A outra concha

Não existe uma única concha que não tenha par. Elas cresceram e se desenvolveram como duas. Viveram por longo tempo unidas, seladas. Quando cumpriram a sua função, que é proteger e abrigar o molusco pela qual foram criadas, são separadas e cada uma segue seu caminho. Esse rumo depende da maré, de correntes marítimas, de outros animais ou simplesmente da sorte. Uma pode ir à praia, e a outra permanecer no fundo do oceano. Uma é lançada pelas ondas contra as pedras, a outra é colhida por uma criança de balde azul na mão. A grande e real probabilidade de toda essa situação é a de nunca se encontrarem novamente.

Será que é essa a mesma chance que temos de encontrar a nossa cara-metade durante a nossa vida também? 

Se for traçado um paralelo entre os humanos e as conchas, duas possibilidades dessa teoria podem nos alegrar e assustar. Uma, a positiva, é a constatação de que realmente existe a nossa alma gêmea, o nosso tão buscado par complementar. A outra, desanimadora, é que certamente nunca iremos encontrá-lo.

Será que somos realmente como as conchas, que num outro plano ou outra vida surgimos como espelhos de alguém, duas almas moldadas juntas, que pensam como uma só, que tem um objetivo comum? Se sim, teríamos então nosso reflexo, que se encaixa com perfeição em nós. Tem a mesma forma, é feito da mesma matéria tão rara, e principalmente, nos quer e deseja da mesma maneira intensa como nós a ele. Em suma, é aquela pessoa que nos faria eternamente feliz. Que sabe com o que sonhamos, que admira aquilo que conquistamos e batalhamos, pois um começa onde o outro termina, e o que um faz o outro também gosta, e dessa maneira se perdem em suas próprias similaridades. São completos pois tem um ao outro, e enxergam mutuamente tudo aquilo que almejam e apreciam. E no amor isso é o que realmente importa.

Mas é possível que as conchas se reconheçam? Isso é fundamental para a felicidade? Porque de certa forma o importante foi o trabalho em conjunto que realizaram, o papel protetor e complementar que exerceram naquele momento da criação do molusco, e depois, quando já não era o principal, seguiram cada uma seu caminho, levemente dispensadas. Algumas poucas permanecem juntas, e assim são encontradas, ainda presas uma à outra, por uma linha tão tênue, e ao mesmo tempo tão difícil de romper. Entretanto essas são as excessões.

A intrínseca criação das conchas não garante nada. Quando chegamos ao mundo, somos simplesmente despejados separadamente, cada um num canto, um na Ásia e outro na América, um nas ilhas centrais, outro no deserto africano. Ou então lado a lado, mas numa das maiores cidades do mundo, um enorme balde azul, onde podemos passar a vida tão próximos, e mesmo assim nunca nos reconhecermos. O destino, representado pela criança que recolhe conchas, pode eventualmente caminhar pelas rochas, e achar aquele par arremessado pelas ondas, mas mesmo assim, num balde cheio de outros belos exemplares, como assimilar que aquele um é o par único da outra? E se duas conchas se acham tão parecidas que julgam ser os pares perfeitos, mas exatamente essa presunção é o que as afasta da possibilidade real de encontrarem a sua dupla verdadeira?

Reconhecer o nosso número dois só é possível quando sabemos exatamente como nós próprios somos. O auto conhecimento é a principal maneira de (re)unir nossas conchas. Se eu sei quem sou, saberei quando avistar um igual. E mesmo que o caminho seja difícil, tão tortuoso quanto uma praia cheia de pedras, ou tão distante quanto dois continentes, o importante é a persistência. E ter a noção de que, você até pode ser feliz sem a sua metade, mas depois que a encontra,  você só será completo com ela ao seu lado.

2 comentários em “A outra concha

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