Não é fácil, mas é muito melhor!

housework

Completamos 8 meses vivendo aqui em Michigan na semana passada. Agora estou muito diferente da menina que chegou em fevereiro, em todos os sentidos. De certa forma, aqui é mais trabalhoso. São tarefas do dia a dia, de cuidar e manter uma casa, que no Brasil passavam desapercebidas. Ao menos a mim passavam. Antes que venham com a avalanche de críticas sobre aquilo que ninguém sabe mas todos presumem, sim, no Brasil eu tinha ajuda e sim, a minha cota de trabalhos domésticos diários era mínima. Incluía talvez tirar a mesa do jantar e ordenar os armários das crianças . Era prático, era fácil ter ajuda. Mas eu era mais feliz lá? Será? Aqui sinto que vivo plenamente. Faço tudo pela minha família. Sei como a minha casa funciona, sei onde está tudo e como fazer o que quero quando preciso. Não tenho pessoas alheias vivendo dentro do nosso lar. Não preciso sentir pena de alguém que poderia estar cuidando da própria casa e dos seus filhos, mas está fazendo isso por mim, na minha casa, por pura e simples necessidade.

Acabo de tirar da máquina de lavar a terceira carga do dia. Lençóis, toalhas, roupas nossas e das crianças. Agora é hora de estender tudo (já coloco as roupas pra secar em cabides, assim não preciso ter o trabalho extra de passar a ferro – mesmo porque eu não sei passar roupa  – aí só dobro e guardo quando estão secas). Secadora de roupas uso apenas para itens de cama, mesa e banho. Edredom (outro item que eu só mandava lavar em lavanderia no Brasil) agora lavo em casa. Recolho diariamente talvez uns 50 itens espalhados pela casa, desde brinquedos, meias, papeis, sapatos. Tudo vai para o seu lugar, e lá ficam até as 4PM quando as crianças voltam da escola e a bagunça (eu chamo de vida) começa novamente. Se a garagem está empoeirada, pego mangueira e vassoura e limpo. Organizo. Recolho folhas do quintal. Não preciso pedir ou mandar alguém, e vocês não podem imaginar o tremendo alivio que isso dá. Aspirador pela casa é quase todo dia, com duas crianças correndo, entrando e saindo e gatos ativos, não tem outro jeito. O que ajuda é que aqui tem a praticidade de ter um tubo interno (como se fosse uma tomada, que fica em vários pontos da casa) onde você só encaixa o próprio sugador de pó e aspira em volta, sem precisar carregar aquele trambolho pela casa. Outra diferença é que aqui não se usa o famoso pano e balde que no Brasil faz parte de toda limpeza. Acho mais prático: os americanos tem panos úmidos descartáveis (wipes, tipo de bebê) pra tudo. Tem wipes para a bancada de granito, wipes para os eletrodomésticos, wipes para limpeza geral, wipes antibacterianos e por aí vai. Até as crianças já aprenderam: aconteceu algum desastre, pode ir pegar o wipe e limpar. Eles mesmos. Lolo e Nico já aprenderam muito aqui, e continuam aprendendo. Não só em casa, mas cultura geral também. Aqui criança segura a porta para os mais velhos. Criança cumprimenta. Sei que tudo isso acontece no Brasil também, mas não é em todo lugar que se vê. Aqui é o contrário. São poucos os lugares onde não se vê. Crianças prestam favores aos pais, fazem trabalho voluntário desde cedo. Crianças vendem biscoitos para arrecadar dinheiro para seus grupos (scout girls por exemplo) ao invés de pedir aos pais. E não estou falando de crianças de 10, 12 anos, e sim de 5 anos. Aqui se aprende que nada vem de graça. Os adolescentes nas férias, ao invés de viajar, pegam trabalhos temporários. A feira do livro na escola,  vocês pensam que alguém é contratado para isso? Não, são pais voluntários que vão lá montar, vender e guardar tudo pós evento.

Voltando ao dia a dia em casa, tenho o feijão no fogo agorinha mesmo. Esse descobri como fazer na marra, é a comida favorita das crianças. Era um inevitável item a ser aprendido aqui, já que se eu não fizer não existe outra opção de comer em lugar algum. Logo é hora de preparar o arroz, um peixe no forno e salada. Aos poucos pretendo evoluir o menu. Meus dotes culinários no Brasil incluíam o “vasto” cardápio de tapiocas e um brigadeiro divino, mas fora isso eu não tinha intimidade nenhuma com a cozinha. Sério. Não sabia nem temperar, nem tempo de cozimento, nada. Mas vou aprender. Isso é o que farei, e é o que tenho me dedicado desde que cheguei. E nada dá mais prazer do que aprender, absorver, viver uma nova cultura que aos poucos vai enraizando e abraçando você e sua família.

Aqui eu, que era a total anti-dona de casa no Brasil (não só por ter trabalhado fora ultimamente, mas sim por ter sido acostumada, mimada toda minha vida) sou capaz de manter limpa e ordenada toda uma casa, preparar jantar para a família, arrumar as roupas de 4 pessoas, levar crianças para atividades extras toda tarde e ainda ter tempo para ser feliz. Muito feliz! Sair com as amigas, almoçar fora, fazer supermercado, aulas e claro, escrever! O tempo rende e nos mostra que não, não é nada fácil estar longe do país que amamos por toda uma vida, não é fácil estar longe da família e dos amigos que te viram crescer. Estar longe das paisagens familiares, dos cheiros que só o lugar onde crescemos tem, dos abraços que só sentimos em casa. É muito difícil. Mas passar por tudo isso num país onde você é respeitado, onde seus filhos tem liberdade e onde a educação é a prioridade, faz sim tudo ficar muito mais simples. E daí de um segundo para outro você entende que vai ficar bem aqui, e que qualquer preço a pagar por isso é pouco perto da overdose de vida real que você esta recebendo.

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