Uma mulher e suas paixões

Engravidar é esperar. Esperar um filho, aguardar ansiosamente pela sua chegada, mesmo sabendo que, após o nascimento, ele nunca mais será totalmente seu. Na barriga, ele é nosso. Podemos dizer de boca cheia: é meu bebê. Ninguém o toca, ninguém o perturba, ninguém o vê, ele é só da mãe. Acredito que daí vem o vínculo tão estreito entre mães e filhos, do fato de terem sido, mesmo que apenas por meses, totalmente um do outro. As mulheres passam por isso duas vezes, uma quando são filhas, a outra quando são mães. Experimentam os dois lados da dependência extrema, e afortunadamente vivenciam os dois lados da moeda. Todo mundo conhece a “regra” que diz que duas mulheres não podem mandar numa mesma casa. Brigas inevitáveis acontecem, e as filhas têm que partir. Chega uma hora que mães e crias entram num inevitável conflito, justamente porque a filha tem que quebrar o seu vínculo materno, se preparando para criar a nova, e provavelmente mais forte, ligação com os próprios filhos. Homens não. Eles são das mães, eternamente, porém jamais sentirão o que é ter alguém fisicamente seu. Um homem continua ligado à mãe para sempre, pois será apenas com ela que terá tão profundo elo.

Cada mãe sabe o momento em que se conectou pela primeira vez com seu bebê. E normalmente não acontece como nos filmes, quando uma suada mãe olha para seu bebê recém saído da barriga, todo esbranquiçado e sanguinolento. Nessa hora, você olha e aprende que aquele estranho é seu filho. Bonito ou feio, choroso ou quietinho, é ele e ponto. Mas o amor maternal se expressa no momento oportuno. Pode ser logo depois, na hora em que você coloca o bebê no seu colo, e ele te olha curioso. Ou na hora da primeira mamada, quando ele prontamente abocanha seu peito. Pode ser um dia em casa, quando ele sorri. Pode ser no meio da madrugada, quando você se levanta e abraça aquela coisinha chorona, e no mesmo momento ele se acalma. E então você se apaixona. Para sempre.

E a vantagem desse amor é que ele não é possessivo, dominador e nem exige fidelidade. Exige reciprocidade, isso sim, e se alimenta (e aumenta) com carinho e dedicação. É a ligação mais forte de todas, a da mãe e seu filho, e você está totalmente acomodada a esse sentimento. E então surge uma nova gravidez. Mas ao invés de dúvidas e divisões, compartilhamentos, de repartir o que já existe, surge então o poder da multiplicação. Um novo filho não é como um novo namorado ou marido. Não existe aquela dúvida, qual será melhor para mim? Quem me fará feliz? Qual devo escolher? Ter mais um filho é poder se entregar à paixão duas vezes, é ter a chance de viver o grande amor da sua vida pela segunda vez. Estar grávida novamente é como se apaixonar de novo, mas na fase adulta da vida, ao invés de  um amor adolescente. A gente tem mais maturidade, menos ansiedade e curte cada momento como único. O segundo bebê é nosso segundo amor, tão grande e intenso quanto o primeiro. Quando se trata de filhos, com certeza todas as mulheres são bígamas.

3 comentários em “Uma mulher e suas paixões

  1. Jenny querida
    Há muito não lia nada tão verdadeiro e principalmente , tão simples, sobre filhos. Você descreve precisamente o que é esse amor que tem o dom da multiplicação, como você mesma diz. Dez filhos, dez amores cada qual do su jeitinho, sem hora para começar e eterno enquanto vivermos.
    Todo meu carinho
    Iza

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