Histórias de Nina II

Era um lugar lindo. Ele só sabia do que era bom. Um antigo museu, transformado em galeria e restaurante. Um belo jardim, e uma mesa perfeita. Sentaram um de frente para o outro. Pediram caipirinhas, Nina de maracujá, como sempre. Para ela, a fruta e a vodka, sua bebida favorita, eram a combinação perfeita. O doce e o azedo, o frutado e o álcool gelado. Contrastes. Olharam-se. Nina teve a estranha impressão de que algo dentro dela tentava desesperadamente reconhecer aquele homem que estava a sua frente. Ela não soube precisar o que, mas era algo muito do fundo. Ela sabia já ter visto aquela feição antes, e mesmo não acreditando nessas coisas, passou por sua cabeça que os dois já tivessem se conhecido em outra vida. Quanta besteira, ela pensou, jogando os cabelos para trás.

Ele disse que ela estava linda. Nina sabia que estava. Hoje era proposital o fato dela estar perfeitamente irresistível. Era como comprar uma passagem para uma viagem que só se realizaria no futuro. E ela sabia que ele a olhava, desejava-a. E então ele começou a falar. Falou tudo aquilo que ela esperava, e na verdade, exatamente o que Nina também pensava. Eles não queriam mais aquilo que tinham no momento. Era tanto, e ao mesmo tempo tão pouco. O melhor que poderiam ter, não era, afinal, suficiente. Nina sempre teve a sensação de que eles levavam um tempo enquanto se conectavam em cada vez que se viam, e depois desse tempo, eram totalmente um do outro. Mas isso sempre acabava.

Conversaram sobre o trabalho dela, falaram sobre a vida dele. Contaram as suas frustrações, os seus sonhos. Sempre incrivelmente surpresos com as coincidências. Até o sal. Os dois adoravam o sal. Conversaram mais seriamente. Sabiam ambos que aquele seria o último encontro em um bom tempo. Ele indagou se Nina estava o levando a sério. Ela, astuta como sempre, demonstrava a tranquilidade que realmente sentia, e isso parecia deixá-lo mais enfeitiçado ainda. Era uma mulher igual ao homem que ele era. Nada de lágrimas ou precipitações. Ela rebateu, perguntando se ele falava a sério. Ele respondeu que sim. Nina concordou. Pediram a conta.

Enquanto esperavam, ele foi sentar-se em um dos bancos do enorme jardim, levando Nina pela mão. Acostaram-se, e ele a beijou docemente. Não foi como o primeiro beijo, forte. Foi suave, como todos os últimos beijos têm que ser. Nina pretendia não beijá-lo, mas não resistiu. Ela queria. E ao ir embora, teve o impulso de mordê-lo. As mordidinhas, aquelas que os dois gostavam.

Pararam no portal da antiga sede do museu. Ele a segurou. Mais um beijo intenso. O portão era o marco. Dali em diante, os dois seguiriam suas vidas em separado. Nina deu o primeiro passo, e começou a caminhar pela movimentada avenida.

Histórias de Nina são pequenos textos de ficção sobre vida, amor e relacionamento. São pensamentos, que podem ou não ter a ver com a realidade. São necessariamente reais, mas não obrigatoriamente verdadeiros. Qualquer semelhança com fatos, pessoas ou idéias é mera coincidência.

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