Do Sul ao Norte: um gato pelas Américas

Quando aquele carro branco estacionou na frente da minha casa, já imaginei que seria problema pro meu lado. Feeling felino, sabe? Quando aquele moço simpático, irmão da minha dona, começou a me chamar com uma voz muito boazinha, então eu tive certeza. Porém, muito sorrateiramente, eu me esgueirei pelos cantos da casa. Conheço meu lar como ninguém, e sabia exatamente onde ir.
#partiuesconderijosecreto

Entrei lá e comecei a me lamber tranquilamente, já pensando em tirar uma longa siesta até que aquele moçoilo fosse embora e a paz voltasse a reinar.
-Oi gatão! Te achei!
Caramba! Como assim? Só a minha dona sabe desse meu secret spot! Acho que deve ter a ver com esse objeto falante na mão dele, com certeza me dedurou! Ele veio exatamente até a bicama do quarto do pequeno dono. E me tirou de lá. Bom, vambora, deve ser outra picada nas minhas costas ou algo assim. Tomara que não seja aquele monte de água com sabão que jogam em mim. O irmão da minha dona me carregou e gentilmente me colocou numa habitação espaçosa. Não sei bem o que é. É bem maior do que a outra caixa que sempre me colocam. É nova. Lá dentro tem um cobertor que eu gosto muito, um pano bem fofo e água! Pra que isso, gente? Um bebedouro horroroso. Todo mundo insiste em que eu tome essa água limpa sem gosto, quando a única que condiz com meu paladar é a da piscina. E claro, a água quente da banheira da minha dona, que é meu chá da tarde.

A minha irmã mais nova, Mia, ja esta na habitação dela, igualzinha a minha. Ela nem liga. Entra em qualquer lugar e acha graça. Coisa de gente jovem sabe? Acha que tudo é uma festa.
Logo tiram um monte de fotos nossas com aquele mesmo objeto falante, e o moço do carro branco ergue a minha caixa. Tá bom pessoal, já deu, me soltem, tá um solzinho lindo e quero me espreguiçar na varanda e dormir. Mas não, eles parecem nem escutar o que eu falo! Carregam a minha habitação e a da Mia até o carro branco. Nos colocam lá e fecham a porta. Já vi tudo.
#partiupasseiochato

Um tempo depois, que me pareceu bem longo, chegamos num lugar muito movimentado. Cheio daquelas caixas moles que abrem, tipo onde minha dona coloca as roupas dela quando vai me abandonar por um tempo, sabe? E quando ela faz isso, eu faço questão de entrar e deitar e deixar vários pelos brancos como um aviso.
#podepartirmasvaipartircompelonaroupa

Lá no lugar grandioso nos colocam ao lado de caixas variadas, de todos os tipos e tamanhos, que chamam de CARGA e muita gente olha pra dentro da habitação. Alguns perguntam informações sobre mim, mas eu não falo com estranhos. Fico bem no fundo, não olho pra ninguém. Já a Mia faz festa para todos eles, e ela ainda consegue relaxar e dormir! Como assim? Eu não durmo de qualquer jeito, ou com pessoas à volta, essa balbúrdia toda nem pensar. Colam etiquetas na minha habitação, e chamam ela toda hora de caixa de transporte com CARGA VIVA.
Transporte… Que eu saiba existe carro e bicicleta. E só. Eu não gostaria que me colocassem numa dessas de duas rodas. Minha pequena dona uma vez tentou me levar na bicicleta dela, mas eu não gostei nada e saltei do cestinho no meio da rua. Muita ousadia.
Passa mais um tempo longo e então avisam algo de embarcar a CARGA VIVA. Embarcar pra onde, meu Deus?? Eu embarco? Barco? Não gosto de água! Tem outros dois gatos e um cachorro muito mal encarado, daqueles pequenos feios,  que não para de latir. Nos colocam todos num carrinho, que vai dirigindo por entre vários outros carros, e passando entre máquinas gigantescas, que são brancas e de outras cores, maiores que qualquer pássaro que já vi. Até maior do que o último presente que trouxe pra minha dona, que por sinal deu bastante trabalho pra caçar, e que no fim das contas ela jogou no lixo! Que desperdício. Humanos nunca vão entender o prazer de saborear uma boa caça. Mas eu continuo caçando. É um bom esporte e eu tenho que manter a forma.
Aliás já estou com fome. Mas nem sinal de comida. Aliás nem sinal de qualquer coisa. Nos colocaram num compartimento escuro DENTRO de um dos pássaros! Sei que a Mia está de um lado, e outra gata bem peluda está de outro. Ela é bem metida e não fala com a gente, mas tudo bem porque eu nem responderia mesmo. O que será isso afinal? Todos nós aqui? Fecham a porta do pássaro e por um tempo tudo fica calmo. Bom ao menos está tranquilo e quem sabe eu consiga relaxar e finalmente cochilar e… O QUE É ISSO, caramba está tudo vibrando e andando rápido, estou espremido no fundo da habitação e parece que uma força invisível me empurra lá pra atrás, nossa cada vez mais rápido e de repente um barulhão e estamos flutuando. Meu corpo fica estranho e meu ouvido também! Parece que me empurram, como quando meu pequeno dono me colocou naquela caixa de papelão e começou a girar.
Então é assim que é dentro da barriga de um pássaro? Já abri e vi vários, mas nunca imaginei estar realmente dentro! Deve ser uma vingança pela quase uma centena de passarinhos que cacei ao longo dos meus quase 7 anos de vida.
Eu só sei que não gosto nada disso. Está ficando mais frio, a Mia se enroscou na coberta e dormiu. A gata peluda está alerta e com uma patinha na janela da habitação, e o cachorro mordendo a casa dele. Eu quero ir embora, já deu, não gosto mais dessa brincadeira de passeio. Quero dormir no meu sofá sem barulho e sem esses sacolejos. Quero meu passeio de madrugada na rua deserta. Quando ver a minha dona vou dizer que isso não é forma de me tratar, e ela vai brigar com todas essas pessoas que me colocaram nessa situação. Já fui a vários lugares (mudei de casa 6 vezes, sou muito viajado) mas de longe esse é o mais aborrecido.
#partiureclamacao

Não sei quanto tempo passou. Foi muito mesmo. Tenho fome e sede, mas me recuso a tomar essa água de garrafa. Quero meu leite desnatado. Exijo. De novo começa a sacolejar, barulhos, e um ruído alto e seco. Rolo pro outro lado da habitação agora! Mia mia assustada, e nossas casas tremem. O mala do cachorro late mais alto, e então todos os movimentos e ruídos diminuem, até parar por um segundo. E abrem a barriga do pássaro. E então entra aquele ar… Esqueçam todo frio que passei na vida. As noites que fiquei fora de casa no inverno. Os passeios nas manhãs que tinha geada. Aquele ar é a coisa mais paralisante que já senti. Entrou nos meus ossos! Aquilo sim era frio. E os cheiros? Eu não reconhecia mais nada.
#frozencat

Nos levaram então graças aos céus a uma sala quentinha. Vários espaços, gaiolas e uma tia médica. Então era veterinario mesmo, eu sabia! Mas precisava ser tão longe? Eu até gostava daquele doutor Angelo que me atendia antes.
A doutora me tira da caixa, estou desconfiado, mas ela fala manso e me acalma. E fala enrolado, nossa, nunca vi alguém usar palavras tão diferentes. E me chama de Keilou! Que porcaria de nome é esse? Não curti. Ela me olha, me aperta, me faz um carinho na cabeça e diz good boy. Sei lá o que significa. E me tranca de volta na caixa.
Depois é a vez da Mia e dos outros. Nos colocam comida, mas por algum motivo perdi toda aquela fome. Não gosto de comer nessa baderna. Passa o tempo, e um a um os pets vão sendo levados da sala. Só resta eu e a Mia. Porque tudo demora mais pra nós?? Cadê a nossa dona? Até o irmão dela eu aceito, pode vir nos buscar!
Colocam mais papéis e etiquetas na nossa caixa e finalmente vem até nós aqueles homens de uniforme de novo. Já estou feliz em ver o sol e quem sabe vou até me espreguiçar e… Ah não! Não!! Outro pássaro não! Prometo, juro, jamais caçarei outro ser voante, mas por favor, não me deixe passar outra noite na barriga de uma ave!
#partiuoração

Ninguém me ouviu. Escuridão, portas fechadas e barulhos de novo. Dessa vez só eu e a Mia. Até pra ela que é festeira já perdeu a graça. Não queremos mais. Definitivamente não gosto mais de passeio.

Pelo menos dessa vez foi rápido. Mal passamos medo e já nos tiraram da barriga do pássaro. Acho que foi minha promessa. Mas vocês sabem, morcego não conta como ave né?
Já é fim de tarde, e o carro nos leva a outro depósito. Outras pessoas. Mais frio. Já estou fraco de fome. Acho que o cansaço vai me vencer. Não quero dormir, estou sentido e entristecido. Por que fizeram isso comigo?
Escuto mais vozes. Estou cansado, mas algo me alerta. Vozes… Sons agudos e Caillou. Perai. Esse é meu nome. Mas como sabem? E falam parecido com os pequenos donos, mas eles estão tão longe e Caillouuuuuuuuuuuuu!! Uma cara linda se cola na grade da minha habitação!! É meu pequeno dono! Como eles vieram parar aqui!! Será que o pássaro gigante pegou a familia toda? Minha pequena dona quase chora! Ela está abraçada na casa da Mia! Como é bom ver vocês! E minha dona amada! Só volto a ronronar dentro do carro, no colo dela, o lugar onde mais gosto de estar no mundo.
Que bom que nos acharam! Que bom que vamos voltar pra nossa casinha! Certeza que o frio vai passar e ainda hoje vou dar um rolê e caçar umas baratas e… peraí! Que casa é essa????
#partiucasanova

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