O perigo troca de casa

Segunda-feira, início de fevereiro, mais um dia de oficina do Ônibus Biblioteca. Atividades para crianças preparadas, boné para aguentar o sol a pino, e GPS engatilhado para chegar em mais um destino daqueles que definitivamente não estão nos guias de turismo da cidade. Desta vez o roteiro era o Jardim Ângela, aquele bairro que foi por anos considerado o mais perigoso de São Paulo. Fica no final da estrada do M´Boi Mirim, e não se preocupe se você não é familiarizado com essa área, ninguém conhece mesmo.

Até a história do nome é pouco conhecida, porém cheia de sentido para um nome aparentemente indecifrável. Por isso vale a pena contá-la aqui, mesmo fugindo um pouco do tema do post de hoje. A região era uma chácara, de propriedade de um barão, que criava bois e vacas. Um dia o barão-pecuarista resolveu importar um tipo novo de boi, de nome Caracu. Esta raça é de animais pequeno porte, e a criação prosperou. Anos depois, quando a chácara foi loteada e virou bairro (ah, o progresso!), deram o nome de M, devido ao sobrenome do proprietário, e Boi Mirim, devido ao diminuto tamanho dos bois que lá viviam.

Pois bem, nome explicado, hora de prosseguir ao que interessa. Segui confiante ao meu destino, mas sempre alerta, pelo histórico da região, onde eu jamais havia estado. Janelas do carro fechadas, de olhos bem abertos nos semáforos. Entretanto, ao invés de perigo, o que avistei foi um bairro pobre, mas colorido, em crescimento nem sempre organizado, porém com vasto comércio e muitas pessoas pelas ruas. Estacionei meu carro numa rua secundária, e para ser sincera, não posso negar que me cruzou a mente uma dúvida nefasta, será que ele ainda estará aí quando eu voltar? Rondava minha cabeça um parecer que li uma vez, quando a região foi considerada pela Organização das Nações Unidas como a região urbana mais violenta do mundo. Contudo o que vi não foi nada disso. Ações da comunidade em conjunto com a polícia, o governo e a prefeitura municipal ocasionaram uma drástica redução nos índices de criminalidade da região. Se enxerga pobreza, mas não se vêem mendigos. Conversei com diversas pessoas, moradores há muitos anos do bairro, e todos disseram viver em tranquilidade. Existem escolas boas, inúmeras bases da polícia militar, e muita gente feliz morando por lá. Crianças em paz. Foi a impressão que eu fiquei. Na volta, não tive mais receio. Fui embora com a sensação boa de gostei, quero voltar aqui.

Deixando o Jardim Ângela me dirigi tranquilamente ao Shopping Morumbi, onde precisava trocar de carro com o Fernando, por causa do rodízio. Andava distraída, já com fome, tendo a certeza que teria um almoço agradável, e claro, seguro. Afinal estava entrando num dos maiores malls da América Latina, num bairro considerado da classe média alta de São Paulo, cercado por escritórios de multinacionais e belas casas. Eu me sentia erroneamente inatingível naquele momento em que fazíamos o pedido no restaurante japonês. O que mais poderia acontecer de trágico a não ser o temaki vir com cream cheese ao invés de maionese? Foi quando dezenas de pessoas começaram a descer as escadas em nossa direção. Corriam, rostos marcados pelo desespero e medo. Nós nos levantamos na hora, tentando entender o que se passava. Ninguém sabia o que era, tem alguém armado, diziam. Nessa hora bate o desespero da dúvida: um assalto? Um louco maníaco? Uma ação promocional de mau gosto?

Passaram-se uns cinco minutos, entre senta e levanta, belisca um sushi que não desce direito por causa da sensação ruim, conversa com a mesa ao lado, perguntas sem respostas. Foi quando escutamos disparos, vários, e gritos terríveis de mulher. A essa altura, todas as lojas em frente já haviam baixado suas portas, e o silêncio dominou todos os corredores do shopping. Corremos, entre 20 e 30 pessoas, para o fundo do restaurante. O dono mesmo estava lá, e coordenou a entrada na cozinha. Fechou as portas, e então nos entreolhamos. Homens jovens e velhos, mulheres de terninho, garçonetes, cozinheiros, até estrangeiros haviam (com certeza não voltarão ao Brasil tão cedo), todos com o pânico estampado no rosto. Celulares nas mãos, cada um tentando descobrir o que acontecia. Incrédulos, afinal a suposta sensação de segurança e aquela certeza ridícula de sermos inabaláveis haviam caído por terra. Ficamos um bom quarto de hora por lá, até que aos poucos não se ouvia mais ruídos, e então saímos. Direto ao carro. Ligando as chaves no contato, tive aquela sensação sufocante de preciso sair daqui. 

Foi um dia totalmente ao inverso. Penso, penso e não consigo assimilar a percepção de segurança enganosa que senti. Quem me diria (e como se eu fosse acreditar também) que a parte do meu dia mais tranquila seria no Jardim Ângela, e que sentiria o desespero tomar conta de mim dentro de um Shopping Morumbi? Tem algo muito errado em tudo isso, e com certeza não é na parte da manhã do meu dia.

3 comentários em “O perigo troca de casa

  1. Minha querida filhota!!
    Como estou aliviada que tudo acabou bem, e como vc expressou bem os contrastes. Ainda estou abalada e com medo, como as coisas acontecem repentinamente, vivemos num lugar selvagem, sem leis, ou melhor, sem punições, e por isso a tendencia é tudo piorar… estou pessimista..Te amo…
    Mamma

  2. Querida Jenny,

    Fico realmente feliz por vcs estarem bem mas, realmente é difícil de assimilar a realidade. O seu lindo texto é forte mas verídico e, expressa a mais completa realidade. Se não tivermos esperancas, fica muito difícil de viver.

  3. .querida Jenny, já agradeci à Deus por er te guardado e aos demias que estvam por dentro do Shopping. Pensei que vc estivesse com à Loren, más o choque foi grande! Vcs precisam se cuidar, dei que Deus tem protegido voces, sempre peco à Ele para guardá-los e Ele tem protegido vcs! Bjos para todos! Dalva

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