A menina dos extremos

Morena terminou as aulas no final de junho, e no dia seguinte embarcou para a Europa. Foi feliz, de mochilinha nas costas,  passar férias com a família. Foi primeiro para casa do seu avô, no sul de um país nórdico. Brincou muito no enorme e bem cuidado jardim, nadou na piscina, irradiava felicidade em todos os momentos. Dormia num quarto espaçoso, e tomava banho de espuma todos os dias. Havia uma casinha de bonecas feita especialmente para ela, e as tardes eram divididas entre visitas ao mini zoológico e brincadeiras de bolinhas de sabão com seus tios e primos. Vistou também uma bela loja de brinquedos, e escolheu praticamente tudo aquilo que queria. Num entardecer vestiu seu mais belo vestido, com sandálias brancas e uma linda tiara prateada, e foi ao casamento de seu bisavô. Brincou até não poder mais, aproveitando o clima ameno, os doces que tinha à vontade e todo o carinho da mãe ao seu lado.

Dias depois, seguiram rumo norte. Foram conhecer a capital, e Morena se deslumbrou com as lindas construções antigas, com os espaços onde ela podia correr, com os castelos onde ela imaginava encantadas princesas e com os gramados e lagos intermináveis, onde sua pequena vista não alcançava o final. Se divertiu em museus com barcos gigantescos, se admirou com torres mais altas do que qualquer lugar onde ela já havia estado. Foi mimada, tomou sorvete, ganhou balas, escondeu-se em barracas de camping numa grande loja de esportes, sonhando que dormia num lindo acampamento.

Mais um amanhecer ensolarado, outro avião e outra cidade européia. Nesta capital tão ousada, Morena parecia ter muito mais do que seus 3 anos. Andou em barcos por todos os canais, sempre com seus lápis e desenhos a tiracolo, pois nunca deixava de ser criança. Caminhou corajosamente por muitos quilometros de ruas movimentadas,  e brincou com todas as personalidades de um museu de cera. Jantou salmão e caviar à noite, e tomou uma água de muitos euros a garrafa. Frequentou o Ice Bar, e aguentou bravamente a temperatura de menos 3 graus do ambiente. Na saída, com os dentes tiritando, posou para uma foto com um urso polar.

Um dia as férias européias acabaram, e era hora de Morena regressar. Brincou no sofisticado parquinho de madeira do aeroporto, tomou café da manhã com croissant e chocolate quente belga e embarcou de volta à sua casa. Assistiu incansáveis oito vezes um desenho animado sobre gatos no avião, e desembarcando, ganhou um par de sapatos rosas que ela mesma escolheu. Adormeceu nessa noite sonhando com os dias inesquecíveis que haviam passado, percebendo que foram as melhores férias que Morena jamais poderia imaginar.

                                                                                                                          * * *

Loira estava de férias, e foi curtí-las na praia.  Foi feliz no banco traseiro do jipe, levando seus cachorros. Ficaram na casa do seu pai, um pedaço do paraíso, semi-intocado, com rio, mar e mata nativa a vontade. Se divertiu como nunca nos campos e matagais, flutuando suavemente na balança-barco, que a levava de lá para cá num vaivém empolgante. Acordava cedo e via o nascer do sol, que com suas tonalidades alaranjadas, tomava conta do azul escuro da madrugada. Brincava com amigos nativos da sua idade, correndo por praias desertas que eram só dela. Lá seu pai disse que ela podia ter o que quisesse, e então pegou lindas conchas e pedrinhas coloridas, tantas quantas coubessem em suas pequenas mãos. Numa tarde, vestiu-se graciosa e descalça, e foi a uma festinha de aniversário em outra praia. Curtiu até não poder mais, sorvendo a brisa do mar, comendo todos os docinhos que ela tanto gostava, e envolvendo-se em todo o carinho do pai companheiro ao seu lado.

Então, o tempo ficou chuvoso. Mesmo assim, as férias continuaram divertidas. Iam visitar cidades próximas, com feiras cheias de coisinhas encantadoras, onde Loira passava horas admirando pequenos artesanatos. Ela comia peixes recém pescados, arroz e feijão caseiro. Visitavam amigos, e Loira alimentava passarinhos de cores indescritíveis a cada entardecer. Certa manhã, encontrou um pinguim na praia. Vinha faminto, das águas do extremo sul das Américas. Cuidaram dele, dando calor, abrigo e sardinhas. Quis o destino que ele não sobrevivesse, e nessa data Loira colheu flores para que o pinguim tivesse uma linda despedida. Dias depois, Loira escolheu os animais de estimação que ainda gostaria de ter na casa: um casal de bodes. Ela foi mimada de todas as formas, ganhou iguarias que adorava beliscar, saboreou frutas saborosas e doces, e dormia todas as noites numa barraca de camping, sonhando que estava num lindo castelo encantado.

Mais uns dias, e o sol apareceu. Foram passear à beira-mar, e Loira curtiu o sol esquentando seu corpinho. Brincou na areia, e viu seu cachorro negro caçando caranguejos. Caminhando numa praia tão bela, Loira parecia ter mais que seus quase 4 anos. Flutuou de bote pelo rio, deslizando por suas águas calmas, sempre com suas bonequinhas ao lado, pois nunca deixava de sentir a alegria de ser criança. Comeu macarrão feito na fogueira, e tomou seu leite sob milhões de estrelas companheiras. Loira tomou banho de rio, e suportou bravamente a temperatura de cerca de 20 graus da água gelada, enxaguando seus já emaranhados cabelos com aquela água verde escura. Saindo do rio, posou sorridente e friorenta para uma foto com seu cachorro amarelo.

Um dia, as férias na praia acabaram, e era hora da Loira voltar para a cidade. Brincou no jardim de mato antes de partir, tomou seu café da manhã de leite com nescau e comeu uma banana. Curtiu a balsa que atravessava as águas em direção à terra firme, e ganhou pequenos bonequinhos feitos com conchas, para levar de recordação à sua casa. Essa noite, fechou os olhos lembrando docemente os dias que haviam passado, e constatando, realizada, que foram as melhores férias que ela poderia ter.

                                                                                                                        * * *

Morena e Loira tiveram, cada uma à sua forma, dias diferentemente perfeitos. O que elas têm em comum então?

Loira + Morena = Lorena, e esta é a minha filha e a sua história no último mês. Uma menina que é mais que perfeita porque sabe ser feliz da forma que for. Ela tem a incrível chance de poder vivenciar realidades tão diferentes, e aproveitar intensamente tudo que a vida tão generosamente lhe presenteia. Passou duas semanas na extremo norte, e duas semanas no extremo sul, e nas duas situações, teve de sobra aquilo que é mais importante para uma criança: amor incondicional e total de mãe e de pai. E ela é feliz porque, com o amor, não lhe falta absolutamente mais nada.

3 comentários em “A menina dos extremos

  1. Jenny e Lorena! Que maravilha e emocao senti em ler estas linhas! Realmente palavras escrita tao abertamente, expondo sentimentos tao profundos e de uma maneira tao sincera! Sempre peco à Deus para protege-las e abencoá-las!

    Com amor e carinho envio um beijao, já sentindo muito saudades!

    Logo é teu aniversário Lorena, parabéns!

    Kram

    Dalva e Marko från Landskrona Sverige

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