Livros e mais livros

Eu amo ler. Eu preciso ler. Eu necessito. Não me sinto completa sem um calhamaço de folhas com uma capa bonita em mãos. Se for uma biografia, melhor ainda. Adoro histórias reais. Me encanta saber de fatos que realmente aconteceram, e curiosamente a verdade me surpreende mais do que a ficção. De certa forma, estórias são suposições, e talvez por isso não me captem a atenção. Se no livro houver personagens irreais, como fadas, vampiros ou crianças com superpoderes, pode esquecer. Não leio mesmo. Nem ao menos histórias de detetives ou suspenses, com suas reviravoltas elaboradas, me agradam em cheio. Me prendem mesmo as histórias de pessoas, os relatos de vida. Como as biografias da escritora Jeannette Walls, que contam a sua própria infância (O Castelo de Vidro) e a vida de sua avó (Cavalos Partidos). Prova real de que biografias não precisam ser sobre pessoas famosas. O que nós, seres comuns, vivemos tem um atrativo irrestível, principalmente ao se tratando de pessoas autênticas e famílias excêntricas. Como já diziam alguns, a grande loucura é a vida real.

Tinha 6 anos quando li meu primeiro livro inteiro sozinha. Daria tudo para lembrar o título, mas só me recordo que tinha Leão no nome. Devia ter umas 30 ou 40 páginas, e era uma história sobre um desses grandes felinos.

Hoje leio um livro a cada semana, em média. Meu livro da vez vive no meu carro, na minha bolsa. Antes de dormir é obrigatório. Na hora de esperar a Lorena sair da escola, estou lendo. Na academia, às vezes troco a esteira e o transport pela bike, só para poder passar os 50 minutos de exercício saboreando aquela história tão cativante. No trabalho do Onibus Biblioteca, enquanto as crianças criam e lêem, eu leio também. E como o tempo passa rápido. Chega a ser surreal, ler é quase como viver, com a diferença que você aperta pause quando quer, para se desligar dos personagens é só colocar o volume na estante. Na realidade da nossa própria vida esse distanciamento é levemente distinto, talvez por isso o encantamento presente nos livros, de poder saber sem sofrer. Ao menos na pele, porque quando o livro é realmente bom, os acontecimentos ficam marcados dentro da gente.

Um dos meus livros favoritos neste ano foi O Mundo Pós Aniversário, de Lionel Shriver. É baseada em fatos reais, é simplesmente uma história que te prende a cada página. Um livro que mostra duas realidades a partir de um mesmo acontecimento, como se você pudesse ver o que aconteceria na sua própria vida ao escolher um caminho diferente. É o tipo de livro autêntico, onde existe o toque da autora, mas que a realidade não é distorcida a ponto de interferir na ordem real das coisas. É totalmente verossímel. Os personagens são reais. Poderia ser seu irmão, seu vizinho. Ou você mesmo.

Outro maravilhoso foi A Ilha Sob o Mar, de Isabel Allende. Nunca imaginei que viver nas belas praias do Haiti em 1700 e tanto fosse assim dificíl. Já li quase todos os livros dessa escritora chilena, e simplesmente adoro a forma como ela escreve, as biografias da vida dela são imperdíveis. Porém não são só os livros que ficam marcados. Existem também personagens inesquecíveis, e até saudades eu sinto deles. Holden Caufield, do Apanhador no Campo de Centeio, John Jacob Turnstile, de O Garoto no Convés (recomendo muito) e a Lily, de Travessuras da Menina Má. Rindu, do Blecaute, também é um deles. Aliás esse livro do Marcelo Rubens Paiva é um dos melhores que li na vida. Deveria ser leitura obrigatória nas escolas, dessa forma não haveria como jovens de 15, 16 anos não se apaixonarem pela literatura. Como fazer alguém gostar de ler ao obrigar vestibulandos a intepretarem obras clássicas, de palavras complicadas, que não tem nada a ver com suas realidades? São livros incríveis sim, que todos deveriam ler ao longo da vida, mas não na adolescência. É certeza de não querer nunca mais ver um livro na frente. Infelizmente não me surprende mais escutar pessoas calmamente dizerem que só leram 2 ou 3 livros em toda a sua vida. E não são pessoas de baixo poder aquisitivo ou incultas, muito menos jovens. São profissionais formados e gradudados, pessoas inteligentes,  na casa dos seus 40 anos ou 50 anos, que simplesmente não apreciam a companhia das letras. Que coisa triste.

Daí meu amor ao meu trabalho atual, no Onibus Biblioteca da Prefeitura de São Paulo. Estimular crianças carentes a gostarem dos livros nem chega a ser uma tarefa, é uma enorme recompensa. Ver que eles comparecem, semana após semana, para devolver e comentar as histórias lidas, é gratificante demais. E isso acaba atraindo os pais, que vem junto e começam a ler também. Uma das meninas, moradora de uma favela na Vila Nova Cachoeirinha, um dia me disse: “eu adoro ler porque posso sair daqui, posso conhecer um monte de lugares que eu nunca vou poder ir de verdade”. Me cortou o coração ao escutá-la, entretanto depois pensei em duas coisas positivas. Num primeiro momento, que bom que ela está tendo a oportunidade de sair momentaneamente da sua realidade e ver um pouco do mundo através dos livros. E em segundo, que se ela continuar lendo, aprendendo, estudando, as chances de que um dia ela possa ver essas outras realidades descritas nos livros são muito maiores.

Um dia ainda vou ter a minha própria biblioteca. Tem gente que quer um apartamento com vista, outros uma casa com piscina, mas eu quero o meu espaço de livros. Hoje é só uma estante modesta, na esquina do meu quarto. Mas a amo muito. Adoro olhar as capas, as cores, as letras, todo o mundo que existe naquelas fileiras de livros. Lembro da época e da etapa da minha vida em que estava quando li cada um deles. Fico feliz porque ela está quase abarrotada. São um pouco mais de 200 exemplares, calculando por cima, mas na média de 50 livros ao ano a coleção deve crescer bem. Assim como tudo o que eu vou ganhar ao ler cada um deles.

2 comentários em “Livros e mais livros

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