Dia da Independência

Logo que colocamos nosso corpo para fora daquele perfeito abrigo dos 9 meses, um grande berro seguido de choro proclama nossa independência do corpo de nossas mães. Não precisamos mais do cordão umbilical, já que respiramos sozinhos e nos alimentamos através da boca. Porém ainda precisamos das mães para nos amamentar, limpar e acarinhar, embalando nosso sono todos os dias. Ainda somos dependentes.

Mais alguns meses, e queremos ser mais individuais. Não mamamos mais, e já ensaiamos alguns passos sozinhos, sonhando em conquistar o mundo. Somos independentes para pegar com nossas mãos aquilo que queremos, e colocamos na boca o  alimento. Entretanto os pais ainda nos dão banho, escolhem nossas roupas e nos colocam para dormir. Sim, continuamos dependentes.

Anos se passam, e a independência aflora ainda mais. Vamos à escola, sabemos colocar os sapatos, gostamos de escutar música e até brincamos na rua com nossos amigos. Mas papai e mamãe continuam nos levando para lá e para cá, decidem o tema da nossa festa de aniversário, a hora do almoço e para onde viajaremos nas férias. Serzinhos totalmente dependentes.

Agora somos mais altos, decidimos nossas vontades, nosso corte de cabelo e exigimos ser livres. Já podemos ir dormir mais tarde, usar o computador e nos sentimos mais à vontade com os amigos do que na casa onde nascemos. Os pais não sabem de nada e a nossa independência nos sobe à cabeça. Mas eles continuam nos buscando nas festinhas, nos dando mesada e nos obrigando a comer salada. Nada de independência por enquanto.

Quase duas décadas depois já viajamos com os amigos, temos uma linda namorada e até frequentamos a faculdade. Não sentimos mais nenhum resquício de dependência, e proclamamos nosso espaço nas noites em que os pais nos esperam de madrugada em casa, nos domingos em que nos recusamos a ir à casa da vovó e no sorriso de desdém com o qual depreciamos qualquer comentário que eles nos façam. Só que as mensalidades da faculdade são pagas pelo pai, e as roupas, lavadas pela mãe. Que independência que nada.

Já moramos sozinhos, já pagamos nossas próprias contas. Decoramos nosso apartamento com estilo, e na geladeira tem cerveja e petiscos sempre. Somos independentes, nossos pais vem apenas visitar, e a namorada que ia e vinha, agora veio de mala para ficar. Acordamos todos os dia bem cedo para trabalhar. Agora sou livre e faço o que quiser. Bem, nem tanto, hoje não posso sair porque meu chefe pediu pra esticar, e no fim de semana tem aula da Pós, então não vou viajar. Será que essa independência é mesmo a nossa realidade?

Agora as coisas mudaram, o trabalho estabilizou, o salário aumentou e a gente finalmente casou. Temos uma vida mais tranquila, e nos enxergamos claramente independentes. Como temos mais tempo, pretendemos curtir tudo aquilo que a dependência dos anos anteriores não nos permitiu. Viajar pelo mundo, curtir a Amazônia, e passar um tempo de papo para o ar na bela Trancoso. Porém esquecemos que a dependência não aceita ser largada com facilidade: existe agora uma criança, e outra na barriga surgindo, porque hoje a família também cresceu. Não chegou a hora ainda de ser independente.

Os filhos cresceram, e ao vê-los assim, tão desejosos da sua própria independência, nos lembramos da nossa. De quanto lutamos cada dia para conquistá-la, e de que quanto mais a atraíamos, mais ela nos colocava a milhas e milhas de distância. Hoje temos três carros na garagem, somos sócios de um clube e viajamos à Europa. Mas não conseguimos ficar sem ler o jornal, não deixamos nossos filhos sozinhos e não saímos de casa tranquilos sem o celular. O mundo mudou, as dependências mudaram, apenas a INDEPENDÊNCIA continua lá, onde sempre esteve: à nossa frente, bonita e inalcançável, pois ela só existe paralelamente com tudo aquilo que nós prezamos e admiramos, e principalmente, amamos. Ser totalmente independente significa abrir mão de poder contar com alguém, de cuidar, de ter um ombro amigo, de amar incondicionalmente.

Mas hoje é dia 7 de setembro, dia do nosso país, dia do início da liberdade do nosso Brasil. São 188 anos de “crescimento” livre, de independência e de andanças com as próprias pernas. E não era esse também o objetivo de todos nós, a partir do momento em que nascemos? Talvez seja sim um objetivo, uma meta importante, que é o que nos faz querer seguir adiante a cada etapa de nossas vidas, mas que na verdade não deve ser realmente alcançado, pois a proximidade com a independência nos afasta de todo o resto. Queremos ser independentes para poder crescer, para sair da escola, para nos sustentar, para nos livrar da superproteção dos pais, para casar, para ter uma família. A cada etapa que vamos cumprindo, proclamamos uma mini independência interna, deixando dependências antigas para trás e nos tornamos dependentes de novos entroncamentos em nossas vidas. O lado bom de ficar independente significa que superamos algo que foi importante, e que podemos dar então continuidade à nossa história, de certa forma iniciando uma relação de dependência com outras coisas.

E isso é a grande alegria da vida, reciclar amores e cultivar sentimentos, com a independência de poder sempre escolher que rumo tomar, que pessoas amar e como evoluir.

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