Sobre ter e não ter…

Hoje me peguei pensando sobre como valorizamos o que não temos. Como certas coisas tomam proporções diferentes dependendo da proximidade e intimidade que temos com elas. Tirando os objetos e ítens materiais, que são supérfluos, mas também tão tentadores quanto qualquer outra coisa que desejamos ardentemente, vamos nos ater àquilo que realmente importa. E o que vale é o amor que recebemos, a atenção que damos e a presença que nos enche de alegria.

A Lorena está viajando com o pai dela há exatamente uma semana. E ainda falta mais uma semana para ela voltar. Quando ela está em casa, a vida é uma loucura. Tudo são brincadeiras, correrias, ela demanda muito de mim, passamos as manhãs em grande sintonia, nos divertindo juntas. Mas também é cansativo, é necessário ensiná-la a comer direito, a se trocar sozinha, a escovar os dentes e saber os seus limites. Tem horas que eu “fujo” para o escritório, para ao menos poder checar meus emails, cansada daquela rotina de brincadeiras de aniversário de boneca, de episódios dos Backyardigans e cadernos de desenhar. Chego até a pensar que gostaria de ter um trabalho fixo que me salvasse da loucura cotidiana. Entretanto, agora, com a casa vazia, todos os brinquedos arrumados, a televisão só para mim e o computador eternamente à disposição, me faz falta a Lorena aqui do lado. Me dói não escutar ela pedindo: mamãe, vamos no parquinho? Mamãe, me faz uma maçã sem casca e cortadinha?

Por que afinal nós somos tão necessitados daquilo que, quando está a disposição, nos deixa esgotados?

Quem nunca teve um namorado que fosse carinhoso em excesso, que demandasse atenção, que gostasse de ficar grudado no sofá assistindo um filme, sem espaçar um centímetro a distância entre vocês durante duas horas? Quando estamos com uma pessoa assim, pensamos em como seria bom estar com aquele outro ser independente, que segue a sua vida, que de certa forma é até frio, mas que nos deixa ter nosso próprio espaço. Espaço esse que, quando é conquistado, nos deixa carentes de proximidade! E aí começam as saudades daquele ex tão dedicado… Vai entender a mente humana.

Aquela frase, que o gramado do vizinho é sempre o mais verde, é a máxima verdadeira. A cobiça por aquilo que não nos pertence sempre vai existir. Mas não podemos esquecer que toda essa comparação vive apenas na nossa cabeça. Somos irracionais em matéria de dosar o que queremos, e mais ainda em perceber o que realmente precisamos. Nossa própria mente nos envolve em truques nada honestos, e nosso cérebro adora propagar uma intriga em nossos pensamentos e sentimentos mais profundos.

Acredito que uma pessoa consegue ser realmente feliz quando ela percebe que a satisfação total é um patamar que nunca será atingido. Ser feliz é diferente de estar satisfeito. Você não precisa estar totalmente satisfeito para SER FELIZ. Você pode estar contente, mesmo sem um centavo no banco, mas com um príncipe encantado para amar. Você pode se sentir completo, mesmo não estando com uma pessoa que é o ideal do seu imaginário. Da mesma forma como você pode ter tudo, saúde, dinheiro, uma pessoa supostamente perfeita ao seu lado, e não estar feliz. Porque o que vai te faltar é exatamente aquilo que você não pode ter, porque já tem outra coisa que é o oposto complementar disso. É como quando uma pessoa se casa, e ela sente falta da vida de solteira. Se ela se encontrar separada algum tempo depois, vai sofrer a ausência do casamento, e isso mostra como duas coisas são tão importantes, mas também totalmente exclusivas. Você não pode ter os dois juntos.

Portanto, a felicidade deve ser buscada onde nós estamos. Jogue com as cartas que você tem. Com certeza haverá coisas melhores a sua volta, mas quem disse que são realmente melhores e mais valiosas? Você já esteve lá para saber? Provavelmente não, e se estiver disposto a arriscar, esteja ciente de que estará abrindo mão de outras coisas. Arriscar é uma arte, desde que você esteja muito consciente daquilo que suas decisões implicarão. Em relação ao nosso passado, e toda aquela adoração que todos nós temos por ele, é aí que entra a parte da nossa memória seletiva. Quando sentimos falta daquele tempo maravilhoso de faculdade, nós nos lembramos apenas das festa nos finais de semana e das aulas cabuladas no bar. As noites em claro, os trabalhos recusados, as aulas intermináveis, tudo isso fica em segundo plano. Mais um truque do nosso esperto cérebro. Na verdade, lá no fundo, você não gostaria de voltar àqueles tempos. Mas a ilusão que o termo “anos de faculdade” causa em nós é impressionante. E assim funciona com tudo o mais que queríamos ter em nossa vida, mas não dispomos no momento.

Saiba ter e desfrutar, assim como saiba não ter e aceitar. Muitas vezes aquilo que aos nosso olhos é bonito, lindo, ao nosso toque causa nada menos que dor…

4 comentários em “Sobre ter e não ter…

  1. Jenny, adorei!! É assim mesmo, temos que valorizar o que temos, e se não der, arriscar, sem ter medo de perder! Filha, te amo e te admiro muito!!!

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