O Banquete

O Banquete foi uma bela festa, equivalente às ocasiões mundanas que temos hoje em dia, onde normalmente mais se bebe do que come. Porém, longe de ser uma comemoração atual, o Banquete foi na verdade uma obra prima escrita por Platão, por volta do ano 380 AC. É o mais famoso tratado jamais escrito sobre o desejo, e descreve um jantar no qual o dramaturgo Aristófanes e o filósofo Sócrates contam porque nós seres humanos temos um anseio tão grande pela união amorosa com o outro. Li uma referência sobre o assunto num livro, e fui em busca de mais informações. A história é intensa e de certa forma desanimadora, porém nos mostra muito claramente onde estamos situados quando mergulhamos de cabeça numa busca incessante pelo relacionamento perfeito.

O discurso de Aristófanes inicia-se com uma narração sobre tempos longínquos, quando havia deuses no céu e humanos na terra. Mas os humanos não eram da forma como somos hoje, e sim compostos de duas cabeças, quatro pernas e quatro braços. Éramos a perfeita, e bizarra, fusão entre duas pessoas. Existiam três variações sexuais possíveis, macho com fêmea, macho com macho ou fêmea com fêmea, dependendo do que combinasse melhor com cada criatura. E éramos todos felizes, inteiramente completos, já que tínhamos o parceiro perfeito atado ao próprio tecido do nosso ser. Dessa forma, todos nós,  seres de cabeças duplas e membros octópodes, vivíamos plenamente satisfeitos, percorrendo nossas vidas sem sobressaltos, de forma ordeira e sonhadora. Não sentíamos falta de nada, não existiam necessidades não atendidas e principalmente, não queríamos ninguém. Já éramos inteiros.

Entretanto, nessa inabalável inteireza, nos tornamos excessivamente orgulhosos. Os deuses foram deixados de lado, não mais os adorávamos. O poderoso Zeus, soberano do Monte Olimpo, nos puniu pelo descaso, cortando ao meio todos os seres humanos. Todos os oito membros, duas cabeças e total satisfação foram desligados para sempre, criando um mundo de entes sofredores e cruelmente separados. Nesse momento de separação em massa, Zeus impôs à toda a humanidade uma incômoda condição: a sensação surda e constante de que não somos inteiros.

Pelo resto da eternidade então, nascemos nós humanos sentindo sempre que falta alguma coisa: a metade perdida. Parte essa que amamos quase mais do que a nós mesmos. E de quebra, também convivemos com a sensação de que a parte ausente está por aí, girando pelo planeta, em forma de outra pessoa. Acreditamos piamente que, se procurarmos sem parar, talvez um dia nos deparássemos com a metade sumida, aquela outra (meia) alma. Pela união com o outro, voltaríamos então a completar nossa forma original, e nunca mais sentiríamos a solidão.

É a fantasia singular da intimidade humana: a ilógica soma de que um mais um, de certa forma, é possível de se tornar um também. Aristófanes finaliza seu discurso explicando que a realização desse sonho de c0mpletude é impossível. Como espécie, estamos despedaçados demais para algum dia sermos reconstruídos intimamente por uma simples união. As metades originais dos seres separados se espalharam demais para que qualquer um de nós consiga encontrar a sua metade faltante. A união sexual pode fazer alguém se sentir momentaneamente completo e saciado, porém, no fim das contas, ficaremos sozinhos. Segundo Aristófanes, Zeus deu aos humanos o dom do orgasmo por pena, apenas para que pudéssemos, num momento fugaz, nos sentirmos novamente unidos a alguém.

Portanto, a solidão continua, o que nos leva a diversas uniões com pessoas erradas em busca do encaixe perfeito. Às vezes, somos até ilusionados a acreditar que achamos a outra metade, contudo o mais provável é que tenhamos encontrado apenas alguém tão desesperado quanto nós em busca da sua parte. Ficamos então ambos deslumbrados, ansiando por aquela certeza que nunca vem: a de que encontramos a nossa completude  faltante.

Sócrates, por sua vez, explica que sendo o “amor”, amor de algo, esse algo é por ele certamente desejado. Mas este objeto do amor só pode ser desejado quando ele lhe falta e não quando o possui, pois ninguém deseja aquilo de que não precisa mais. Num primeiro instante queremos o amor mais que tudo, mas é fato que quando ele é por nós alcançado, diminui-se a intensidade da corrida, e então ele se transforma em algo que não precisamos mais.

O que deseja, deseja aquilo de que é carente, sem o que não deseja, se não for carente.

No discurso de Sócrates, existe um apontamento crucial sobre o conceito de amor, onde o que se ama é somente aquilo que não se tem. E se alguém ama a si mesmo, ama o que não é. O objeto do amor sempre está ausente, mas sempre é solicitado. A verdade é algo que está mais além: sempre que pensamos tê-lo atingido, o amor se nos escapa entre os dedos. Na verdade é  inatingível. Essa inquietação na origem de uma procura, visando uma paixão ou um saber, faz do amor um objetivo irreal. Sendo o “amor”, amor daquilo que nos falta, forçosamente não é belo nem bom, visto que necessariamente o “amor” é amor do belo e do bom. Não temos como desejar aquilo que já temos. O amor é inalcançável. O que é nosso pode ser adorado, porém nunca desejado. Fosse o amor alcançado, não seria mais amor, e sim apenas um desejo realizado.

A realidade é que buscamos, tanto uma metade que nos complete, quanto um amor que nos inunde, duas coisas que jamais encontraremos. Dentro de nós mesmos existe a busca e há o desejo. Assim como todos os pensadores, podemos passar a vida tentando interpretar a louca necessidade que temos de um outro. Somos um, e queremos sê-lo. Às vezes somos dois, e não podemos ser. Quem disse que estamos aqui à mercê da felicidade completa?

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