O lado não tão brilhante

USA

O verão aponta no horizonte, o sol brilha quase todos os dias e o verde está por toda parte aqui em Midland. Passamos o final de semana cuidando do jardim. Temos um quintal pequeno porém um terreno grande, que a família que morava anteriormente na casa manteve com muitas floreiras (que não brotam mais), hortas hoje mortas, pedras pequenas sem fim e arvores coníferas que não são minhas favoritas. Eu curto árvores grandes, adoro estar cercada de verde, mas não sufocada por mato. Queremos um gramado para as crianças correrem, e espaço para ter um jardim com a nossa cara. Além disso, do último inverno ficou uma “pequena” lembrança: uma composição de 4 pinheiros arriados pelo peso da neve, se inclinando pesadamente contra a varanda. Aproveitando que o espírito do jardineiro motivado baixou em mim, decidimos fazer por conta própria. Compramos uma serra manual e tosamos os pinheiros de mais de quatro metros de altura. Trabalho pesado. Porém agora enxergamos ao longe, avistamos a cerca e até a luminosidade da casa ficou melhor. Sobraram uns cotocos impossíveis de tirar, e para solucionar isso e mudar o restante, chamamos uma empresa de paisagismo e manutenção de jardim. Mas eles só tem tempo para executar o serviço daqui a 3 semanas, dizem. Não adianta insistir. Virão quando puderem. E os serviços não são nada em conta. No Brasil estamos acostumados com produtos caros e serviços baratos. Já aqui é o inverso. Os produtos em geral são quase de graça, mas tudo que envolve mão de obra custa os olhos da cara. Ajuda doméstica, jardinagem,  manutenção, consertos, limpeza, todos esses serviços demandam uma pequena fortuna. Você acaba adepto do do it yourself. No fundo somos todos capazes, porém a vida mimada no Brasil nos tira essa confiança de fazer com as próprias mãos. É questão de retomar as rédeas e começar você mesmo, quando é possível. No caso do nosso jardim cortamos o que deu, mas para tirar meia tonelada de pedras (e onde coloca-las??) e outras arvores com mais de 10 ou 12 metros de altura, não existe outra opção a não ser contratar mão de obra especializada.

Todo esse prenúncio de gastos e trabalhos com o jardim me inspiraram a escrever hoje sobre o lado não tão perfeito da vida americana. Tenho certeza que muita gente ficará feliz em saber que nem tudo são flores aqui, e já adianto: nada são flores em parte alguma. A felicidade que você tem ao longo da vida está apenas dentro de você, e em nenhum outro lugar.

Já falei um pouco da casa, mas primeiro quero contar sobre o aspecto não tão legal da vida escolar. Na escola não tem portaria, não tem pessoas verificando entrada e saída, não tem nenhum portão ou tipo de controle do movimento dos alunos. O sinal bate, e todos (do kindergarten até o 5th grade) saem correndo. Alguns entram nos carros dos pais que estão esperando em frente, outros pegam suas bicicletas e alguns simplesmente caminham até suas casas, que podem ser ao lado da escola ou alguns quarteirões adiante. Para mim é preocupante uma criança sair da escola com qualquer pessoa e ninguém conferir se é mesmo pai ou parente. Porém analisando por outro lado, isso dá às crianças uma responsabilidade muito maior. Elas aprendem a cuidar de si mesmas desde cedo. A escola se isenta de qualquer responsabilidade da porta para fora. É uma forma de agir muito contrastante com a segurança extrema que temos nas escolas brasileiras, claro que motivada pela (falta de) segurança em geral no país. No começo eu estranhei bastante, mas com o tempo aprendemos a orientar corretamente as crianças a não falar com estranhos, a ir direto para casa e aprender como se virar no trânsito. Os próprios alunos fazem um trabalho voluntário de safety patrol  nas ruas próximas, ajudando os outros alunos a atravessarem as avenidas e cruzamentos. É uma forma distinta de educar, ensinando como agir ao invés de confinar. Nos passeios e field trips da escola também não existe autorização nem nada. As professoras fazem uma contagem, seu filho simplesmente sobe no ônibus escolar amarelo e vai. E você fica rezando para que volte bem!🙂

O segundo porém: o playground do preschool fica literalmente a dez metros da rua e não tem uma cerca que separe os alunos do transito. É uma via calma e passam poucos carros fora do horário escolar, mas mesmo assim é uma rua. Crianças de 3 ou 4 anos podem facilmente sair atrás de uma borboleta ou bola e não ver onde estão indo. Não custaria nada ter uma divisória lá. Porém mais uma vez, a postura da escola é essa, de ensinar aos alunos a não irem até a rua. Não podem e não irão. E a verdade é que ninguém vai.

Terceiro e principal problema da escola (e de todo resto também, para mim é a principal coisa que incomoda no american way of life): a alimentação. Mando lunchbox de casa todos os dias, porque meus filhos se recusam a comer o almoço da escola. As opções servidas lá variam entre o ruim e o pior, flutuando entre nachos, pizza, pancakes e hamburgers. Lolo reclama até do cheiro. Para nós brasileiros que estávamos acostumados ao típico almoço de arroz, feijão, uma proteína e salada, comer essas coisas pode ser legal num começo, mas a longo prazo seu corpo não aguenta mais. E pra piorar meus filhos também não querem comer a comida feita em casa lá no refeitório, dizem que fica fria e que ninguém come isso também. Cheguei numa alternativa razoável com os dois, e que tem funcionado bem: mando para a escola um lanche reforçado. Por exemplo hoje Lolo levou cereal e leite, laranjas fatiadas, iogurte e iced tea e Nico levou sanduiche com geleia, morangos, cookies e suco de maçã. Fora esse almoço tem dois snacks na escola. Dessa forma aguentam o dia e assim que chegam da escola às 4pm comem comida de verdade em casa. O velho arroz e feijão que eu finalmente aprendi a fazer, e bem! Não é o ideal comer só a tarde, mas é o que temos.  No embalo da alimentação fica mais uma pequena critica: apesar de almoçarem na escola todos os dias, ninguém escova os dentes! As crianças passam de 8:30 a 4 da tarde lá, lancham e almoçam e ninguém leva escovas ou tem esse hábito. Não me conformo, já que é algo simples e que deveria ser inserido desde cedo na rotina infantil.

Outra questão de segurança que literalmente não entra na minha cabeça: você pode andar de moto nas rodovias, estradas, onde bem entender e não é obrigatório o uso do capacete. Você vê crianças e pais andando por aí de moto sem capacete algum. Enquanto isso até um toddler de triciclo usa capacete. Em bicicleta também todo mundo usa, até para ir na esquina. Realmente não da pra entender a lógica: se cair de bike a 20km por hora, você certamente vai quebrar a cabeça, por isso não esqueça o capacete, mas andando de moto a 100km por hora vá sentindo a brisa no rosto, relaxe…

Outra coisa que também normalmente não se imagina: cartões de crédito no Brasil são infinitamente mais seguros que aqui. O brasileiro atualmente usa senha e chip para tudo. Tudo duplamente seguro, até porque no Brasil não há outra alternativa. Aqui o chip praticamente não é usado e muita gente nem conhece. Os cartões são como aqueles antigos só de deslizar. Não se usa senha para nada. Os cartões de credito ainda são levados para os caixas dos restaurantes (não existe a maquininha portátil), e ninguém confere se você é o titular do cartão. Ainda se usa a velha assinatura na via do estabelecimento, mas ninguém checa se é a sua assinatura mesmo. É absurdamente menos confiável, mas acredito que seja um reflexo da honestidade que ainda existe por aqui. Funciona bem dentro dos EUA, mas ao viajar para fora você fica mais vulnerável a ter um cartão clonado ou alguém usando indevidamente o que é seu. Por falar em questões financeiras, o americano normalmente não dá 10% de serviço. Dá no mínimo 15 e o usual é dar 20% de gorjeta a garçons e afins para um serviço bem prestado. Pesa no bolso de quem paga, mas é excelente para quem trabalha e valoriza um bom atendimento. No cabelereiro, manicure, lava-rápido idem. Só não se dá gorjeta ao frentista porque aqui ele não existe, é você mesmo. Coisa que se aprende com facilidade, abastecer o próprio carro. Só não é nada divertido durante uma nevasca com temperaturas beirando os 20 graus negativos.

Esse último item “social” que vou descrever agora é mais uma questão de hábito e costumes de cada povo, mas que para mim causou bastante estranheza. Os americanos em geral  jantam cedo. Almoçam cedo. São pontuais e tem horários bem demarcados. Às 11:50am os restaurantes começam a ter gente, e a seis da tarde todo mundo está jantando. Nove da noite a cozinha dos restaurantes fecha, e perto das dez você provavelmente não encontra um único lugar aberto para comer na cidade a não ser fast food. Na casa das pessoas a pontualidade da visitas é extremamente importante. Se você é convidado para uma refeição, chegue no horário e ainda fique atento: vá embora no horário. Aqui um convite para almoçar, num sábado por exemplo, não é como no Brasil que se estende ao cafezinho, às crianças brincando, ao ultimo drink e muitas vezes emenda no jantar com os amigos passando o dia todo na nossa casa. Aqui você chega, come, agradece e se vai. E se você por acaso esquecer, não é raro o dono da casa encerrar a conversa, te entregar seus casacos e avisar que é hora de ir. Festa de crianças idem. Tem hora para começar e acabar. E não ouse atrasar e buscar seu filho meia hora depois do combinado, nem chegar antes para participar do parabéns. A festa é apenas para quem foi convidado, ou seja seu filho. Bem chocante para nós brasileiros, que amamos uma festa e uma bagunça. Nesse ponto é muito bom ter amigos brasileiros aqui também, do tipo que chegam na sua casa sem hora pra ir e que festejam da forma como nós gostamos de festejar.

São coisinhas essas que culturalmente nos diferem dos americanos, e ao mesmo tempo que são positivas em alguns aspectos, em outras nem tanto. Cabe a quem vem de fora se adaptar, e isso é o que eu tenho tentando nos últimos 16 meses, e procurado passar para as crianças também. Eles em muitas coisas já agem como americanos. Por exemplo quando Lolo vem com muitas formalidades ou tipo me fala que não precisa ir de casaco pra escola (12 graus lá fora – as crianças do Michigan simplesmente não tem frio) eu já vou chamando ela de “americaninha”. É uma brincadeira, mas que no fundo faz todo o sentido. Que ela nunca perca o jeito feliz e expansivo brasileiro, mas que possa ser lapidada com a educação e o amor ao próximo dos americanos.

 

 

 

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