Não são os 9 minutos…

untitled

Hoje cheguei as 12:09 para pegar o Nico na escola. Abracei-o, e logo atrás a professora veio e me entregou um papel, dando good bye e fechando a porta. Abri e li. No papel, constava um aviso, um warning, sobre eu estar atrasada para buscar meu filho. Desta vez seria tolerado, mas da próxima seria enviada uma notificação com cobrança. Sim, vocês leram bem, eu não estava nem 10 minutos atrasada. Não foi meia hora, nem quinze minutos, foram 9 minutos! E o papel me alertava, por escrito, que da próxima vez seriam cobrados 1 dólar por cada minuto que eu me atrasasse, e a partir da segunda vez, 2 dólares por minuto… (!)

Depois de tanto elogiar a escola da Lolo, sabia que precisava contar do Nico. No caso dele, nada foi tão fácil. Estava esperando ter uma posição mais, digamos assim, consistente sobre gostar ou não da escola, antes de postar aqui no blog.

É uma escola particular, adepta à metodologia Montessoriana. Para quem não conhece, Montessori é um método educacional desenvolvido por Maria Montessori em meados de 1900, que ficou conhecido por sua eficiência no desenvolvimento prático da criança. A metodologia prioriza a individualidade, a contribuição social e o ser como parte de um todo. Os princípios são fundamentados nas atividades com objetos e brinquedos específicos, com foco no crescimento e na liberdade de cada um. Segundo Maria Montessori, o conhecimento está dentro de nós. Sua teoria é uma das mais conhecidas pelo mundo afora, e busca respeitar o tempo de cada criança em aprender e realizar tarefas. Tanto que as salas de aula tem crianças de idades variadas, e cada um segue seu ritmo.

Até aí ótimo, eu estudei em escola Montessoriana como criança também, e o respeito a cada indivíduo nos faz crescer de forma independente e inteligente. Mas hoje confesso que estou um pouco intrigada com a Montessori daqui. E a cobrança por minuto não foi o primeiro susto com a escola. A falta de flexibilidade esteve presente desde o começo. Logo no inicio das aulas, Nico estava muito assustado e estranhando tudo. Nem no primeiro dia permitiram que eu entrasse na sala com ele. Tem um aviso bem grande colado na porta: despeçam-se de seus filhos antes. Tipo, deixem as crianças sem olhar para trás. Nico chorou muito, não entendendo essa brusca separação. Muitas vezes tive que deixa-lo à força enquanto a professora o puxava para dentro da sala. As duas primeiras semanas foram tão difíceis para ele quanto para mim. Ele veio de uma escola brasileira onde as “tias” pegam no colo, beijam, ajudam, dão carinho e força para que os pequenos enfrentem o dia. Aqui a postura americana é extremamente fria, não há contato físico entre professoras e alunos. Nem o mínimo, nem um aperto de mão! E além disso, ele não entendia uma única palavra de inglês. Elas dizem good morning, sentam a criança numa mesa ou no tapetinho no chão, colocam a atividade na frente deles e se há choro, como no caso do Nico nos primeiros dias, esperam até que passe por conta própria. Eu fiquei chocada no inicio, e pensei seriamente se continuaria com isso.

Nico hoje em dia está adaptado, não chora mais, porém percebo claramente que ele não ama a escola como gostava da sua no Brasil, ou como a Lolo adora a Adams. Ele apenas se acostumou. E não sei se isso é bom ou ruim. É bom se acostumar a algo que não te faz feliz?? Ele vai à escola, mas ninguém lá se preocupa realmente como ele se SENTE. Vejo nesse método Montessori muita atenção ao desenvolvimento, à postura, mas quanto aos sentimentos da criança, esses são metodicamente deixados de lado.

Ao fim da primeira semana de aula, veio um recado para mim e para o Fernando. Precisávamos ensinar o Nico a colocar as roupas de neve, pois todas as crianças da turma (toddlers, 3 a 6 anos) já se vestiam sozinhas para ir brincar lá fora. E que as professoras não podem (ou não querem?) ajudar diariamente ele a se vestir. Por vestir a roupa de neve, entende-se colocar um macacão com suspensório, gorro, luvas e um casaco com zíper. Além de uma bota com fecho. Tudo por cima da roupa de uso diário. Nico não tem nem 3 anos e meio, é o caçula da classe, cresceu num país onde o que ele vestia se resumia a camisetas e crocs, e agora as professoras vêm na primeira semana de aula exigir que ele coloque sozinho toda a vestimenta de inverno? Segundo balde de água fria.

Como um método que alega ser precursor da individualidade da criança pode querer que o Nico, recém chegado a um país tão diferente, entre na “linha de montagem” exigida por eles? Hoje foi a terceira “cutucada”, e justamente por isso não renovamos ainda a matricula para o ano letivo que se inicia em setembro. Ele está na lista de espera para a Preschool da Adams, a mesma da Lolo. Menos teoria, mais calor humano. Porém como ele nasceu em novembro e só completa 4 anos após o inicio das aulas, ainda não sabemos se conseguirá vaga. Torcemos muito para que ele consiga. Porque para uma escola que alega ser a melhor de Midland, a Montessori está a anos luz de ter um cuidado individualizado com cada criança. Pode ser a melhor em metodologia, em estrutura e materiais, mas para meu filho e para mim, deixou a desejar até agora.

Minha enteada Fernanda estudou lá há dez anos, e coincidentemente, a professora era a mesma do Nicolas. Na época dela a escola era menor, as professoras mais jovens, e o Fernando não tem reclamação nenhuma sobre o tempo em que ela frequentou as aulas. Pode ser também que nós estejamos muito habituados à receptividade brasileira, ao carinho das professoras, e ao chegar aqui o abismo era maior que o esperado. Mas mesmo assim, algo para mim não encaixou direito. Nico agora está mais habituado, ele mesmo diz: “viu mamãe, hoje eu não chorei!” e me parte o coração cada vez que escuto isso. E vamos aguardando a resposta do Preschool.

Como prós da escola, para não falar apenas do lado negativo, eles têm uma parte muito focada em música e Nico já canta lindamente algumas english songs for kids. Também na Montessori as crianças fazem aulas extras de espanhol e mandarim, além do incentivo à leitura, tanto que Nico agora quer histórias todas as noites antes de dormir. A alimentação é nutritiva e variada, ao contrário das outras escolas. O legal é que, ao invés dos pais prepararem diariamente o lanche dos filhos, cada semana um pai ou mãe é responsável por trazer os snacks para a classe toda. E seguindo uma sugestão de cardápio saudável, com muitas frutas, leguminhos e biscoitos. Para beber, só leite ou água. A escola também conta com uma área externa bacana, com dois parquinhos, e para os dias mais frios tem uma gym class, toda adaptada para as crianças, com cubos e retângulos de espuma, onde eles constroem, montam e desmontam. Também tem salas com observatório para os pais, onde podemos acompanhar sem ser vistos algumas etapas das aulas. Em estrutura, nota 10.

Todo essa comparação de lado positivo versus lado negativo é o perfeito exemplo de como o supostamente melhor nem sempre se encaixa naquilo que buscamos para nós. Principalmente em se tratando de uma criança. Por isso termino esse post como uma frase da Maria Montessori, que capta a essência do que procuro para o Nico.

MARA-M~1

Do Sul ao Norte: um gato pelas Américas

Quando aquele carro branco estacionou na frente da minha casa, já imaginei que seria problema pro meu lado. Feeling felino, sabe? Quando aquele moço simpático, irmão da minha dona, começou a me chamar com uma voz muito boazinha, então eu tive certeza. Porém, muito sorrateiramente, eu me esgueirei pelos cantos da casa. Conheço meu lar como ninguém, e sabia exatamente onde ir.
#partiuesconderijosecreto

Entrei lá e comecei a me lamber tranquilamente, já pensando em tirar uma longa siesta até que aquele moçoilo fosse embora e a paz voltasse a reinar.
-Oi gatão! Te achei!
Caramba! Como assim? Só a minha dona sabe desse meu secret spot! Acho que deve ter a ver com esse objeto falante na mão dele, com certeza me dedurou! Ele veio exatamente até a bicama do quarto do pequeno dono. E me tirou de lá. Bom, vambora, deve ser outra picada nas minhas costas ou algo assim. Tomara que não seja aquele monte de água com sabão que jogam em mim. O irmão da minha dona me carregou e gentilmente me colocou numa habitação espaçosa. Não sei bem o que é. É bem maior do que a outra caixa que sempre me colocam. É nova. Lá dentro tem um cobertor que eu gosto muito, um pano bem fofo e água! Pra que isso, gente? Um bebedouro horroroso. Todo mundo insiste em que eu tome essa água limpa sem gosto, quando a única que condiz com meu paladar é a da piscina. E claro, a água quente da banheira da minha dona, que é meu chá da tarde.

A minha irmã mais nova, Mia, ja esta na habitação dela, igualzinha a minha. Ela nem liga. Entra em qualquer lugar e acha graça. Coisa de gente jovem sabe? Acha que tudo é uma festa.
Logo tiram um monte de fotos nossas com aquele mesmo objeto falante, e o moço do carro branco ergue a minha caixa. Tá bom pessoal, já deu, me soltem, tá um solzinho lindo e quero me espreguiçar na varanda e dormir. Mas não, eles parecem nem escutar o que eu falo! Carregam a minha habitação e a da Mia até o carro branco. Nos colocam lá e fecham a porta. Já vi tudo.
#partiupasseiochato

Um tempo depois, que me pareceu bem longo, chegamos num lugar muito movimentado. Cheio daquelas caixas moles que abrem, tipo onde minha dona coloca as roupas dela quando vai me abandonar por um tempo, sabe? E quando ela faz isso, eu faço questão de entrar e deitar e deixar vários pelos brancos como um aviso.
#podepartirmasvaipartircompelonaroupa

Lá no lugar grandioso nos colocam ao lado de caixas variadas, de todos os tipos e tamanhos, que chamam de CARGA e muita gente olha pra dentro da habitação. Alguns perguntam informações sobre mim, mas eu não falo com estranhos. Fico bem no fundo, não olho pra ninguém. Já a Mia faz festa para todos eles, e ela ainda consegue relaxar e dormir! Como assim? Eu não durmo de qualquer jeito, ou com pessoas à volta, essa balbúrdia toda nem pensar. Colam etiquetas na minha habitação, e chamam ela toda hora de caixa de transporte com CARGA VIVA.
Transporte… Que eu saiba existe carro e bicicleta. E só. Eu não gostaria que me colocassem numa dessas de duas rodas. Minha pequena dona uma vez tentou me levar na bicicleta dela, mas eu não gostei nada e saltei do cestinho no meio da rua. Muita ousadia.
Passa mais um tempo longo e então avisam algo de embarcar a CARGA VIVA. Embarcar pra onde, meu Deus?? Eu embarco? Barco? Não gosto de água! Tem outros dois gatos e um cachorro muito mal encarado, daqueles pequenos feios,  que não para de latir. Nos colocam todos num carrinho, que vai dirigindo por entre vários outros carros, e passando entre máquinas gigantescas, que são brancas e de outras cores, maiores que qualquer pássaro que já vi. Até maior do que o último presente que trouxe pra minha dona, que por sinal deu bastante trabalho pra caçar, e que no fim das contas ela jogou no lixo! Que desperdício. Humanos nunca vão entender o prazer de saborear uma boa caça. Mas eu continuo caçando. É um bom esporte e eu tenho que manter a forma.
Aliás já estou com fome. Mas nem sinal de comida. Aliás nem sinal de qualquer coisa. Nos colocaram num compartimento escuro DENTRO de um dos pássaros! Sei que a Mia está de um lado, e outra gata bem peluda está de outro. Ela é bem metida e não fala com a gente, mas tudo bem porque eu nem responderia mesmo. O que será isso afinal? Todos nós aqui? Fecham a porta do pássaro e por um tempo tudo fica calmo. Bom ao menos está tranquilo e quem sabe eu consiga relaxar e finalmente cochilar e… O QUE É ISSO, caramba está tudo vibrando e andando rápido, estou espremido no fundo da habitação e parece que uma força invisível me empurra lá pra atrás, nossa cada vez mais rápido e de repente um barulhão e estamos flutuando. Meu corpo fica estranho e meu ouvido também! Parece que me empurram, como quando meu pequeno dono me colocou naquela caixa de papelão e começou a girar.
Então é assim que é dentro da barriga de um pássaro? Já abri e vi vários, mas nunca imaginei estar realmente dentro! Deve ser uma vingança pela quase uma centena de passarinhos que cacei ao longo dos meus quase 7 anos de vida.
Eu só sei que não gosto nada disso. Está ficando mais frio, a Mia se enroscou na coberta e dormiu. A gata peluda está alerta e com uma patinha na janela da habitação, e o cachorro mordendo a casa dele. Eu quero ir embora, já deu, não gosto mais dessa brincadeira de passeio. Quero dormir no meu sofá sem barulho e sem esses sacolejos. Quero meu passeio de madrugada na rua deserta. Quando ver a minha dona vou dizer que isso não é forma de me tratar, e ela vai brigar com todas essas pessoas que me colocaram nessa situação. Já fui a vários lugares (mudei de casa 6 vezes, sou muito viajado) mas de longe esse é o mais aborrecido.
#partiureclamacao

Não sei quanto tempo passou. Foi muito mesmo. Tenho fome e sede, mas me recuso a tomar essa água de garrafa. Quero meu leite desnatado. Exijo. De novo começa a sacolejar, barulhos, e um ruído alto e seco. Rolo pro outro lado da habitação agora! Mia mia assustada, e nossas casas tremem. O mala do cachorro late mais alto, e então todos os movimentos e ruídos diminuem, até parar por um segundo. E abrem a barriga do pássaro. E então entra aquele ar… Esqueçam todo frio que passei na vida. As noites que fiquei fora de casa no inverno. Os passeios nas manhãs que tinha geada. Aquele ar é a coisa mais paralisante que já senti. Entrou nos meus ossos! Aquilo sim era frio. E os cheiros? Eu não reconhecia mais nada.
#frozencat

Nos levaram então graças aos céus a uma sala quentinha. Vários espaços, gaiolas e uma tia médica. Então era veterinario mesmo, eu sabia! Mas precisava ser tão longe? Eu até gostava daquele doutor Angelo que me atendia antes.
A doutora me tira da caixa, estou desconfiado, mas ela fala manso e me acalma. E fala enrolado, nossa, nunca vi alguém usar palavras tão diferentes. E me chama de Keilou! Que porcaria de nome é esse? Não curti. Ela me olha, me aperta, me faz um carinho na cabeça e diz good boy. Sei lá o que significa. E me tranca de volta na caixa.
Depois é a vez da Mia e dos outros. Nos colocam comida, mas por algum motivo perdi toda aquela fome. Não gosto de comer nessa baderna. Passa o tempo, e um a um os pets vão sendo levados da sala. Só resta eu e a Mia. Porque tudo demora mais pra nós?? Cadê a nossa dona? Até o irmão dela eu aceito, pode vir nos buscar!
Colocam mais papéis e etiquetas na nossa caixa e finalmente vem até nós aqueles homens de uniforme de novo. Já estou feliz em ver o sol e quem sabe vou até me espreguiçar e… Ah não! Não!! Outro pássaro não! Prometo, juro, jamais caçarei outro ser voante, mas por favor, não me deixe passar outra noite na barriga de uma ave!
#partiuoração

Ninguém me ouviu. Escuridão, portas fechadas e barulhos de novo. Dessa vez só eu e a Mia. Até pra ela que é festeira já perdeu a graça. Não queremos mais. Definitivamente não gosto mais de passeio.

Pelo menos dessa vez foi rápido. Mal passamos medo e já nos tiraram da barriga do pássaro. Acho que foi minha promessa. Mas vocês sabem, morcego não conta como ave né?
Já é fim de tarde, e o carro nos leva a outro depósito. Outras pessoas. Mais frio. Já estou fraco de fome. Acho que o cansaço vai me vencer. Não quero dormir, estou sentido e entristecido. Por que fizeram isso comigo?
Escuto mais vozes. Estou cansado, mas algo me alerta. Vozes… Sons agudos e Caillou. Perai. Esse é meu nome. Mas como sabem? E falam parecido com os pequenos donos, mas eles estão tão longe e Caillouuuuuuuuuuuuu!! Uma cara linda se cola na grade da minha habitação!! É meu pequeno dono! Como eles vieram parar aqui!! Será que o pássaro gigante pegou a familia toda? Minha pequena dona quase chora! Ela está abraçada na casa da Mia! Como é bom ver vocês! E minha dona amada! Só volto a ronronar dentro do carro, no colo dela, o lugar onde mais gosto de estar no mundo.
Que bom que nos acharam! Que bom que vamos voltar pra nossa casinha! Certeza que o frio vai passar e ainda hoje vou dar um rolê e caçar umas baratas e… peraí! Que casa é essa????
#partiucasanova

De onde vem a inspiração?

Escrever, talvez mais do que qualquer outra arte, é a que mais exige inspiração. Na pintura ou na escultura ela é necessária, porém o talento prevalece. Nas artes teatrais ela ajuda, mas a vocação e a sensibilidade predominam. Até na música ela é importante, mas a vivência e a percepção sonora é que são essenciais. Agora para sacar letras e frases combinadas, para conseguir compor um texto que não seja maçante nem racional demais, a inspiração é a presença mais importante.  É a noiva do nosso casamento de letras. O texto deve fluir, e não ser intimado a sair. Essa é a sutil diferença entre um bom texto e um texto correto. Sem tempero, mediano. Texto aquele que nunca deveria ter sido escrito.

É necessário aprender a ler também, porque quem não lê não sabe escrever. Fato. Ler de verdade, devorar livros, ter paixão por isso, se perder em histórias que não são as suas. Viver outras vidas. Porque pelo que se saiba, essa é a única forma de se viver infinitas vezes. Lendo. Porque colocar outras realidades para dentro é como causar uma tempestade de idéias, já que elas, mais hora menos hora, vão ter que chover.

Porém a inspiração não tem hora para chegar. Não é possível programá-la, nem segurá-la por perto. Ela tem vida própria. E vive dentro de nós, como um parasita. Pode nos atormentar por meses com a sua ausência, ou melhor, com a sua não aparição. Já que sabemos que ela está lá, mas não tem o menor interesse em dar as caras. Assim como ela pode surgir, por exemplo, linda e poderosa, no momento em que você desperta, bem cedo de manhã. Assim como ela aparece, reluzente, na hora em que você menos espera. Para quem escreve, uma dica valiosa: nunca subestime esses momentos. Escreva no celular, na mão, até na parede, mas não deixe uma boa idéia escapar. Você pode até achar que vai, mas acredite, não vai de forma alguma relembrar esse insight horas ou até mesmo poucos minutos depois.

É possível que você aprenda toda a gramática. É provável que você saiba sem erros conjugar todos os verbos, e pontuar com perfeição um parágrafo. Mas a inspiração, ninguém pode te ensinar como adquirir. Ninguém pode colocá-la dentro de você. Ela é inacessível de quase todas as formas. Entretanto, a inspiração pode sim ser presenteada. Pessoas que surgem na sua vida, aleatoriamente, trazendo cores infinitas e alegrias não imaginadas, que enfeitam de arco íris um dia cinza. Elas sim te enviam o presente inspirador. Um gato que surge no horizonte, uma revoada de maritacas. Pessoas num prédio, ausência de colorido numa nuvem. São as inspirações, disfarçadas de cotidiano. É um grande amor, camuflado em visível satisfação.

Enfim, a inspiração pode ser presenteada, até estimulada, porém quem a conhece sabe que não adianta invocar sua presença, e nenhum prazo, dinheiro ou trabalho é capaz de fazê-la colaborar quando mais precisamos. Ela quer amor. Ela quer sentir a sua felicidade, para daí colocar as mangas de fora e suavemente mostrar a que veio. Mas a ela apenas interessa escrever sobre o objeto de desejo. Seja o que for ele. Muitas vezes existe um assunto pré determinado sobre o qual queremos escrever, mas não adianta, as letras se embaralham de tal forma que compõe apenas aquele quadro que a inspiração tanto quer ver. Que a gente quer, bem lá no fundo, observar também.

Meses de dedicação, e a tela continua em branco. Madrugadas furiosas, teclando sem parar. São extremos a que nós, simples escritores, pensadores à mercê de uma caprichosa dama, temos que aprender a conviver. Um livro inteiro pode sair em duas semanas de trabalho ininterrupto, da mesma forma como uma única coluna pode nos levar ao desespero ao cabo de um mês sem boas idéias. Amar sempre, o segredo para atrair a inspiração. Amar a tudo, a todos, a felicidade e a tristeza também. Porque a inspiração não é atraída apenas por sentimentos supostamente bonitos, ela vem também nos momentos de mágoa e agonia. Ela procura quem sente. Ela desabrocha dentro de quem não tem medo do mundo que existe dentro de si.

Andy e Lyndie

Ela foi Lyndie Dupuis antes de se tornar Lyndie Irons.  Nasceu no sul da Califórnia (San Diego), onde ela e sua irmã Aimee cresceram entre as praias e ondas. Lyndie conheceu o surfista de olhos azuis Andy quando estava fazendo um trabalho como modelo (profissão que iniciou aos 15 anos de idade) para a Billabong, patrocinadora de Andy Irons na época. Estavam em Tavarua, Fiji, e embora ambos estivessem em um relacionamento no momento, se reconectaram algum tempo depois em Encinitas, San Diego, onde ela morava. Logo estavam ambos solteiros, e começaram a namorar oficialmente em 24 de junho de 2001, cerca de nove anos atrás, quando Andy começava a ascender em sua carreira.

Lyndie se juntou a ele em todas as competições de surfe ao redor do mundo. Logo ela se tornou não apenas sua companheira de viagem, mas também sua empresária, e com essa nova posição, ela cuidou de cada detalhe como entrevistas, e-mails, planos de viagem e tudo o mais que permitisse a ele focar-se apenas no surf, dando créditos para seguir em seu sucesso ascendente.

“Ela tem muito a ver com o meu sucesso. Sem ela, nada na minha vida iria funcionar. Eu cairia fora dos trilhos”, diz Andy.

Eles ficaram noivos quatro anos mais tarde, numa praia em Fiji. Durante uma caminhada, percorreram um belo trecho de coqueiral apenas para encontrar “quer casar comigo” escrito na areia, seguido por Andy oficialmente ficando sobre os joelhos e sorrindo para ela. Foi algo que Lyndie descreveu como muito romântico e perfeito, embora primeiramente a proposta incluísse um divertido anel de diamante falso. Mas logo depois foi comprado o anel real, escolhido por ela.

Eles se casaram em 25 de novembro de 2007 em Anini Beach, perto de Hanalei Bay, em Princeville, Kauai. Os convites foram concebidos por Lyndie, e enviados sem o endereço da cerimônia, que foi divulgado apenas às vésperas da ocasião, para manter a privacidade. Ela teve a ajuda de suas amigas e de um famoso wedding planner, e criou o casamento na praia que qualquer garota sonharia. Andy usava Calvin Klein, enquanto Lyndie usava um vestido de seda branco deslumbrante. A cerimônia foi oficializada por Calvin Ho (ministro havaiano), diante de poucos e bons convidados e um entardecer lindíssimo. A atmosfera era magnífica, repleta das flores havaianas mais exóticas, bela música e gastronomia requintada. O noivo honrou a tradição do Havaí de romper uma casca de coco para simbolizar um novo começo, e ao final foram oferecidos como lembrança à todos os convidados pequenas estátuas em miniatura de Buda, vindas de Bali, em um sinal de gratidão.

Ambos queriam esperar alguns anos depois de se casar para começar a ter filhos, o que foi simplesmente perfeito para Lyndie, que em parceria com designers locais havaianos e sua querida amiga Naomi Newirth criou a sua prórpia marca Acacia. É uma linha de biquínis e maiôs, com modelagem menor, moderna para os padrões americanos, que agradou em cheio à mulheres e meninas, e agora conta com lojas em todo o Havaí, Califórnia e Nova Jersey, com promessas de expandir ainda mais o negócio.

Lyndie descobriu que estava grávida no início deste ano. Seu bebê Axel Jason Irons vai nascer em cerca de 5 a 6 semanas, agora no mês de dezembro. Infelizmente Andy não vai estar lá.  A tragédia atingiu a vida Lyndie nesta semana, em 2 de novembro, quando no início da manhã seu marido foi encontrado morto em um quarto do hotel Grand Hyatt, em Dallas, perto do aeroporto. Aparentemente ele estava se sentindo muito mal após deixar Portugal, alguns dias antes de sua morte. Decidiu seguir viagem mesmo assim e cumprir seu calendário de provas, mas em Porto Rico Andy foi impedido de competir na etapa por estar doente. Examinado por um médico no país caribenho, o surfista foi orientado a ir para um hospital, entretanto preferiu voltar para casa. À meio caminho de volta ao Havaí, também não recebeu autorização para trocar de vôo em Dallas, após ter embarcado em Miami e ter passado mal na primeira parte da viagem. Irons, sozinho e sem assistência da companhia aérea ou de qualquer outra parte, acabou se hospedando em um hotel no próprio aeroporto. Durante a noite, ele havia tentado contatar seu médico no Havaí, sem sucesso, e pela manhã o próprio médico tentou retornar a ligação. Diante da negativa de resposta no quarto, os funcionários foram checar Andy. Nessa hora ele foi então encontrado morto, na cama. Tinha apenas 32 anos de idade.

Fica somente a admiração e a saudade de um surfista que marcou seu tempo e que deixou, além de sua criatividade nas grandes ondas do mundo, um filho que terá atrás de si todo o seu legado. E caberá a Lyndie suprir a falta e cuidar do melhor para a vida do pequeno Axel, personagem dessa bela história de amor que não teve um final feliz.

A Rifa

“Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado
e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu… “não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero…”.
Um idealista…Um verdadeiro sonhador…
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições,
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
“O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e se recusa a envelhecer”
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos,
e a ter a petulância de se aventurar como poeta…”

Texto erroneamente atribuído a Clarice Lispector, mas que na realidade é de autoria de Ricardo Labatt.

Porque o único coração que pode ser rifado é aquele que bate somente para cumprir sua função!