Entre móveis e buffalo wings

house midlandHoje uma querida amiga me cobrou, com toda a razão, sobre os posts desse blog. Saindo do Brasil prometi que manteria esta pagina sempre movimentada, a família atualizada e todas informações dessa nova realidade devidamente postadas. Imaginei que teria uma vida americana tranquila, com tempo de sobra, filmes assistidos e pilha de livros (trouxe 20 do Brasil!) lida.

Não foi bem assim o nosso começo, mas acho que foi até melhor. Completaremos semana que vem dois meses por aqui. Muito bem vividos. Pousamos num sábado de manhã, com temperatura “amena” de – 17 graus. Tudo branco, aquele branco que embeleza, que encanta, que transforma casebres e árvores desfolhadas em cenário de filme. O estado de Michigan estava coberto de neve, quase num estado de hibernação (ao menos à primeira vista de quem chegava, as 6 horas da manhã) e logo no aeroporto de Detroit o primeiro desafio da viagem: fazer caber num carro alugado as 14 malas que trouxemos do Brasil. Mais o carrinho do Nico. Era uma minivan, mas também eram catorze malas! O bom de uma situação extrema como essa é que você não tem alternativa. Ou cabe ou cabe. E colocando malas nos pés das crianças, no meu colo e desmembrando o carrinho em partes, fechamos o porta-malas e partimos para Midland. Duas horas no carro, e chegamos então na cidade que seria nosso lar pelos próximos anos. O Fernando já morou aqui, primeiro alguns anos como criança, e depois como adulto quando veio à trabalho de novo. Ele já sabia o que esperar, e também conhece muito bem a cidade. Não que seja uma tarefa tão difícil, afinal são 40 mil habitantes e três avenidas principais, mas é bom saber onde ir quando se precisa. Já eu e as crianças apenas olhávamos pela janela, a ficha ainda não caindo totalmente. Era muita beleza, muita claridade, muito frio, um mundo novo à nossa espera. Estávamos ansiosos pela nossa casinha que só conhecíamos por fotos, então fomos espiar a nova morada antes de ir para o hotel. Quando viramos a esquina, perdi o fôlego, eu e as crianças não acreditávamos em como era linda! Muito mais bela que qualquer vídeo, foto ou google maps que vimos anteriormente. Ainda não tínhamos chaves, então a primeira visita foi uma volta ao redor dela e só. Apenas um reconhecimento de terreno, mas bastou para que já nos sentíssemos literalmente em casa. O único porém foi que estávamos com as roupas de inverno do Brasil que, well, aqui não servem para nada. Eu estava de botas e parecia que estava de havaianas. As crianças reclamavam que não sentiam mais os dedos. Todos de volta para o carro.

Ainda nesse dia, depois de descarregar a “carga pesada” no hotel, era hora comprar os móveis da casa. Nós optamos por não trazer a mudança completa do Brasil, queríamos deixar a casa montada em São Paulo, portanto enviamos apenas objetos pessoais e alguns brinquedos das crianças, que chegariam duas semanas depois. Então se a gente quisesse ter onde dormir dali uma semana na casa, teríamos que ir às compras, mesmo depois de uma viagem de quase 20 horas. Eu estava exausta, mas compras sempre me animam, não sei por que…

As crianças estavam incrivelmente  comportadas, e Nico adormeceu num sofá da loja. Na hora do almoço decidimos ir à um Red Lobster logo em frente, um típico american food com um pãozinho transgênico de comer de joelhos (não entrarei em maiores detalhes, o fast food daqui será assunto de um post logo mais). Nico foi adormecido no carro e foram, juro, apenas dois minutos entre um lugar e outro. Porém foi tempo mais que suficiente para escapar aquele xixi monstro, primeiro na cadeirinha, depois no carro, nas roupas dele, e em tudo que estava abaixo. Claro que não tinha uma única peça de roupa reserva, todas as 200 malas tinham ficado no hotel, e afinal ele já desfraldou há 1 ano!  Então a solução foi improvisar, achamos uma Marshalls e lá compramos cuequinhas (Calvin Klein, 3 dólares o pack com 4 unidades- no Brasil nem no Carrefour tem cueca a esse preço) e uma calça nova. Troquei ele num canto da loja, alguns americanos olhando torto, mas àquela altura eu nem ligava mais. Almoçamos deliciosamente e terminamos as compras de parte dos móveis. Na verdade finalizamos tudo, só faltou o quarto do Nico e por causa disso o coitado ficou sem cama até ontem, alternando noites em colchão no chão ou na cama da irmã. Mas valeu a pena, já que agora ele tem a cama barco mais linda do mundo!

O nosso primeiro fim de semana aqui foi cheio de descobertas e historias bizarras. Uma delas de uma família que estava hospedada no mesmo hotel, na verdade um Residence Inn que tem cozinha e quarto. Eram pai, mãe, 2 filhos adolescentes e o namorado da filha. Conversa vai e conversa vem na jacuzzi do hotel, e eles então nos contam que estão lá porque a casa pegou fogo. Ficamos chocados, logo perguntei se estava tudo bem, eles disseram que sim, que conseguiram salvar algumas coisas e que o seguro iria pagar tudo, além da reconstrução da casa  e esses meses no Inn também. E o pai, no meio de um ataque de riso master,  relata o que aconteceu no fogaréu, explicando que ele não tinha muita experiência na cozinha e que deixou a casa incendiar tentando fritar uma porção de buffalo wings, “a very, very HOT buffalo wing”, como ele dizia! Eu juro que não vi graça, mas Fernando caiu na risada com ele. O humor americano é bem peculiar, como estou aprendendo por aqui. Sua casa pega fogo, você vai para um hotel, você dá risada. Simples assim.

Mesmo sem incêndio ou fumaça alguma, nas primeiras noites o que com certeza mais incomodou foi o ar seco. Agora já nem sinto mais, porém nos primeiros dias acordava quase sem respirar, agoniada com a sensação de garganta doendo e respiração travada. Entrava com as crianças no banheiro de manhã cedo e ligava a água bem quente, apenas para sentir o vapor e conseguir respirar direito por alguns minutos. Mãos secas também viraram rotina, isso sem falar nas unhas que hoje em dia são curtas e nem se lembram mais o que é esmalte. É curioso como num lugar como aqui a vaidade entra em segundo plano. Aos poucos você se vê obrigada a deixar tudo aquilo que parecia fundamental e rotineiro, para dar lugar à uma nova forma de ver a vida. Abre-se mão de varias coisas, mas também entram tantas e tantas mais. E é isso que quero compartilhar com vocês aqui. Prometo que não demoro mais para voltar, e pretendo contar logo de cara sobre as escolas das crianças, que foram algumas das coisas que mais me impressionaram, tanto positiva quando negativamente.

Como tudo na vida, sempre existem dois lados🙂

 

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