Era uma vez um cachorro que amava o mar…

Se havia uma coisa que Billy realmente apreciava era sentar-se à beira da praia olhando o mar. Seu focinho movimentava-se aleatoriamente, pescando cheiros da maresia. Mirava ao longe, observava pessoas, e se alguém da família saía para caminhar, acompanhava seus passos com o olhar até onde a vista alcançasse. E ficava à postos esperando. Quando avistava o contorno dos donos retornando, sabia que era a chance de uma escapulida pela areia. E então ele vinha, todo feliz, abanando o rabo, ao nosso encontro. Doce Billy. Quem ficaria bravo com essas boas vindas?

Mas quem o conheceu desde filhote sabe que nem sempre foi assim, que essa paz só foi conseguida depois de muita correria e castigos no lavabo da casa de praia. Quando ele escutava a palavra “castigo”, já sabia que deveria ir ao banheiro e ficar por lá até que os ânimos se acalmassem. E olha que ele realmente nos tirava do sério. Fugia pelo condomínio, correndo numa velocidade inalcançável. Voltava quando bem lhe dava na telha, ou quando alguém o encurralava de carro. No primeiro verão da sua vida atacou guarda-sóis, furou bolas coloridas e assustou criancinhas, mesmo sendo do tamanho de um poodle. Isso porque só tinha 3 meses. O jardim, que transbordava diretamente na areia,  e ficava a poucos metros do mar, era um convite à suas maluquices. Não foram poucas as vezes que cogitamos usar até uma cerca eletrica subterrânea para conter o Billy.  Era apaixonado pela família, mas não tinha peso nenhum na consciência em causar o que fosse para gastar a sua infinita energia.

Imagine que ir a praia com um cachorro desertor já é dificil, pense então em ir a praia com um cachorro fugitivo com gesso na pata. Em seu segundo verão de vida, após um atropelamento suicida às vésperas do Natal (fruto de mais uma de suas inconsequentes fugas noturnas), Billy teve que levar pontos na cabeça e enfaixar uma das patas traseiras. Mesmo assim, se mandava sem pena. Voltava arrastando as ataduras imundas, enfarinhado em areia, e molhado até a alma. Imobilizá-lo sobre a mesa de jantar e trocar os curativos era uma rotina estressante, e pensamos seriamente que a perna não se curaria devido as inúmeras vezes em que foi preciso limpar e enfaixar tudo de novo. Mas nosso Bilão era valente, e no mês seguinte já estava bem. Com 1 ano e meio, ele então começava a se acalmar. Pesaroso pensar nisso, mas foi necessário um acidente para que ele entrasse um pouquinho nos eixos. E nem a cicatriz na cabeça que o acompanhou por toda vida o deixava menos lindo. Como era bonito nosso cachorrão.

Seu pai era um labrador chocolate, grande e forte, de quem Billy herdou a cor. E também uma eventual braveza, que se mostrava em alguns arranca rabos, principalmente envolvendo algum macho com a auto-estima maior que a dele ou qualquer fêmea que aparecesse . Era um eterno romântico. Fosse uma viralatinha capenga do sítio, ou uma labradora com pedigree, após o encontro amoroso o Billy passava dias uivando tristemente. Teve muitas “amizades coloridas”, com labras de todas as cores, e deixou mais de 30 descendentes (só diretos, imagine quantos netos, bisnetos e trinetos) espalhados por aí. Sua mãe era uma labradora preta, com um quêzinho de labralata, de quem puxou o corpo grande, magricelo e o olhar cor de caramelo. Libriano, nasceu em meados de outubro numa garagem em Osasco. No início de dezembro fomos buscar o filhote macho, único marrom, fofo demais, aquele que toda  família escolheu. Na garagem onde viveu suas primeiras semanas de vida ele parecia tranquilo em meio ao caos da ninhada. Chegando em casa, ligou o botão infernal. Corria, rolava, mordia, comia tudo que estivesse ao alcance. No primeiro ano foram telefones, chaves do carro, diversos óculos escuros, sapatos, roupas.  Os potes de ração se transmutavam em plástico retorcido, até que foram substitídos pelos metálicos, e os pés da mesa da cozinha ficaram mais finos a cada dia. Não podia ter caminha, nem cobertor, pois na manhã seguinte nada mais restava do que trapos coloridos.  Não foram poucas as vezes que fiquei com a mão furada, seus dentes-de-leite pareciam agulhas, e ele adorava exercitar a mini mandíbula. Nessa época comecei a aprender na marra a frase mais válida sobre cachorros: labrador bom é labrador cansado. Se ele não saísse de casa ao menos duas vezes ao dia, para correr ou caminhar rápido, e roesse uns 5 ossinhos, e ainda subisse e descesse as escadas atrás de algum dos gatos da casa, pode ter certeza que o pequeno Billy se faria notar. Com a boca: latindo ou comendo algo. De preferência algum eletrônico bem caro.

Adorava andar de carro, sempre com a cabeça para fora. Naquela época ainda não havia restrições a cachorros em Cumbica, e ele fez um sucesso estrondoso ao buscar meus irmãos no aeroporto. Não tinha jeito de deixá-lo no carro, pois com certeza na volta o assento estaria rasgado, ou o câmbio totalmente destruído. E como se esquecer da famosa frase, a que ele mais gostava de ouvir em todo o mundo? “Vamos passear?” E ele começava a correr descontrolado, a saltar, pegava a coleira com a boca. Quem realmente o conhecia podia afirmar que nessas horas ele até mesmo sorria. Era sua hora favorita do dia.

Com 6 meses, Billy ganhou um irmão. Com muito esforço convenci minha mãe de que seria ótimo para os nervos do Bilão (e dos nossos também) ele ter um amigo labrador com quem brincar. Dessa vez escolhemos um macho amarelo, o cachorro mais belo que já vi, que tem o focinho claro e olhos quase azuis. Batizamos de Mike. Forte desde bebê, ele também é incansável, mas sem a rebeldia do Billy. É mais contido, adestrável, e se deixa educar. Obedece e respeita, desde pequeno. Responde aos comandos, e virou realmente a companhia ideal do irmão. Nesses 12 anos de vida, não passaram mais do que duas horas separados. Foi de partir o coração ver o Mike ao lado do Billy nas suas últimas horas de vida. Companheiros até o final.

Os dois cresceram num grande jardim, e de vez em quando desatavam a correr. A gente dizia que dava a louca nos cachorros. Billy parecia um carro desgovernado, pois saía pela tangente nas curvas, de tão rápido que ia! Depois se jogavam na piscina. Mike ia direto, porém Billy precisava do seu “aquecimento”. Não sei se era um tique nervoso ou superstição canina, mas ele necessitava dar 5 voltas na piscina antes de entrar. E entrava… pela escadinha! Apoiava as patas traseiras, de repente erguia as dianteiras e se jogava! Sempre da mesma forma. Era mesmo um cachorro nada convencional.

Nos almoços, enfiava o focinho nas mãos de quem comia. Era muito pidão. Sempre ganhava algum pedacinho, e ao longo dos anos minha mãe criou o péssimo hábito de presenteá-lo com pão francês nas manhãs. De pidão passou a ser implorante. Fios de baba escorriam pela sua boca, e chegavam a se pendurar por 30 cm! Cena incrível, mas nada agradável quando se está comendo. Criou um discípulo: o gato Crocat, que aprendeu a pedir comida da mesmíssima forma, e até hoje nos arranha na mesa pedindo almoço. Billy também revirava lixos e lixeiras sempre que tinha a chance. Sem dúvida ele tinha um pé na cozinha, literalmente.  Espalhava restos por todo o canto, e comia de tudo. Não raro vomitava depois. Num Natal, enquanto a gente se arrumava e ele ficava preso na cozinha, devorou o peru da ceia. Ficou só a assadeira.

Sei que neste carnaval eu perdi o cachorro da minha vida. Junto com o Mike eles foram os companheiros da minha adolescência e começo da vida adulta. Me fizeram rir, me deixaram nervosa, me levaram pra passear, dormiram comigo muitas tardes e noites. Só com olhares a gente se entendia. O Billy adorava que eu o esticasse na caminha (quando ele finalmente ganhou e não destruiu uma) e fizesse um barulho bem esquisito na orelha dele. Era o boa noite. Era assim que a gente se falava. Agora só conversaremos em sonho. Ou em outra vida.  Hoje ele está enterrado na praia. Assim como na foto, ele terá eternamente aquilo que sempre amou: a vista do mar.

Vai em paz, meu Bilão.

14 comentários em “Era uma vez um cachorro que amava o mar…

  1. Linda homenagem. Tenho também um labrador lindão, Shadow, que está nos anos maduros de sua vida. Ele também adora o mar mas agora, infelizmente não está mais dando pra ir até à praia todo dia, como nos outros verões. Meu maior medo é de quando chegar a vez em que serei eu a escrever sobre meu grande amigo, filho, amor…

  2. Jenny querida, não conheci seu Billy, mas me senti quase íntima com a descrição que faz em seu belo texto. Linda homenagem, me tocou profundamente !

    Todo meu carinho.
    Iza

  3. Os grandes amigos são aqueles que nos tocam nos simples detalhes, como não se emocionar com um filhote e suas travessuras. Linda foto, linda mensagem.

  4. Parabéns pelo texto, muito bem escrito e emocionante. Tive o meu Fly (preto, com mãe marrom e pai preto) que me fez feliz por 12 anos. Ele se foi em 2009, mas estará sempre presente no meu coração e ao meu redor. Sinto sua presença em todos os lugares, inclusive em seu texto. A saudade dolorida passa, e dá lugar à doce saudade! Muita luz, Fabiola

  5. Jenny querida, lembro muito bem do Billy, sentado no jardim em Tabatinga, esperando uma brecha para dar uma escapada para o mar!!!!
    Um abraço bem forte querida, sei muito bem o que vcs estão passando.
    Carinho.

  6. Linda homenagem. Parabéns a nós que amamos esses fofos, deixando assim, que eles coloram as nossas vidas, e mesmo sentindo sua falta quando eles se vão, permitem-nos sorrir com doces lembranças que nos deixam.

  7. aiiiiii chorei!! dia 28/10/11 perdi meu Tito, meu gato tigrão, lindo, forte, musculoso, inteligente, voluntarioso, rei dos telhados (apesar de ser castrado), tinha 12 anos e uma cistite com complicação o levou em menos de uma semana… foi um golpe e tanto, tudo tão de repente, ainda não caiu a ficha… como teu Billy ele tb me fez feliz a cada minutinho de sua existencia, desde o dia em q foi descartado na escola q eu trabalhava, tão bebezinho, junto om seus maninhos q não resistiram e morreram, ele era arisquinho e eu só consegui resgatá-lo após 2 meses bem na época em q havia adotado o Titi, os 2 tb se criaram juntos, o Tito sempre protegendo o Titi e os demais gatinhos q eu adotei ao longo da vida… O Titi, assim como eu tb sente falta do Tito… é impossível esquecer quem só nos fez bem… Meus sentimentos!!!

  8. Je, fiquei muito emocionada! Como sabe também tenho um companheirão de 08 anos e conforme lia o texto me identificava com cada linha, com cada situação – momentos gostosos, engraçados que não voltam mais…beijos

  9. O Billy tinha o comportamento parecido com o da minha Frida. Me emocionei com suas lembranças por serem tão parecidas com as minhas. Lindo, Jenny. O Billy deve estar feliz no céu dos cachorrinhos com essa homenagem.

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