branco e felpudo no meio da rua. Teddy havia sido atropelado. Chorei desconsolada por horas, e ele foi enterrado no terreno ao lado de casa. Muito triste. Anos depois, meu irmão caçula e um amigo bem doidinho que ele tinha, desenterram a pobre ossada do Teddy, e sob os gritos horrorizados de toda a família, fizeram um segundo e eterno funeral para o pobre bichano.

Ficamos só com Nugget e Nanny por alguns meses, e esta última aos poucos começou a engordar desmedidamente. Aos inacreditáveis 9 meses de idade, ela pariu sua primeira e única ninhada (depois desse “acidente”, todos os gatos foram sistematicamente castrado na mais tenra idade). A bolsa dela estourou no sofá, e na manhã seguinte, 27 de novembro de 1994 (lembro porque era último dia de prova na escola), nasceram 3 gatinhos, um amarelo macho (filho de um gatão de rua enorme que rondava os muros e telhados) e duas fêmeas brancas e cinzas (filhas do Arrepio, gato dos vizinhos). Outra curiosidade: uma mesma ninhada pode ter inúmeros pais diferentes, dependo da “promiscuidade” da mãe gata.

Amei ter uma ninhada em casa, e eu e meus irmãos curtíamos muito os 3 filhotes. Uma das fêmeas foi para um amigo do meu pai no interior, e acabamos ficando com a Joy e o amarelão Nick. Este, o maior gato de todos. Se ele não tivesse sido castrado, seria um tigre. Ficou então bem gordo, e acho que na sua fase áurea pesou uns bons 8 ou 9 quilos. Boa praça, sempre se deu bem com todos outros gatos que passaram pela casa, e é o mais velho ainda vivo, completando 16 anos em poucos meses mais.

Joy era minha xodó, não sei porque eu tinha tanto apego por ela. Pesarosamente, antes de completar um ano de idade, ela se foi. Resultou  na morte mais sentida para mim, por ter sido proposital também. Algum(a) infeliz das redondezas (que nós sabemos com 99% de certeza quem foi) colocou veneno, provavelmente chumbinho, para pegar a gataria. Não matou só a Joy e o pai dela Arrepio, como também uma sheep dog maravilhosa, a Cindy, que morava duas casas acima de nós. Foi um grande escândalo na rua, e muita infelicidade para todos que perderam seus pets.

Passaram-se 3 anos tranquilos, com Nugget, Nanny e Nick em casa. Curiosamente, coincidência ou não, só sobreviveram os gatos que os nomes começavam com a letra N. Daí, não foi nenhuma surpresa quando, ao beber com amigos num posto de gasolina Select durante uma noite, uma Nina cruzou meu caminho. Quando a vi, já sabia o nome. Preta e branca, uma vaquinha, toda pequena e fofa, Nina era o nome perfeito. Aproveitando que o resto da família estava viajando, levei a para casa. Pelo menos teria tempo de preparar o terreno para a chegada do quarto elemento. Mal sabia que eles, ao voltarem do Guarujá, trariam outro gato, um pretinho todo fofo também. De repente ninguém acreditava quando nos vimos no terraço de casa naquela tarde de domingo, com dois filhotes novos! Não eram mais 3 gatos, eram 5!

Chuck, o gato do litoral sul, e Nina se tornaram inseparáveis, correndo e brincando pela casa, pra cima e pra baixo. Chuck dava surras homéricas na Nina, que era menorzinha. Logo depois dormiam abraçados no sofá. Ela cresceu muito esperta por causa disso. Numa noite fria, eu andava pela rua com alguns amigos, indo da casa de um para o outro. Ao passar na frente da minha própria casa, Chuck estava sobre a caixa de luz, e me olhava fixamente com aqueles olhos amarelos. Nos olhamos bem, eu falei “Chuckiiiiii” como sempre dizia, sorri e segui adiante. Minutos depois, escutei um som horrível, e corri rua abaixo até a minha casa novamente. Chuck havia sido atropelado. Morte instantânea. O FDP que o atropelou nem parou. Mas eu aprendi uma coisa com esses acidentes, que na quase totalidade dos casos, a culpa é do gato. Eles saem na rua sem noção alguma do perigo, nas suas correrias noturnas, as vezes correndo atrás de algum inseto, e de repente estão sob as rodas, sem que o motorista nada possa fazer. Muito triste, mas de certa forma eu já estava calejada, além de que inexplicavelmente nunca me apeguei tão intensamente a ele. Só mais uma vez na vida iria me arrasar tão profundamente como com o Teddy e a Joy.

Mais 3 anos se passaram com Nugget, Nanny, Nick e Nina, e a profecia do N continuando. Em junho de 2001, eu ia ao Pão de Açúcar comprar ingredientes para um fondue que faríamos na casa de uma amiga. No meio da avenida, um vulto preto cruza a minha frente. Parei na primeira vaga que avistei, e chamei pelo bichano. Fiquei horrorizada com o que vi: um gato ainda filhote, inteiro preto e magro de dar dó, com uma das orelhas cortadas, falhas no pelo, e manco de uma pata traseira. Primeira vez que encontrei uma vítima assim tão descarada da maldade humana. Coloquei o bichano dentro do carro, e ele ficou pacientemente me esperando deitado entre os pedais, enquanto eu fazia as compras. Foi batizado Costelinha, por suas condições óbvias. Hoje, aos 9 anos, está longe de ser um gato normal, mesmo castrado ele é esquálido, e tem um comportamento bem peculiar. Ataca enquanto recebe carinho, arranha e morde de alegria, é bem maluquinho. Mas para quem conhece, é um gato muito especial. Do dia que eu o peguei, ficou a paixão por entrar em automóveis. Não foram poucas as vezes que meu irmão teve que voltar pra casa pra devolver o Costelinha, que havia ido junto trabalhar com ele. Não pode ver uma janela de carro aberta que salta dentro. Dorme sempre com meu outro irmão, e tem que ser ao lado da cabeça, não pode ser em outra parte da cama. Esperto que só ele, faz uma coisa incrível: xixi na privada. Só acredita quem vê, e é tão surpreendente, ele se senta no vaso e faz o que precisa. Aprendeu sozinho!

Meados de 2001, logo após a chegada do Costelas, Nanã começou a emagrecer. De um gato roliço e fofo, ele ficou pelancudo e ossudo. Um exame de sangue mostrou que ele estava com AIDS felina (não-contagiante para humanos). Continuava dengoso como sempre, e eu me lembro de passar horas com ele no colo, deitado nos meus ombros. Seu nariz tinha feridas profundas, que pareciam doer muito, mas ele nunca deixou de ronronar por isso. Era um gato único. Em outubro, parou de comer. Só ficava deitado, na minha cama. No dia do meu aniversário de 21 anos, poucos dias antes dele completar 10 anos de vida, decidimos que era hora de terminar aquele sofrimento. O veterinário veio em casa, e quem ficou com ele na hora da injeção letal foi meu irmão. Eu e minha mãe ficamos na escada, chorando. Me lembro até hoje do grito agudo e sentido que ele soltou, e até hoje não entendo, porque dizem que a eutanásia não doi. Não sei se foi um grito de despedida, se foi uma forma dele dizer que não queria nos deixar. Isso vai ficar comigo pra sempre, e cada vez mais tenho as minhas dúvidas se isso foi a decisão certa ou se deveríamos ter esperado o descanso dele chegar de forma natural. Depois do Nanã, nunca mais sofri dessa forma por um gato. Ele foi tão especial que duvido que jamais eu sinta por outro animal o que senti por ele. Ele é o único gato que eu lembro em detalhes, e se quiser posso até sentir ele no meu colo. Tinha a barriga branca, e linhas amarelo-escuras na cabeça, que pareciam pequenos rastafáris. Nanã foi enterrado no terreno, ao lado do Teddy. Foi nossa primeira N perda.

Uma noite, começamos a escutar miados em casa. Alguém havia abandonado um filhote na garagem! Minha mãe ficou super brava, disse que isso é o que acontece quando as pessoas percebem que alguém já tem muitos gatos, e começam a abandonar lá. Era um filhote fofo, branco com manchas acinzentadas, e a pedidos de um ex namorado, o chamei de Pippo. Poucas semanas depois no veterinário descobrimos que não era o Pippo… e sim a Pipa. Era uma gatinha muito linda, adorava correr atrás de bolinhas de papel, e a minha mãe gostava muito dela, a despeito de toda a comoção quando ela chegou. Foi um arraso para todo mundo quando ela desapareceu, sem deixar vestígio. Tempos depois, fui saber que  um amigo de um amigo costumava passear pelas madrugadas com seu bull terrier solto, e que ele tinha como hábito pegar gatos como petisco. Depois simplesmente o dono pegava o cadáver do felino e jogava pelo muro do condomínio. Juntando as partes, concluí com absoluta cerrteza que a Pipa foi uma das vítimas do cão. Mais uma vítima da babaquice humana.

Passamos mais uns 3 anos sem gatos novos, só com a Nanny, Nick, Nina e Custa. Eu já estava sentindo saudades de um filhotinho correndo pela casa. No meu último ano de faculdade, fiquei sabendo de um abrigo/site que hoje é super famoso, mas na época estava só começando (que a minha mãe não leia isso, para todos os efeitos eu encontrei o Crocat miserável na rua). Me apaixonei por um gatinho pequeno, com curiosa cor de chocolate que tinha lá para adoção. Foi dessa forma que um gato caolho entrou na minha vida. Crocat é o nome dele. Uma das pupilas dele não contrai, e ao sol ele fica sempre com um dos olhos fechados. Hoje o pelo é preto e muito macio, e ele, por ter chegado em casa quando já tínhamos os dois labradores, acha que é um cachorro. Dorme com eles, corre atrás de bolinhas no quintal e pede comida à mesa. Aliás é um chato nisso, todo almoço quer o seu bocado, e arranha pernas, braços e roupas para ganhar um pedaço de peixe. Ele é um exímio caçador, e mata passarinhos, pombas, lagartixas e qualquer outro animal que estiver ao seu alcance.

Nossa, a história está longa, nunca imaginei que tinham sido tantos gatos! E calma que ainda falta mais… Quando o Croc ainda era filhote, minha prima apareceu em casa com 3 filhotes numa caixa de papelão, eu me apaixonei por um que era cor de flocos. Branco com muitas pintas pretas, era como um dálmata. Mas nem insisti para ficar com ele, pois com 5 gatos já sabia que seria impossível. Mas na noite seguinte, ao voltar do trabalho, o Pandinha estava lá! Minha mãe havia decidido ficar com ele! Croc e Panda tornaram-se inseparáveis também, onde um estava o outro acompanhava. Pandinha durou menos de 2 anos com a gente. Eu estava já bem grávida da Lolo quando ele foi encontrado morto no jardim. Simplesmente apagado, podia-se dizer que estava dormindo. Nenhum trauma aparente, nada de machucados. Estava morto, sem explicações. Foi enterrado no mesmo terreno ao lado de casa, praticamente um “Pet Sematary” a essa altura.

Um ano depois, no mesmo canteiro onde Pandinha foi encontrado morto, perambulava uma filhote escaminha. Toda rajada em amarelo e preto, e manquitola de uma pata, era filhote de uma gata de rua. Arredia que ela só, foi preciso o jardineiro capturá-la para que a gente pudesse cuidar dela. Tornou-se uma lady, a Chanel. Linda como só ela, gorda e fofa, adora um sofá, e gosta mais ou menos das pessoas. Também tem seus ataques repentinos, e junto com o Custa, são a dupla imprevisível do “gatil”. Você até pode ir fazer carinho, mas se não fizer do jeito certo (tem partes onde eles odeiam ser tocados, como a barriga) vai tomar um belo de um arranhão de tirar sangue. Mas a gente já está acostumado! Até a Lolo já sabe que nesses gatos não ela não pode tocar.

Em março deste ano, a Nanny se foi, aos 16 anos. Chorei muito, desde o Nugget eu não tinha uma perda tão sentida, afinal eu criei ela desde que nasceu. Ela foi ficando fraca, velhinha, só dormia o dia todo. A gente até brincava que um dia ela morreria no sofá e a gente só perceberia quando começasse a cheirar mal… Humor negro, mas a verdade é que ela morreu numa poltrona, confortável, quentinha, e todos nós nos despedimos dela. Foi na hora que ela quis, durante uma madrugada de domingo. Depois de presenciar essa falecimento tranquilo, mais do que nunca eu me arrependi de ter sacrificado o Nanã. Ele podia muito bem ter ido assim também. Enterramos a Nanny no terreno, com direito a funeral e flores trazidas pela Lorena. A noite, quando fomos dormir, a Lo me perguntou: mamãe, a Nanny vai ficar lá fora a noite toda??

Na casa da minha mãe tem hoje o Nick (15 anos), a Nina (13), o Costela (9), o Crocat (6) e a Chanel (3). Pelo que voces podem perceber, a tradição do N agora se espalhou ao C também. Eu tenho o Caillou, que tem 2 anos, na minha casa. É meu gato e da Lorena.  Um sonho branco. Paciente como só ele, deixa que ela o carregue no colo, enrole nas cobertas, outro dia ela até o jogou dentro da água.  Ele me espera enquando eu tomo banho, adora beber água quente da banheira e só come se a ração for recém colocada no pote. Já tivemos a Laninha também, uma pretinha que a minha prima encontrou no acostamento da Marginal Pinheiros. Ela fugiu de casa uma vez, e depois de muito procurar, a encontramos quase 2 semanas depois. Na segunda vez, ela não voltou mais. Era uma legítima gata de rua, e acho que quis continuar assim. O Caillou a adorava. Mas hoje ele já se acostumou a ser filho único em casa, e na rua tem muitos amigos, com quem ele perambula todas as madrugadas. Amo muito meu branquinho, e adoro a personalidade dele. Se alguém toca a campainha de casa, ele rosna como um cachorro. E corre direto à porta para ver quem é.

E esses foram meus gatos. Cada um está em mim. Sei que não fiz por eles tudo que deveria, mas fiz o melhor que pude. E nunca um amor será tão puro, tão intenso e tão recompensador quando de um gato. Obrigada, meus gatinhos.

“De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.”

Mark Twain

Sítio Vagalume

Quem conhece sabe. Siga as bolinhas vermelhas e brancas.

É um cantinho que está na família há 3 gerações. Fica nos arredores de SP. Para chegar lá, anda-se por asfalto, cruza-se pequenas cidades, e logo depois percorre-se uma sinuosa estradinha de terra. Seu portão é cercado por uma bela primavera rosa, e uma placa de madeira com o nome Vagalume entalhado, exatamente como toda entrada de sítio deve ser.

Tem lindas, enormes e incontáveis araucárias, e um lago que nos dias ensolarados reflete a cor verde da natureza, de uma forma que eu nunca vi igual. Tem uma casa no alto do morro, uma churrasqueira, quadra de tênis e dois campos: um de futebol e outro de bocha. Tem o gramado na frente da casa, onde seria o projeto da piscina que nunca existiu. Onde eu e o Thomas, quando éramos pequenos, tomávamos banho em caixas de isopor. Tem pinhão pelo chão, tem milharal e belas palmeiras. O por do sol é único, e o entardecer lá possui algo de místico. As Páscoas passadas no sítio sempre foram inesquecíveis. Tem as velhas balanças do vovô, e os velhos bunkers de areia. Ficaram na história os jogos de golf, e na memória os pedidos de afastem-se, quando a jogada da vez era mandar a bolinha sobre a casa.  Tem a floresta dos eucaliptos, onde já houve mais de uma casinha na árvore.  Tem a trilha, que alguns chamam do Amor, e outros conhecem por Trilha do Bambu. Tem a fogueira, o círculo de pedras. Tem a casinha de hóspedes, com seus mistérios e insetos variados, e também os pessegueiros. Na minha infância, logo que os primeiros pêssegos surgiam, eram envoltos em papel branco, para não virarem alimento de passarinho.

Tem equinos e bovinos, e dois pastos imensos, um de cada lado da represa. Num deles foi gravado pelo Fantástico o programa histórico do Pedro fazendo ski na grama, fita que até hoje ninguém conseguiu recuperar nem assistir, e que muitas pessoas da terceira geração duvidam que exista. Tem a casinha dos caseiros, que às vezes é mais disputada como dormitório do que a casa de cima. Ficaram na minha cabeça alguns cavalos: Chopp foi o meu primeiro. Aprendi a montar com a Ysatis, Yanna e Yaffa. Lindas éguas. Tem duas cocheiras, e um galinheiro. Todo mundo se lembra da época dos gansos selvagens. Eram bons de guarda. Hoje são 80 cachorros. Não são 8, são 80 mesmo, com o zero. Já existiram Pastores Alemães e São Bernardos, mas hoje são viralatinhas de todas as variedades . Eu tinha os meus: Juju, Bolota, Baby, Zé, Caipirinha, Coca, Tina. Cada um com a sua história, que se mescla com a minha. Os cães são responsáveis pelo comitê de boas-vindas ao sítio, todos querem cheirar os pés dos recém chegados e ganhar um afago. A não ser que seja noite, e você um estranho, aí provavelmente a recepção não será tão calorosa, mas sim muito mais intensa e próxima. Do seu pescoço.

Nos últimos anos o sítio ganhou algumas novidades: uma tirolesa, sobre a lagoa, onde todos já se dependuraram, ou então caíram. Sempre existe o boato de qualquer dia desses vão soltar um cachorro lá de cima. Há uma rampa de madeirite, que já foi utilizada por bikes, skates e pessoas, e o destino é sempre o mesmo: o fundo enlameado da represa. Tem uma cama elástica gigante, e todos se lembram do aviso: não pule se estiver chovendo. Ela é ótima para saltos e cambalhotas, mas seu uso mais freqüente é como “lounge” da galera tomando cerveja ou conversando.

Nós, filhos e netos, membros da segunda e terceira geração, freqüentamos sempre o sítio. Alguns mais, outros menos. Tem uma pessoa da primeira geração que estará lá eternamente. E há quase quatro anos chegou a primeira pessoa da quarta geração Vagalume: a Lorena. Eu espero que ela possa ter tantas lembranças boas quanto eu tenho desse lugar, e que ela nunca se esqueça do conselho que todos sempre ouviram (e que a Jill por uma vez esqueceu, justamente quando não deveria): nunca vista sua galocha sem antes batê-la no chão, para afugentar possíveis visitantes aracnídeos!

PS. Escrevi esse texto porque hoje me bateu uma nostalgia. Ainda bem que semana que vem estaremos todos lá para matar as saudades!